Takeshi Kitano imaginou “Kubi” em 1993, escreveu um romance e levou o projeto ao cinema três décadas depois. Recém-chegado à Netflix, o épico reúne o diretor e Hidetoshi Nishijima numa disputa pelo poder no Japão, atravessada por violência, desejo e humor sombrio.
Kubi (2023)
O intervalo entre a ideia e a estreia é parte importante da história deste filme. O material oficial de divulgação registra que Kitano concebeu o projeto em 1993 e dedicou 30 anos ao desenvolvimento de sua interpretação do universo dos samurais. Nesse percurso, escreveu tanto o romance quanto o roteiro. A adaptação chegou à seleção Cannes Premiere em 2023, com o cineasta também diante da câmera.
A trama se passa no Japão do século 16, durante as guerras entre senhores que disputam o controle do território. Oda Nobunaga manda seus subordinados capturarem Araki Murashige, que se rebelou e desapareceu. A promessa de escolher um sucessor entre os mais eficientes transforma a perseguição numa competição. Obedecer ao chefe, conquistar sua confiança e preparar uma traição passam a ocupar o mesmo tabuleiro.
Kitano interpreta Hideyoshi; Ryo Kase faz Nobunaga; Hidetoshi Nishijima assume Mitsuhide. A distribuição dos papéis oferece um ponto de apoio diante de tantos nomes e alianças. Para acompanhar a disputa, vale prestar atenção a quem recebe uma ordem, a quem se beneficia dela e ao que cada personagem tenta esconder. O título, que remete às cabeças decepadas dos inimigos, já anuncia a violência desse ambiente.
O interesse da proposta está na combinação entre a dimensão histórica e o olhar de um diretor que também construiu uma carreira como comediante. Ambição e brutalidade convivem com situações absurdas, enquanto as relações de desejo atravessam as negociações políticas. Quem procura um épico de cortejos solenes e heróis exemplares encontrará aqui uma abordagem mais corrosiva. É uma indicação para conhecer a versão pessoal de Kitano sobre figuras célebres do passado japonês, sem tomar suas hipóteses dramáticas como uma reconstituição documental.
O autor também entra em cenaConhecido como Beat Takeshi, Kitano reúne nesta produção as funções de romancista, roteirista, diretor e ator. O próprio cineasta interpreta um dos homens que disputam espaço no círculo de poder de Nobunaga.

