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Em 1887, a professora Annie Sullivan (Anne Bancroft) chega a Tuscumbia, no Alabama, para ensinar Helen Keller (Patty Duke), uma menina de sete anos que perdeu a visão e a audição ainda bebê. A família procura ajuda porque já não sabe lidar com suas crises e teme precisar enviá-la para uma instituição. Annie acredita que pode ensiná-la a se comunicar pelo tato, mas precisa primeiro conquistar espaço numa casa onde todos desenvolveram maneiras de suportar as dificuldades sem saber muito bem o que fazer com elas.

Esse encontro está no centro de “O Milagre de Anne Sullivan”, drama biográfico de 1962 dirigido por Arthur Penn. Embora o título sugira uma transformação extraordinária, o trabalho da professora começa com tarefas tão comuns quanto comer à mesa e reconhecer um objeto pelas mãos. O interesse está no esforço necessário para estabelecer uma relação entre duas pessoas que, a princípio, não dispõem de uma linguagem compartilhada.

Uma casa sem saber como ajudar

Helen circula pela propriedade, procura o que deseja e reage com agressividade quando alguém a impede de conseguir alguma coisa. Seus gestos revelam uma criança curiosa, ativa e frustrada por não poder explicar o que sente. Patty Duke preserva essas características numa atuação de enorme exigência física. A menina pode ferir quem se aproxima, mas também está vulnerável a intervenções cujas intenções desconhece.

Sua mãe, Kate Keller (Inga Swenson), tenta protegê-la e sofre diante da possibilidade de afastamento. O pai, capitão Arthur Keller (Victor Jory), se mostra mais impaciente e recebe a nova professora com reservas. A juventude de Annie, sua pouca experiência e sua própria deficiência visual alimentam a desconfiança dele. Antes mesmo de começar as aulas, ela precisa defender a capacidade de exercer o trabalho para o qual foi chamada.

Os pais amam a filha, mas frequentemente cedem para encerrar uma crise. É uma atitude reconhecível para qualquer pessoa que já tenha escolhido alguns minutos de sossego depois de um dia exaustivo. Naquela casa, porém, as concessões se acumularam até formar uma rotina que Annie precisará interromper. Sua chegada incomoda porque exige mudanças também dos adultos.

O desgaste começa à mesa

Uma das passagens mais difíceis acompanha a insistência da professora para que Helen coma do próprio prato e use os talheres. Acostumada a apanhar comida das refeições alheias, a menina resiste à nova exigência. O que poderia ocupar poucos segundos em outra história se prolonga num embate cansativo, marcado por tentativas, recusas e contenção física.

Penn dá duração ao episódio e deixa o espectador desconfortável. Não há delicadeza capaz de tornar aquela disputa agradável. Bancroft trabalha com uma energia áspera, por vezes impaciente, enquanto Duke reage com todo o corpo à presença da mulher que passou a interferir em seus hábitos. As duas tornam palpável o desgaste de uma convivência ainda sem confiança.

Também é difícil assistir sem questionar os métodos de Annie. Seu compromisso com a educação da aluna não torna cada atitude aceitável por definição. A contenção e a imposição de obediência carregam uma dureza que merece ser observada, especialmente por quem vê a obra hoje. Duke tem participação decisiva nesse incômodo, pois mantém viva a experiência de Helen durante as tentativas da professora. A criança resiste a ordens que ainda não consegue compreender.

Duas semanas para trabalhar

Annie pede permissão para ficar sozinha com Helen numa pequena casa dentro da propriedade dos Keller. Quer estabelecer uma rotina sem a intervenção dos parentes, que costumam interromper os atritos entre as duas. Os pais concedem duas semanas, prazo que acrescenta outra preocupação às dificuldades das aulas.

O afastamento cobra bastante de Kate, que precisa confiar a filha a uma mulher recém-chegada. Para Annie, a responsabilidade cresce junto com a liberdade de trabalhar. Ela terá de mostrar algum progresso antes que a família decida encerrar a experiência. Bancroft expressa essa pressão sem transformar a professora numa figura de paciência inesgotável. Sua personagem se irrita, insiste e carrega o cansaço das tentativas anteriores.

Nas lições, Annie forma letras com os dedos na palma da mão de Helen e apresenta objetos associados àqueles sinais. A menina pode reproduzir movimentos sem reconhecer o que eles representam. Esse é o problema mais delicado do ensino, ou melhor, é o ponto em que a professora precisa descobrir se a repetição dos gestos está permitindo à aluna estabelecer alguma relação entre as palavras e aquilo que toca.

Penn concentra a atenção nas mãos e nas reações das atrizes. O espectador acompanha as tentativas sem receber uma garantia de sucesso a cada exercício. Um gesto que parece promissor pode trazer apenas outra dúvida, e Annie precisa continuar trabalhando sem saber quanto daquela lição foi assimilado.

Uma professora também marcada pela infância

As lembranças de Annie revelam uma infância atravessada pela institucionalização e pela perda do irmão. Essas experiências ajudam a compreender sua resistência à possibilidade de desistir de Helen. Ela conhece a vulnerabilidade de quem depende das decisões de outras pessoas e reage com firmeza quando os Keller demonstram disposição para aceitar pouco da filha.

Bancroft dá espessura a essa mulher ao preservar seus aspectos menos agradáveis. Annie tem convicção, mas também orgulho e impaciência. Sua dedicação ganha força porque exige esforço de alguém que traz as próprias feridas para dentro daquela casa. Ao lado dela, Duke faz de Helen uma presença que exige atenção mesmo quando não dispõe de palavras. É nos gestos da menina, em sua curiosidade e em suas recusas que as aulas precisam encontrar um ponto de partida.

Há afeto, mas ele precisa ser construído entre refeições tumultuadas, exercícios repetidos e divergências com a família. Sem revelar a resolução, basta dizer que o interesse ultrapassa a expectativa de uma conquista. Vale acompanhar o trabalho dessas duas atrizes quando uma mão procura a outra e a professora recomeça a lição.


Filme: O Milagre Chamado Anne Sullivan
Diretor: Arthur Penn
Ano: 1962
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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