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Bula AchadosUm livro para encontrar outros

O manuscrito estava numa coleção conhecida por seus documentos escandinavos, tinha uma identificação de catálogo e cerca de mil folhas. Não havia sido desenterrado nem retirado de uma parede. Estava guardado. O que faltava era reconhecer com precisão o que se guardava. Em 2019, pesquisadores da Universidade de Copenhague confirmaram que aquele volume era o “Libro de los epítomes”, um livro de resumos da biblioteca de Hernando Colón, filho de Cristóvão Colombo.

Quando Colón morreu, em 1539, sua coleção reunia mais de 15 mil itens, sobretudo impressos, além de manuscritos. Uma biblioteca desse tamanho exige alguma coisa além de boas estantes e memória. Ele desenvolveu um sistema de catálogos e índices que permitia encontrar os materiais por diferentes caminhos. Os resumos participavam dessa organização. A ideia era saber o que havia numa obra antes de precisar percorrê-la inteira.

O “Libro de los epítomes” identificado na Dinamarca contém resumos de quase 2 mil obras. O número merece ser entendido com cuidado. Uma coletânea podia fornecer vários textos para resumir, e comentários sobre uma obra também podiam receber tratamento próprio. Portanto, não se trata simplesmente de duas mil encadernações reduzidas, uma por uma, a parágrafos de tamanho igual. Os pesquisadores estão diante de uma forma de organizar textos, com decisões particulares sobre o que constitui cada unidade.

O sistema de ColónEncontrar antes de lerOs resumos participavam de uma rede de catálogos e índices.
Catálogos · identificação e localizaçãoÍndices · autores e assuntosEpítomes · conteúdo das obras
Por que obras e volumes não são a mesma conta

Uma coletânea podia reunir vários textos, resumidos separadamente. Comentários também podiam receber seu próprio epítome. Por isso, as quase 2 mil obras resumidas não equivalem necessariamente a 2 mil volumes físicos distintos.

Também não havia tamanho único para a tarefa. Algumas sínteses têm poucas linhas; outras se estendem por dezenas de páginas. O conjunto passa por literatura, medicina, música, teologia e gramática. Mais de mil autores aparecem nele. Segundo o projeto de pesquisa da Universidade de Copenhague, mais da metade desses autores era contemporânea de Colón. O colecionador acompanhava o que estava sendo publicado, em vez de se limitar a montar uma sala respeitável de nomes antigos.

A recuperação começou por uma suspeita. O historiador Guy Lazure, da Universidade de Windsor, havia consultado a coleção em 2013 e indicado que o manuscrito poderia ser um instrumento bibliográfico ligado a Colón. Anos depois, durante a revisão dos registros dos manuscritos espanhóis, os pesquisadores de Copenhague retomaram o contato com estudiosos que tinham passado pelo acervo. A pista voltou à mesa.

O trabalho incluiu comparações com documentos conservados em Sevilha e consultas a especialistas na biblioteca de Colón. O relato publicado pela pesquisadora Kıvılcım Yavuz em abril de 2019 mostra uma descoberta feita de correspondência, fotografias, confronto de registros e exame do volume. A coleção dinamarquesa já possuía um catálogo impresso desde o século 19. Um documento pode estar catalogado e continuar insuficientemente compreendido.

Nem todo o percurso do livro foi esclarecido. A equipe informa que ele aparece num inventário de 1627 da biblioteca do conde-duque de Olivares. Há indícios de sua passagem posterior por colecionadores dinamarqueses, mas as conexões entre todos os proprietários não estão igualmente documentadas. É possível contar a viagem sem preencher as lacunas com uma sequência imaginária de vendedores, malas e heranças.

A melhor explicação da utilidade do livro talvez venha de Juan Pérez, principal bibliotecário de Colón. Num documento escrito depois da morte do colecionador, ele observou que os resumos permitiam conhecer o assunto de muitas obras sem possuir todas elas. Acrescentou uma vantagem muito prática. O leitor poderia decidir se valia a pena comprar um livro e evitar títulos pomposos que prometiam mais do que entregavam. A queixa contra a propaganda editorial já estava formulada no século 16.

Essa observação muda um pouco a maneira de olhar o manuscrito. Há a ambição de organizar uma coleção enorme, mas há também o problema comum de escolher a próxima leitura e gastar bem o dinheiro. O bibliotecário não tratava todos os livros com reverência automática. Admitia que o título podia enganar e que um resumo competente ajudava a descobrir isso antes da compra.

Hoje, o volume oferece aos pesquisadores um caminho para reconstruir o funcionamento daquela biblioteca. Seus registros podem ser cruzados com outros índices e com exemplares sobreviventes. A descoberta não significa que todas as obras resumidas estivessem perdidas, nem que tenham sido recuperadas integralmente. O que reapareceu foi um instrumento para encontrá-las e conhecê-las. Depois de séculos, o livro continua prestando o serviço para o qual foi feito.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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