O prêmio valia 25 libras. Para Janet Frame, teve uma consequência que não cabia no cheque. Internada no hospital psiquiátrico de Seacliff, na Nova Zelândia, ela estava indicada para uma lobotomia quando seu primeiro livro de contos ganhou o Hubert Church Memorial Award. Segundo a escritora contou mais tarde, o médico soube do resultado pelo jornal e cancelou a operação. Era dezembro de 1952. Frame tinha 28 anos.
A notícia é espantosa o bastante para dispensar os enfeites que costuma receber. Não precisamos imaginar uma enfermeira correndo pelo corredor nem uma tesoura suspensa no último segundo. O que temos é o relato autobiográfico da autora, acolhido pela documentação de sua fundação e pelo Dictionary of New Zealand Biography. O médico se chamava Geoffrey Blake-Palmer. O livro, “The Lagoon and Other Stories”.
Até a data dessa pequena coletânea dá trabalho. A primeira edição traz 1951, mas a cronologia mantida pela instituição responsável pelo legado de Frame registra a publicação efetiva em 1952. A diferença importa numa história em que a chegada de um livro ao mundo interferiu numa decisão hospitalar. A data impressa e a circulação real nem sempre coincidem, como sabem os leitores acostumados a esperar encomendas menos decisivas.
A Caxton Press já anunciara a coletânea em 1948. Segundo a Reed Gallery, que conserva um exemplar e documenta sua história editorial, o volume reúne 24 contos breves e ainda estava em produção quando Denis Glover deixou a editora. Houve, portanto, anos de espera entre o projeto e o objeto que poderia ser comprado, lido e premiado. O acontecimento hoje resumido numa frase dependeu também desse caminho pouco vistoso entre originais e tipografia.
Sobre os registros
A cronologia do Janet Frame Literary Trust esclarece a data da publicação. O cancelamento da lobotomia é narrado pela escritora em sua autobiografia.
Frame passou por diferentes internações entre 1945 e 1955, com períodos fora dos hospitais. A década não corresponde a dez anos consecutivos de confinamento. Entre uma passagem e outra, trabalhou e escreveu. A precisão ajuda a devolver àquela mulher alguma coisa que as versões abreviadas costumam retirar dela, a existência de uma vida em andamento, com ocupações, relações e uma literatura que precedia o reconhecimento público.
A lobotomia seria uma intervenção irreversível. É desconfortável perceber que a notícia de um prêmio pôde pesar tanto no modo como a paciente era considerada. Os contos já existiam antes da decisão dos jurados. Sua autora também. O reconhecimento chegou de fora do hospital, pelas páginas de um jornal, e alterou a avaliação de quem tinha poder sobre seu tratamento. A boa notícia guarda esse incômodo, mesmo quando a contamos com alívio.
Em 1955, Frank Sargeson lhe ofereceu abrigo numa pequena construção em sua propriedade de Takapuna. Ali, Frame trabalhou no primeiro romance, “Owls Do Cry”, publicado em 1957. Era uma ajuda de outra ordem, feita de espaço e tempo para escrever. O hospital ocupa tanto lugar na história de sua consagração que esse apoio material corre o risco de parecer um detalhe. Para uma escritora tentando trabalhar, dificilmente seria.
Mais tarde, em Londres, seu diagnóstico de esquizofrenia foi revisto no hospital Maudsley. A experiência das instituições psiquiátricas reapareceria em “Faces in the Water”, de 1961. Frame construiu ainda uma extensa obra de ficção e três volumes autobiográficos. Esses livros exigem leitura própria. A curiosidade sobre a cirurgia cancelada pode nos levar até eles, mas não faz o trabalho de lê-los.
Há um desvio frequente nas histórias de escritores que sofreram. O sofrimento acaba apresentado como uma oficina privilegiada, quase uma condição necessária para a obra. A trajetória de Frame não nos dá esse direito. Ela escreveu durante uma vida atravessada por tratamentos, diagnósticos e dificuldades concretas. Também precisou sair do hospital, encontrar uma casa e continuar trabalhando.
O pequeno prêmio fica na história com seu valor exato, 25 libras. O livro premiado era o primeiro. Os que viriam depois ainda não podiam servir de argumento para ninguém.

