Quando a arte consegue transcender a beleza e trazer algo com que o público se identifique de verdade, passa-se a uma outra dimensão, um lugar onde a estética serve à mudança. Desde os primeiros minutos de “Sol de Inverno”, Hiroshi Okuyama passa longe do senso comum e da patrulha, deslindando a natureza daqueles afetos mais profundos e inclassificáveis, fustigando com cada vez mais força o preconceito e a imanente estupidez. Delicadeza, poesia e vigor andam juntos aqui, levando o público por cenas entre melancólicas e alentadoras, todas em alguma medida ligadas aos desmandos misteriosos do espírito. Enganosa, a simplicidade da infância é matéria-prima de um enredo sobre as contradições entre sentir e dominar-se, equilíbrio a que não se chega sem doses generosas de angústia.
O mundo ao redor
Em Hokkaido, o sol brilha com mais intensidade nas primeiras neves. Takuya joga basebol sem vontade, desejando estar bem longe dali, mas parece não conseguir escapar ao que os outros querem dele, incômodo que cresce e vai piorar. A queda das temperaturas não é um consolo, uma vez que o gelo é o sinal de que irão voltar os treinos de hóquei, e a agonia do garoto se prolonga, embora ele saiba disfarçá-la bem. Okuyama preenche seu roteiro com essa prostração mais e mais óbvia de Takuya, enquanto conduz a história a uma virada. Arakawa, um ex-campeão de patinação artística que agora é técnico da seleção estudantil local, percebe o interesse de Takuya pelo esporte, empresta-lhe os patins que não usa mais e passa a supervisionar seus treinos, cujo rendimento deve-se a uma razão especial. O diretor acha um modo a um só tempo direto e lírico de abordar o amor imaturo de Takuya e Sakura, a patinadora a quem o protagonista devota uma paixão súbita e avassaladora, contrapondo-o à relação de Arakawa com Igarashi, o namorado em permanente conflito com sua identidade. Não é fácil dizer quem se sai melhor entre Keitatsu Koshiyama, Kiara Nakanishi e Sōsuke Ikematsu, mas uma coisa é certa: Okuyama faz um registro dos mais portentosos da efêmera beleza das relações.

