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Bula AchadosA invenção de um livro ilegível

Xu Bing passou quatro anos trabalhando num livro que nem ele consegue ler. Desenhou os sinais, entalhou os tipos, acompanhou a impressão e decidiu os pormenores da encadernação. O resultado tem quatro volumes e 604 páginas. Quem se aproxima encontra a aparência respeitável de uma edição clássica chinesa, com a distribuição cuidadosa dos caracteres e o acabamento que recomenda um objeto à estante. A dificuldade começa quando se tenta ler a primeira linha.

“Book from the Sky”, conhecido como “Livro do Céu”, foi produzido entre 1987 e 1991. Seus mais de 4 mil caracteres parecem pertencer à escrita chinesa, mas foram inventados pelo artista. Xu Bing aproveitou estruturas e componentes reconhecíveis para construir sinais sem significado. O leitor pode conhecer muito bem a língua e ainda assim não avançar. Aprender mais chinês não resolve o problema.

A semelhança era uma exigência do projeto. Num depoimento ao UCCA Center for Contemporary Art, o artista explicou que pretendia fazer caracteres tão próximos dos verdadeiros quanto possível, sem que fossem verdadeiros. Uma folha coberta de rabiscos evidentes teria anunciado depressa o jogo. Era necessário manter a expectativa de leitura. A impressão deveria convidar ao exame, e o exame, por mais atento, não entregaria uma frase.

Há uma diferença considerável entre imaginar essa brincadeira e passar anos executando-a. Xu Bing teve de dominar técnicas de impressão com tipos móveis, desenhar milhares de formas e entalhá-las. A atenção exigida por cada peça não diminuía pelo fato de ela nada dizer. Um caráter mal-acabado comprometeria o efeito do conjunto tanto quanto comprometeria uma publicação feita para ser lida. A obra dependia de um trabalho competente em todas as etapas.

Em seu relato sobre a fabricação do livro, o artista descreve uma edição de 120 conjuntos, guardados em caixas de madeira de nogueira. Os detalhes prolongaram a produção até o segundo semestre de 1991. A capa azul e a encadernação costurada participavam do mesmo cuidado. O objeto precisava conservar a dignidade material de um livro antigo, inclusive para quem soubesse de antemão que suas páginas não ofereciam um texto compreensível.

A dimensão do trabalho
Uma obra em quatro volumes
4 volumes, com 604 páginas ao todoMais de 4 mil caracteres inventadosProdução entre 1987 e 1991
Por que os sinais não podem ser lidos?

Eles foram desenhados com estruturas que lembram a escrita chinesa, mas sem corresponder a caracteres com significado. A aparência familiar faz parte da obra. O desenho acima representa apenas os quatro volumes, sem reproduzir suas páginas.

A instalação amplia o desconcerto. Livros e grandes superfícies impressas cercam o visitante de escrita aparente. No mesmo relato, Xu Bing recorda que o público podia desconfiar da própria capacidade de leitura diante daquele ambiente. É uma reação compreensível. Estamos acostumados a atribuir nossa incompreensão à falta de conhecimento, sobretudo quando um objeto se apresenta com tantos sinais exteriores de autoridade.

O leitor experiente também tem seus hábitos. Reconhece a organização de uma página, a regularidade da impressão, a diferença entre um volume improvisado e outro preparado com esmero. Esses indícios ajudam a escolher o que merece atenção antes mesmo da leitura. Xu Bing conserva os indícios e retira a possibilidade de confirmar a promessa. Pode-se folhear, comparar uma página com outra, voltar ao começo. O esforço não altera o que está impresso.

O projeto ganha interesse justamente porque essa confiança não é, por si, um defeito. Livros precisam de convenções compartilhadas. Sem elas, cada abertura de volume exigiria aprender de novo como se organiza uma página. A experiência de Xu Bing permite observar tais convenções quando deixam de cumprir a função esperada. O trabalho minucioso do impressor permanece visível, embora não haja uma história ou um argumento esperando por trás dos sinais.

Anos depois, o artista seguiu outra direção com “Book from the Ground”, publicado pela MIT Press em 2014. Reuniu pictogramas, ícones e símbolos usados na vida contemporânea para narrar um dia de um trabalhador de escritório. O personagem acorda, prepara-se para sair, utiliza o transporte público, trabalha e volta para casa. A narrativa dispensa palavras e procura aproveitar sinais que circulam entre pessoas de diferentes idiomas.

A editora registra sete anos de coleta, experiências e revisão para esse segundo livro. A proposta de comunicação universal exige uma ressalva que a própria apresentação editorial permite perceber. A leitura depende da familiaridade com os símbolos da vida moderna. Reconhecer um ícone de transporte ou uma indicação de serviço também é algo que se aprende. O artista troca o repertório necessário para acompanhar a narrativa.

Os dois livros podem ocupar a mesma estante, mas pedem esforços distintos de quem os abre. Em “Book from the Ground”, reconhecer os desenhos ajuda a seguir o dia do personagem. No “Livro do Céu”, o acabamento continua oferecendo razões para insistir numa página que não será decifrada. Xu Bing providenciou até a caixa para guardar os quatro volumes. Nenhum dicionário precisa acompanhá-los.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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