Quarenta anos depois de sobreviver ao ataque de Michael Myers, Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) continua vivendo à espera de seu retorno. Em Haddonfield, no estado americano de Illinois, ela transformou a casa em uma fortaleza e mantém armas ao alcance. Quando o assassino escapa durante uma transferência entre instituições, suas precauções ganham uma razão urgente. Em “Halloween”, de 2018, o diretor David Gordon Green reúne três gerações de uma família que terá de enfrentar o perigo depois de passar décadas discutindo sobre a possibilidade de ele voltar.
A proposta retoma os acontecimentos do longa de 1978 e deixa de lado as outras continuações lançadas nesse intervalo. Para acompanhar esta história, basta saber que Laurie escapou de uma noite de assassinatos e nunca conseguiu recuperar a tranquilidade. O homem mascarado permaneceu preso, mas ela continuou organizando os dias em função dele. Sua filha e sua neta cresceram sob os efeitos dessa espera, embora tenham opiniões bastante diferentes sobre os cuidados da sobrevivente.
Uma casa preparada para o pior
Laurie mora afastada, pratica tiro e controla a entrada de visitantes. Ela conhece os recursos de sua propriedade e pretende usá-los caso Michael apareça. O problema é que tamanho preparo também dificulta qualquer convivência. Para se aproximar da mãe, Karen (Judy Greer) precisa lidar com advertências, suspeitas e lembranças de uma infância em que aprender a se defender era uma obrigação.
Jamie Lee Curtis dá peso a esse desgaste sem transformar Laurie numa heroína infalível. Há determinação em seus gestos, mas também cansaço, ressentimento e dificuldade para conversar. Ela deseja proteger a família, embora frequentemente machuque as pessoas que tenta manter seguras. A atriz é especialmente boa quando deixa transparecer essa contradição nos encontros familiares. Laurie pode conhecer uma arma de olhos fechados, mas sentar à mesa com a filha exige uma habilidade que ela desenvolveu muito menos.
Green acerta ao permitir que a sobrevivente seja uma companhia difícil. Ter passado por uma experiência terrível não tornou suas escolhas inofensivas para os outros. A vigilância constante ocupou o espaço de passeios, conversas e pequenos gestos de confiança. Quando Karen mantém distância, sua resistência tem uma história que merece ser ouvida.
Filha e neta querem outra vida
Karen tenta oferecer à própria filha uma criação diferente daquela que recebeu. Para ela, Michael permaneceu por tempo demais dentro de uma casa em que sequer estava presente. Judy Greer interpreta essa mulher com uma irritação contida, nascida de discussões que provavelmente aconteceram muitas vezes. Ela quer cuidar de Allyson (Andi Matichak) sem fazer do medo uma regra doméstica.
Allyson, por sua vez, procura preservar o vínculo com a avó. A adolescente tem amigos, namorado e planos para a festa de Halloween. Também gostaria de incluir Laurie em sua vida, apesar das dificuldades entre a mãe e a avó. Matichak traz uma disposição afetuosa à personagem, mas conserva sua vontade de sair, se divertir e pensar em assuntos que não envolvam um assassino preso há quatro décadas.
Essas diferenças tornam a relação entre as três mais interessante do que uma simples divisão entre quem acredita e quem duvida. Karen tem motivos para rejeitar os métodos maternos. Allyson tem o direito de desejar uma adolescência comum. Laurie conhece um perigo que as duas não presenciaram. Antes mesmo da fuga, cada encontro exige que elas decidam quanto espaço estão dispostas a conceder umas às outras.
O assassino volta às ruas
Michael Myers (James Jude Courtney, com participação de Nick Castle) escapa após o acidente com o ônibus que o transportava. Sua volta a Haddonfield coincide com uma noite em que máscaras e pessoas circulando de porta em porta fazem parte da paisagem. Entre crianças fantasiadas e moradores distraídos, ele consegue se aproximar sem provocar estranhamento em todos os lugares.
Green tira proveito dessa familiaridade. Uma calçada, uma cozinha ou a entrada de uma residência deixam de oferecer a segurança habitual quando o agressor aparece por perto. Em algumas passagens, a câmera acompanha seus deslocamentos por tempo suficiente para que o público perceba o risco antes dos moradores. A espera pelo encontro se torna tão incômoda quanto a violência.
Há brutalidade nos ataques, e quem procura um terror discreto precisa considerar isso. O diretor preserva a ausência de explicações satisfatórias para Michael. Ele anda, observa e mata, sem oferecer uma conversa que torne suas ações mais compreensíveis. A máscara impede a leitura de suas expressões, enquanto os movimentos econômicos tornam difícil antecipar quando vai atacar.
Nem todas as situações têm a mesma força. Certas imprudências parecem existir para colocar alguém no caminho do assassino, e algumas surpresas dependem de conveniências difíceis de aceitar. Nesses trechos, Green enfraquece a tensão que construiu com tanta eficiência nas ruas. O interesse se recupera quando a atenção retorna às três mulheres e às dificuldades de mantê-las protegidas.
Laurie precisa agir apesar do medo
A fuga dá urgência aos alertas de Laurie, mas não apaga os danos causados por sua maneira de viver. Esse é um dos melhores aspectos de “Halloween”. Karen continua sendo uma filha ferida, mesmo quando precisa considerar o perigo anunciado pela mãe. Allyson continua querendo proximidade, embora passe a enfrentar uma situação muito maior do que as desavenças familiares.
Curtis sustenta o encontro entre essas duas necessidades de Laurie, enfrentar Michael e conservar a família por perto. Sua personagem se preparou durante anos, mas preparação alguma garante controle sobre uma noite inteira. Há outras pessoas nas ruas, informações incompletas e decisões tomadas sob pressão. A segurança de filha e neta exige mais do que saber atirar.
Green consegue devolver perigo a um assassino conhecido e oferece a Curtis espaço para expressar o custo de esperar por ele. Quando a ameaça se aproxima, Laurie precisa fazer aquilo que ensaiou durante décadas, vigiar as entradas, procurar a família e manter Michael longe das duas.

