Depois de sobreviver à guerra do Iraque, o fuzileiro naval Logan Thibault (Zac Efron) viaja até a Louisiana para procurar uma mulher que nunca conheceu. Ele acredita que a fotografia dela, encontrada durante o serviço militar, ajudou a mantê-lo vivo. A intenção é agradecer, mas falta coragem para explicar uma história que pode soar bastante estranha a quem está ouvindo. Esse encontro dá início a “Um Homem de Sorte”, romance de 2012 dirigido por Scott Hicks, no qual um agradecimento adiado se transforma em um segredo entre duas pessoas que começam a se apaixonar.
Adaptado do livro de Nicholas Sparks, o longa reúne os ingredientes que seus leitores conhecem bem. Há perdas familiares, um homem disposto a recomeçar, uma mulher receosa de se envolver e dificuldades suficientes para atrapalhar o namoro. A familiaridade tem seu conforto, sobretudo quando os protagonistas conseguem despertar interesse para além das coincidências que os colocaram no mesmo endereço.
Uma desconhecida no retrato
Durante uma missão no Iraque, Logan encontra no chão a fotografia de uma mulher e se afasta para recolhê-la. Pouco depois, um ataque atinge o lugar onde estava. Ele sobrevive e passa a guardar a imagem, convencido de que aquele pequeno desvio salvou sua vida. Sem conseguir localizar o dono, leva o retrato consigo durante o restante do serviço.
Quando retorna aos Estados Unidos, o militar tem dificuldade para retomar a convivência familiar. O perigo ficou para trás, mas seu corpo ainda reage a situações cotidianas com o alerta de quem permanece em combate. Procurar a mulher da fotografia lhe oferece um destino e alguma coisa para fazer com a gratidão que carrega.
Ela é Beth (Taylor Schilling), uma mãe que administra um canil com a avó, Ellie (Blythe Danner). Ao receber o desconhecido, Beth presume que ele veio se candidatar a uma vaga de emprego. Logan tenta contar a verdade, hesita e aceita o mal-entendido. É uma solução conveniente para continuar perto dela, embora deixe uma pergunta incômoda para o espectador. Se ele atravessou tanta distância para agradecer, por que desiste de falar quando finalmente tem a oportunidade?
Um emprego e alguma desconfiança
Beth recebe o candidato com cautela. Ela tem um filho, responsabilidades no negócio e pouca disposição para acolher um estranho que oferece informações pela metade. Ellie, mais receptiva, decide dar uma chance ao rapaz. Blythe Danner acrescenta leveza a essa convivência com a desenvoltura de uma avó que observa tudo e dispensa solenidades. Sua simpatia ajuda Logan a permanecer onde a neta ainda preferia manter alguma distância.
O trabalho permite que ele conquiste espaço aos poucos. Entre os cuidados com os animais e a ajuda nas tarefas da propriedade, Beth conhece um homem atento, reservado e disposto a colaborar. Para alguém acostumada a resolver tantos problemas, ter companhia sem receber outra lista de exigências já representa um bom começo.
Zac Efron aposta na contenção. Fala pouco, mantém uma postura rígida e deixa que o desconforto do ex-combatente apareça nos gestos. A escolha combina com Logan, embora também o torne excessivamente correto em alguns momentos. Prestativo, paciente e habilidoso, ele parece reunir qualidades demais para alguém que chegou sem conseguir explicar a própria visita. Falta alguma imperfeição cotidiana que o aproxime das pessoas que precisam pensar duas vezes antes de abrir a porta de casa.
Beth tem mais a perder
A aproximação ganha força quando Logan estabelece uma amizade com Ben (Riley Thomas Stewart), filho de Beth. O menino recebe sua atenção com entusiasmo, enquanto a mãe observa o vínculo crescer. A presença do funcionário passa a fazer parte da vida familiar, aumentando tanto o afeto quanto a responsabilidade de permanecer ali.
Taylor Schilling dá a Beth uma mistura convincente de interesse e receio. Ela deseja companhia, mas precisa considerar o que um novo relacionamento pode provocar na rotina do filho. Seu cuidado impede que a personagem exista apenas para aliviar o sofrimento do protagonista. Beth também tem perdas, desejos e assuntos que preferiria manter longe de um desconhecido.
O problema mais insistente atende pelo nome de Keith Clayton (Jay R. Ferguson), seu ex-marido e policial da cidade. Ciumento e controlador, ele continua interferindo nas escolhas dela e ameaça disputar a guarda de Ben. A possibilidade de perder a convivência com o menino torna suas investidas especialmente cruéis. Beth precisa calcular o custo de contrariá-lo mesmo depois da separação.
Ferguson interpreta Keith com uma agressividade que deixa pouco espaço para nuances. É fácil rejeitá-lo desde cedo, e essa facilidade empobrece a disputa. Logan ganha pontos quase sem esforço diante de um rival tão desagradável. Ainda assim, as ameaças do ex-marido dão consistência ao medo de Beth, que precisa lidar com alguém acostumado a usar o filho para prolongar seu controle sobre ela.
Uma conversa adiada por tempo demais
Scott Hicks trabalha melhor quando permite que o casal compartilhe a rotina. A atração cresce entre o serviço no canil, a convivência com Ben e a presença acolhedora de Ellie. Esses encontros dão tempo para que Beth baixe a guarda e para que Logan experimente uma vida menos solitária.
A fotografia, porém, continua sem explicação. Quanto mais intimidade ele recebe, menos convincente fica o silêncio. A dificuldade inicial de abordar um assunto delicado é compreensível. Sustentá-la enquanto começa um namoro exige uma boa dose de tolerância do público.
“Um Homem de Sorte” oferece um romance sentimental, com protagonistas atraentes e conflitos reconhecíveis, embora dependa bastante da paciência de quem assiste. Efron e Schilling tornam agradável acompanhar a aproximação, especialmente quando os personagens podem conversar sem a interferência do ex-marido. O que enfraquece essa relação é o tempo gasto adiando uma informação essencial. Beth permite que Logan participe de sua casa, de seu trabalho e da vida do filho. A cada nova abertura, cresce a vontade de vê-lo finalmente explicar por que chegou ali.

