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“O Alfaiate do Panamá” acompanha, na capital panamenha, um agente britânico que usa um alfaiate endividado para fabricar informações sobre o canal. Andy Osnard (Pierce Brosnan) trabalha para o serviço secreto britânico, mas está longe de ser um funcionário exemplar. Depois de se envolver com a amante de um embaixador, ele é afastado de Madri e enviado ao Panamá. A transferência parece um castigo, embora o agente enxergue no novo posto uma oportunidade de recuperar prestígio e, de quebra, ganhar dinheiro às custas do governo.

Sua missão consiste em descobrir o que o presidente panamenho pretende fazer com o Canal do Panamá, passagem essencial para o comércio mundial. O problema é que Osnard chega ao país sem uma fonte confiável entre as autoridades. Ele precisa de alguém capaz de circular perto de políticos, empresários e integrantes da elite sem levantar suspeitas.

É nesse ponto que surge Harry Pendel (Geoffrey Rush), proprietário de uma alfaiataria frequentada por alguns dos homens mais poderosos da região. Harry conhece seus gostos, escuta suas reclamações e, sobretudo, sabe guardar segredos. Ou pelo menos transmite essa impressão.

Um alfaiate cercado por segredos

Harry construiu para si uma biografia respeitável. Diz que trabalhou na tradicional Savile Row, em Londres, e administra o estabelecimento Pendel & Braithwaite com a segurança de quem veste presidentes há décadas. Por trás da boa reputação, porém, existe um ex-presidiário que aprendeu o ofício na cadeia e passou anos escondendo o próprio passado.

Louisa Pendel (Jamie Lee Curtis), sua esposa, desconhece essa parte da história. Ela trabalha junto à administração do canal, acredita na versão apresentada pelo marido e cuida dos dois filhos do casal. Harry também esconde dela uma dívida considerável, provocada por um investimento malsucedido em uma propriedade rural.

Osnard pesquisa a vida do alfaiate e descobre tudo. Em vez de denunciá-lo, oferece dinheiro em troca de informações. A proposta vem acompanhada de uma chantagem pouco sutil. Se Harry se negar a colaborar, poderá perder a confiança da esposa, a alfaiataria e a imagem que levou anos para construir.

Sem recursos para pagar o banco, Harry aceita o acordo. O alfaiate tem acesso aos poderosos, mas isso não significa que eles revelem planos secretos enquanto experimentam um paletó. Diante da cobrança de Osnard, ele começa a misturar fatos, rumores e invenções.

Mentiras feitas sob medida

Harry é um contador de histórias talentoso. Quando não possui uma informação importante, cria uma versão capaz de agradar ao agente. Pessoas comuns ganham influência política, antigos conhecidos viram conspiradores e conversas banais adquirem ares de segredo de Estado.

Osnard percebe que parte daquele material foi inventada. Ainda assim, leva os relatos adiante porque precisa apresentar resultados aos superiores em Londres. Quanto mais alarmante for a informação, maior será sua importância dentro do serviço britânico. A verdade se torna quase um detalhe administrativo, inconveniente e pouco lucrativo.

Essa relação sustenta a melhor parte de “O Alfaiate do Panamá”. Harry mente porque está endividado e teme perder a família. Osnard espalha as mentiras porque deseja dinheiro e reconhecimento. Um fabrica a mercadoria e o outro cuida da distribuição, numa parceria em que a espionagem lembra um comércio clandestino de histórias.

Geoffrey Rush dá a Harry uma mistura envolvente de simpatia, medo e vaidade. O personagem deseja ser respeitado, mas não consegue abandonar o hábito de melhorar a própria biografia. Cada nova invenção oferece algum alívio financeiro e cria uma ameaça maior. Rush preserva a humanidade do alfaiate mesmo quando suas escolhas colocam outras pessoas em perigo.

Pierce Brosnan abandona o heroísmo

Pierce Brosnan interpreta Osnard em um período no qual ainda vivia James Bond nos cinemas. A comparação torna sua atuação especialmente divertida. Aqui, o ator usa o charme de agente secreto para compor um homem vulgar, oportunista e quase inteiramente desprovido de lealdade.

Osnard bebe, seduz, chantageia e manipula sem demonstrar culpa. Ele possui a aparência impecável de um espião tradicional, mas trabalha pensando no próprio bolso. Brosnan trata essa falta de caráter com uma leveza provocadora. Seu sorriso informa que o agente já avaliou quanto pode ganhar antes mesmo de ouvir o restante da conversa.

Jamie Lee Curtis segue por um caminho mais contido. Louisa representa a vida que Harry tenta preservar enquanto se afunda nas exigências de Osnard. Sua ligação profissional com o canal também a coloca perto do centro político da história, embora ela permaneça alheia ao acordo entre os dois homens durante boa parte do filme.

Brendan Gleeson interpreta Mickie Abraxas, amigo de Harry marcado pelo período da ditadura de Manuel Noriega. Leonor Varela vive Marta, funcionária da alfaiataria que também carrega feridas deixadas pela repressão. Quando Harry usa pessoas próximas para dar credibilidade às invenções, deixa de colocar somente a própria reputação em risco.

Uma invenção chega ao governo

A situação ganha outra dimensão quando Harry afirma que o presidente pretende vender o Canal do Panamá. Para tornar o relato ainda mais atraente, ele também fala sobre uma oposição silenciosa preparada para derrubar o governo. Osnard percebe o valor político da história e a envia aos superiores sem revelar a fragilidade da fonte.

A informação passa pelos serviços britânicos e desperta interesse em autoridades norte-americanas. Aquilo que nasceu da dívida de um alfaiate começa a influenciar gente capaz de liberar dinheiro e movimentar forças militares. Harry tenta conter a confusão, mas já perdeu o domínio sobre o relato. Osnard, por sua vez, procura extrair o maior benefício possível antes que alguém confira os fatos.

John Boorman adapta o romance de John le Carré com interesse especial pela facilidade com que uma mentira conveniente sobe por instituições respeitadas. O diretor não transforma o Panamá apenas em cenário exótico. O canal possui peso político, econômico e histórico, enquanto as marcas da ditadura permanecem visíveis na vida de personagens próximos a Harry.

“O Alfaiate do Panamá” combina suspense, drama e sátira sem exigir que o público decifre uma coleção interminável de códigos. O enredo depende de algo muito mais familiar. Um homem inventa para escapar de uma dívida, outro repassa a invenção para obter prestígio e várias autoridades preferem acreditar porque a história atende aos seus interesses.

Governos possuem recursos, agentes carregam credenciais e relatórios recebem carimbos oficiais, mas nada disso transforma fantasia em fato. Basta um alfaiate eloquente, um espião ambicioso e algumas pessoas poderosas com vontade de ouvir a versão mais conveniente.


Filme: O Alfaiate do Panamá
Diretor: John Boorman
Ano: 2001
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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