Cenário perfeito para a eclosão de episódios de violência, em que gangues enfrentam a polícia de igual para igual, contando com o aparato bélico que conseguem mediante o tráfico de armas, a compra e venda de drogas alimenta um mercado que, segundo estimativas históricas divulgadas pela Unifesp, movimentava cerca de 900 bilhões de dólares ao ano em todo o mundo, o correspondente, na comparação então apresentada, a 1,5% do PIB mundial ou um terço do que o Brasil produzia em doze meses. Nos rincões de países ricos e pobres, a guerra de grupos criminosos que se digladiam pelo comando de bocas de fumo assombrosamente rentáveis seduz homens jovens e de baixa escolaridade, quase sempre negros, com a falsa promessa de ganhos estratosféricos para sua realidade de miséria e humilhação, conjuntura que vai se desdobrando num mosaico de dramas íntimos e socioeconômicos. John Swab junta todas essas questões em “King Ivory: Vício das Ruas”, dissecando a epidemia de fentanil que assola Oklahoma, alastrando-se rápido pela América inteira. Swab demonstra habilidade ao elaborar hipóteses acerca da relação entre o narcotráfico e o apodrecimento das instituições, enquanto faz um recorte melancólico de dores que não saem no jornal.
Paraísos artificiais
Conchavos entre gângsteres dentro de um presídio são o movimento inicial para que o fentanil chegue às ruas, não sem despertar a cobiça e a fúria de bandidos de outras facções. George Greene ganha a confiança de Holt Lightfeather, que trabalha para sua soltura e só pede que ele o ajude a vencer Ramón Garza, que passou da mercancia de entorpecentes para o tráfico de pessoas. Policiais antidrogas de Tulsa, a segunda cidade mais populosa de Oklahoma, no nordeste do estado, já estão a par dos planos de Greene e Lightfeather, e Layne West é um dos mais entusiasmados, ainda que disfarce bem. Juntamente com o parceiro Ty Grady, West, arquétipo do tira durão e abnegado, vai com tudo para cima da bandidagem, mas leva um balde de água fria quando fica sabendo que Jack, o filho adolescente, tornou-se um freguês dos arqui-inimigos do pai, e talvez não volte. Costurando os dois segmentos da história, James Badge Dale é o grande nome do filme, desembaraçado tanto nas sequências de maior tensão ao lado de Ben Foster e George Carroll como em momentos mais introspectivos. Retratar esse rei ilusoriamente gentil como um tirano também é um ponto forte aqui, claro.

