Anthony Bourdain (1956-2018) tinha uma visão cáustica e descontraída sobre como estava se dando em sua passagem pelo mundo, que, lamentavelmente, terminou da pior maneira. Este, porém, é um mero detalhe no ótimo “Tony”, tributo nada hagiográfico que Matt Johnson presta a Bourdain, um homem essencialmente descorçoado, um pessimista schopenhaueriano para o bem e para o mal, iconoclasta convicto que sabia que encrencas comprar. Elaborando uma retrospectiva ficcional, conquanto rigorosa, da carreira de seu biografado — de lavador de pratos a cozinheiro, de cozinheiro a chef, de chef a escritor —, Johnson chega às iluminações de espantosa crueza a respeito do que Bourdain pensava sobre o existir, a finitude e as tantas angústias inerentes à condição humana, tríade de assuntos que dominava. Mas só sabemos do protagonista o que ele mesmo deixa.
O mundo é um caldeirão
À primeira vista, não há muita diferença entre Tony e outro jovem da Nova York dos anos 1970. Conforme a história avança, entretanto, nota-se a inquietação desse espírito verdadeiramente livre, que atravessa a fronteira e se instala em Provincetown, Massachusetts, depois de não conseguir a bolsa para uma oficina literária no Vassar College. Nancy, uma paixão do ensino médio, está por trás da aventura, mas ele sabe aproveitar as oportunidades, e não pensa duas vezes quando surge uma vaga para garantir a limpeza de copos e talheres no The Flagship, experiência maior que graduações e namoricos. Johnson e os corroteiristas Todd Bartels e Lou Howe concentram-se nessa jornada algo épica de Tony muito antes de Bourdain, empenhado em tornar real um sonho a partir de uma ideia. Dominic Sessa é uma peça essencial para que não nos percamos na alma labiríntica de Tony, da mesma forma que Antonio Banderas, na pele dos vários chefs responsáveis por essa metamorfose. Como Ernest Hemingway (1899-1961), uma de suas saborosas obsessões, Anthony Bourdain amou e (se) feriu com amor.

