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Sempre há boa dose de trauma e mesmo de histeria ao se tocar em assuntos como a necessidade da devida assistência àqueles que, por um ou outro motivo, ficam de fora do contrato social, esse acordo etéreo de que políticos sabem extrair toda a força semântica. Qualquer um tem o direito de trabalhar, contrair empréstimos, quitá-los, casar, ter uma família, ser feliz, sabendo que o Estado prestar-lhe-á o devido apoio, e é nesse ponto que as coisas pateticamente saem do controle e a vida assume sua autêntica natureza de solidão, pobreza, sordidez e brutalidade, como disse o filósofo Thomas Hobbes (1588-1679) no seu “Leviatã” (1651) — e, pior, termina rápido, flertando com o cinismo genial do humor inglês. Stephanie Laing chega bem perto de Hobbes ao apontar o desprezo silencioso das autoridades e do ordenamento jurídico para com gente feito Amanda Ogle, a protagonista de “Apreensão”. A história real de uma mulher invisível, atirada à marginalidade e padecendo de uma violência bem específica é um retrato do quão vulnerável o indivíduo pode ser na imensidão opressiva do tal sistema, e de como deveríamos reagir a isso.

Gente humilde, burocracia nababesca

Aos 57 anos, Amanda mora em seu Toyota Camry azul de 1991, percorrendo toda Seattle para não ser detida por “vadiagem veicular”. Por conseguir vagas em estacionamentos públicos que a prefeitura abre para receber sem-teto durante a noite, ela nunca se meteu em encrenca com a polícia, mas numa ocasião em que chega depois da hora e perde a vez, dirige até um lugar ermo, tampa os vidros e bloqueia as portas, mas desperta aos gritos. Baseado na reportagem de Danny Westneat para o “Seattle Times”, o roteiro de Brant Boivin e Jonathan Keasey explica como ela acaba por perder o carro, enveredando sem saber por um longo vaivém burocrático, uma arapuca legal para tirar dinheiro e minar a resistência de quem assinala a falta de lógica que se vai ver. Seu veículo fica no pátio da Dick's Towing, uma empresa de reboque que lhe cobra duzentos dólares para liberá-lo, mas de um minuto para o outro o valor triplica, e atingirá estratosféricos 21.634 dólares, até ser leiloado por menos de um centésimo desse valor. 

Nunca sem minha filha

Ela recebe essas notícias enquanto se aloja no abrigo de uma igreja, vigiada de perto por Barbara, a supervisora que não admite entorpecentes, álcool e nem remédios, malgrado assuma que também já teve experiências nada honrosas, e que obriga a novata a frequentar as reuniões de um grupo de apoio caso deseje continuar a dormir numa cama limpa e tomar um banho quase quente. Rose Byrne passa de uma a outra subtrama com a facilidade habitual, e o segmento que divide com Octavia Spencer só não é melhor que a interação a distância com Elsie Fisher como Avery, a filha a cuja guarda Amanda precisou renunciar pelo vício em opiáceos. Laing contrabalança o drama doméstico da protagonista com o sem-fim de reviravoltas legais de seu caso, momento em que é socorrida por Kevin Eggers, o valente advogado idealista de Dominic Sessa. Em “Apreensão”, Byrne consegue sair-se ainda melhor que em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” (2025), dirigido por Mary Bronstein, longa voltado só a tragédias femininas, pelo qual recebeu uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Este outro magnífico trabalho de Rose Byrne faz-nos crer na perseverança de Amanda Ogle, que recuperou seu velho Toyota Camry depois de 369 dias. Sim, o homem é seu próprio lobo — mesmo numa terra em que a felicidade está na lei.


Filme: Apreensão
Diretor: Stephanie Laing
Ano: 2025
Gênero: Drama/Comédia/Biografia
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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