Ted Kaczynski (Jacob Tremblay) tem apenas 16 anos quando entra em Harvard e passa a buscar seu lugar entre estudantes mais velhos. Nos Estados Unidos do fim dos anos 1950, sua inteligência impressiona, mas não resolve a dificuldade de se relacionar. É nesse ambiente que ele se aproxima do professor de Psicologia Henry Murray (Russell Crowe), interessado em incluí-lo em seus experimentos. Essa relação ocupa o centro de “Unabomber”, drama de 2026 dirigido por Janus Metz, que alterna a juventude do matemático com a investigação dos atentados que ele cometeria décadas depois.
A outra frente acompanha Joanne Miller (Shailene Woodley), agente fictícia do FBI encarregada de procurar o criminoso durante a onda de ataques do início dos anos 1990. Enquanto ela tenta descobrir quem está por trás das bombas, o espectador conhece o adolescente que ainda espera receber algum acolhimento na universidade. A identidade do responsável pertence à premissa. O interesse está em acompanhar a distância entre esses dois períodos, sem transformar o sofrimento do estudante numa justificativa para os crimes do adulto.
Um adolescente entre os adultos
Ted chega a Harvard com uma capacidade intelectual incomum e pouca experiência para lidar com o ambiente que passa a frequentar. Ser admitido numa universidade prestigiada não significa sentir-se parte dela. Entre pessoas mais velhas, ele procura alguém que reconheça suas ideias e lhe ofereça atenção. Murray ocupa esse espaço e conquista uma confiança que tornará a participação do rapaz em suas pesquisas especialmente delicada.
O professor reúne prestígio acadêmico, experiência e autoridade. Ted dispõe da própria inteligência, mas ainda é um adolescente diante de alguém que pode aprová-lo ou constrangê-lo. Essa desigualdade dá força ao encontro dos personagens. Há algo perturbador em ver uma necessidade tão comum, a de ser ouvido, tornar alguém mais vulnerável à pessoa que promete escutá-lo.
Tremblay assume um papel difícil porque o nome de Kaczynski chega antes dele. Qualquer sinal de desconforto pode ser interpretado pelo público como anúncio dos assassinatos futuros. O retrato do estudante ganha interesse quando permite enxergar sua juventude para além dessa expectativa. A dificuldade de pertencer merece atenção por si mesma, sem que cada gesto precise carregar uma previsão do criminoso que ele se tornaria.
A confiança vira material de pesquisa
Ao aceitar participar dos experimentos de Murray, Ted expõe suas convicções num ambiente controlado pelo professor. O debate coloca o estudante sob pressão e compromete a promessa de acolhimento que sustentava aquela aproximação. Quem parecia disposto a ouvi-lo também detém o poder de determinar as condições em que ele será questionado.
Crowe ocupa o papel de uma autoridade cuja influência depende da confiança que inspira. Murray precisa parecer alguém de quem Ted deseja se aproximar para que essa relação tenha peso. A ameaça nasce da convivência entre interesse pessoal e poder acadêmico. O estudante admira um homem que também o observa como participante de uma pesquisa.
É nessa parte que “Unabomber” apresenta sua questão mais incômoda e seu maior risco. Investigar os abusos sofridos por Kaczynski acrescenta contexto à sua história. Associá-los aos atentados por uma linha simples de causa e efeito seria insuficiente. Entre o adolescente ferido e o adulto que envia bombas existem escolhas que pertencem a ele. A violência posterior não torna aceitável o tratamento recebido em Harvard, assim como esse tratamento não absolve o autor dos ataques.
O FBI procura um homem escondido
Décadas depois, Joanne Miller trabalha para localizar alguém que permanece fora do alcance dos investigadores. A personagem concentra a parte policial do enredo e oferece outro ponto de observação sobre Kaczynski. Para ela, conhecer aquele homem tem uma finalidade urgente. É preciso encontrá-lo antes que outras pessoas sejam atingidas.
Miller insiste que o FBI dedique atenção às ideias presentes no manifesto do Unabomber. As palavras do criminoso passam a integrar a busca por sua identidade. A agente precisa examinar suas convicções sem aceitar as justificativas que ele apresenta para a violência. Esse trabalho exige uma proximidade desconfortável com alguém que ela tenta deter.
A presença de Woodley também estabelece uma diferença importante entre os dois períodos. Em Harvard, Ted está sujeito ao olhar de um professor. Na investigação, é o autor dos atentados quem tenta impor suas ideias a pessoas que nunca escolheram participar de sua revolta. O sofrimento deixa de estar restrito à sua biografia e alcança vítimas que não têm responsabilidade pelas humilhações que ele sofreu.
Joanne é uma criação ficcional, e essa informação merece acompanhar a leitura de uma obra inspirada em acontecimentos reais. Sua participação organiza a frente investigativa, mas não deve ser confundida com uma reprodução exata da atuação de uma única agente no caso.
Duas épocas e uma ligação arriscada
Metz alterna a experiência universitária com a perseguição policial e entrega ao espectador informações que Miller ainda procura. Assim, o suspense depende menos de descobrir um nome e mais de acompanhar como a investigação poderá chegar até ele. Os retornos a Harvard acrescentam contexto, embora também reforcem a tentação de procurar no professor uma explicação suficiente para tudo o que veio depois.
Essa é a tensão mais interessante de “Unabomber”. Há espaço para sentir compaixão pelo adolescente sem conceder ao adulto a desculpa que ele poderia desejar. O reconhecimento da vulnerabilidade de Ted exige cuidado, sobretudo porque a atenção dedicada ao assassino pode deixar suas vítimas à margem.
A relação entre Murray e o estudante alimenta a parte mais inquietante da proposta. Um rapaz procura reconhecimento, um professor oferece atenção e a confiança abre caminho para uma experiência abusiva. Anos depois, Miller precisa examinar as palavras daquele antigo estudante para alcançar o homem responsável pelos ataques. Entre o desejo de compreender e a urgência de interromper a violência, ela insiste na leitura do manifesto e cobra do FBI atenção às pistas deixadas por seu autor.

