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Em 1919, o fazendeiro australiano Joshua Connor (Russell Crowe) viaja à Turquia para procurar os três filhos desaparecidos na batalha de Galípoli, quatro anos antes. Sem notícias que permitam encerrar a espera, ele quer encontrar os corpos e levá-los para casa. Esse desejo move “Promessas de Guerra”, drama de 2014 que marcou a estreia de Crowe na direção de um longa-metragem. Para cumprir a promessa, o pai terá de enfrentar restrições militares e aceitar a ajuda de pessoas que, durante os combates, estiveram do outro lado.

Connor chega com uma disposição que os funcionários encarregados das buscas recebem sem entusiasmo. Os militares estão recolhendo e identificando restos mortais de milhares de soldados. Há procedimentos a cumprir, informações incompletas e pouca abertura para a presença de um civil. Para ele, porém, os filhos continuam sendo três pessoas com nomes, lembranças e lugar à mesa. Crowe encontra nessa diferença um ponto forte para o drama. O pai pede atenção individual num território onde os mortos ainda são contados aos milhares.

A distância entre chegar e procurar

O tenente-coronel Hughes (Jai Courtney) representa a resistência que Connor encontra em Galípoli. Responsável pelo trabalho de recuperação dos corpos, o oficial precisa preservar a organização das buscas. A insistência daquele australiano acrescenta uma dificuldade a uma tarefa já penosa. Courtney dá ao personagem uma firmeza que ajuda a tornar o impasse convincente. Hughes tem responsabilidades que ultrapassam o sofrimento de um único visitante, por mais compreensível que seja seu pedido.

Crowe interpreta Connor com uma combinação de força física e esgotamento. O fazendeiro parece disposto a cavar o terreno inteiro, mas precisa primeiro obter permissão para pisar nele. Essa impotência dá ao personagem uma vulnerabilidade que interessa mais do que sua resistência. Acostumado a resolver problemas com as próprias mãos, ele chega a um lugar onde quase tudo depende de autorização, conhecimento do território e auxílio de desconhecidos.

A direção acerta quando permanece perto dessas dificuldades. Uma conversa frustrada ou uma passagem negada bastam para expor o tamanho do desamparo. Em outros momentos, Crowe insiste no sofrimento quando a situação já oferece emoção suficiente. O peso da busca dispensa alguns dos reforços sentimentais que ele acrescenta ao caminho.

Um quarto em Istambul

Antes de alcançar o antigo campo de batalha, Connor se hospeda em Istambul, no hotel administrado por Ayshe (Olga Kurylenko). Ela também vive com uma ausência deixada pela guerra e precisa cuidar do estabelecimento e do filho, Orhan (Dylan Georgiades). O estrangeiro chega absorvido pela própria dor, mas encontra uma mulher com preocupações que não podem ser suspensas para recebê-lo.

Kurylenko dá à personagem uma reserva importante. Ayshe oferece ajuda sem se tornar uma anfitriã permanentemente disponível para o hóspede. Ela tem opiniões, responsabilidades e motivos para desconfiar daquele australiano. A guerra terminou há pouco, e a nacionalidade de Connor ainda carrega um significado incômodo naquele endereço.

A convivência permite que ele conheça pessoas que até então pertenciam apenas ao país onde seus filhos desapareceram. Ayshe também o ajuda a descobrir uma alternativa para chegar a Galípoli. O vínculo ganha interesse por nascer dessa necessidade de convivência, entre pedidos de auxílio e diferenças que nenhum dos dois consegue apagar com gentileza.

O romance, entretanto, recebe um tratamento mais açucarado do que seria necessário. Há passagens em que Crowe parece ansioso para oferecer algum conforto ao protagonista. A aproximação convence mais quando preserva o desconforto entre os personagens e dá espaço às escolhas de Ayshe. Ela tem uma vida para sustentar, e o visitante precisa respeitá-la para continuar sendo bem-vindo.

A ajuda de quem esteve do outro lado

A participação do major Hasan (Yılmaz Erdoğan) muda as condições da procura. Oficial turco e veterano de Galípoli, ele intervém para que Connor tenha a oportunidade de buscar os filhos. O pai passa a depender de um homem que combateu soldados australianos naquela mesma região. Aceitar essa colaboração exige mais do que gratidão.

Erdoğan oferece uma atuação contida, especialmente valiosa nas cenas em que Crowe deixa a emoção pesar. Hasan conhece o terreno e os acontecimentos que o visitante tenta reconstruir. Sua ajuda tem utilidade concreta, mas a experiência dos combates permanece entre os dois. Connor precisa ouvi-lo mesmo quando preferiria manter distância de tudo o que ele representa.

As conversas entre eles estão entre os trechos mais fortes de “Promessas de Guerra”. O fazendeiro chega à Turquia com um objetivo pessoal e acaba obrigado a considerar o sofrimento de quem enfrentou seus filhos. Essa aproximação ganha força porque acontece durante uma busca, com informações a reunir e caminhos a percorrer. A confiança tem de ser construída enquanto ambos seguem adiante.

O pai além da promessa

Crowe intercala a viagem com lembranças dos combates, aproximando o espectador da violência que Connor tenta conhecer anos depois. Essas passagens ajudam a dimensionar o que aconteceu em Galípoli, embora a insistência em certas imagens torne alguns trechos mais carregados. O drama já possui uma pergunta dolorosa o bastante para sustentar a atenção de quem assiste.

A persistência do protagonista também recebe, por vezes, uma força conveniente demais. Crowe aposta tanto na determinação paterna que algumas dificuldades parecem ceder à necessidade de manter a viagem em movimento. Ainda assim, sua interpretação preserva o cansaço e a insegurança de um homem que atravessou o mundo sem saber o que poderá levar de volta.

A emoção nasce do esforço para alcançar os filhos e da dificuldade de aceitar que outras pessoas conhecem melhor o caminho. Connor pode ter feito a viagem sozinho, mas, para continuar procurando, precisa abrir espaço ao lado de si para antigos adversários.


Filme: Promessas de Guerra
Diretor: Russell Crowe
Ano: 2015
Gênero: Drama/Guerra/História
Avaliação: 3.5/5 1 1
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