Helen Grace (Mary-Louise Parker) se muda com os três filhos para um casarão antigo depois da separação do marido. Ela procura um lugar onde a família possa recomeçar, mas os primeiros dias na propriedade são marcados por objetos desaparecidos e acontecimentos difíceis de explicar. Lançado em 2008 e dirigido por Mark Waters, “As Crônicas de Spiderwick” acompanha os irmãos Jared, Simon e Mallory quando a investigação dessas confusões revela criaturas escondidas nos arredores da casa. O endereço escolhido para dar algum sossego à família acaba exigindo dos novos moradores uma boa dose de coragem.
Jared e Simon são interpretados por Freddie Highmore, enquanto Sarah Bolger vive a irmã mais velha, Mallory. Os três chegam contrariados, embora cada um tenha sua maneira de demonstrar isso. Jared é quem reage com mais irritação. Sente falta do pai, resiste à mudança e desconta nos parentes uma frustração que ainda não sabe administrar. Quando alguma coisa dá errado, ninguém precisa procurar muito por um culpado. O nome dele costuma ser o primeiro da lista.
Um suspeito dentro de casa
Essa desconfiança dá à descoberta de Jared um peso que vai além da curiosidade infantil. Ao explorar a propriedade, ele procura respostas para os incidentes pelos quais recebe a culpa. O problema é que sua disposição para brigar enfraquece qualquer tentativa de convencer a mãe e os irmãos. Antes mesmo de conhecer os habitantes sobrenaturais do casarão, o garoto já enfrenta uma dificuldade bastante familiar. Ninguém quer ouvir outra reclamação sua.
Highmore diferencia os gêmeos pelo temperamento. Simon é mais tranquilo, enquanto Jared parece sempre prestes a discutir. A interpretação permite reconhecer os dois sem transformar suas diferenças numa coleção de caretas. Bolger também dá personalidade a Mallory, uma adolescente com pouca paciência para as provocações dos irmãos. Há afeto entre eles, mas esse afeto convive com acusações e respostas atravessadas. Waters preserva esse atrito, e a convivência parece mais próxima de uma família de verdade.
Helen tenta cuidar dos filhos enquanto lida com o próprio desgaste. Parker dá à personagem um cansaço reconhecível, de quem precisa resolver os problemas da casa sem ter tempo para compreender tudo o que acontece nela. Para essa mãe, aceitar a existência de seres invisíveis está longe de ser a primeira hipótese. Jared precisa apresentar algo mais convincente que sua indignação.
O livro que deveria permanecer fechado
A investigação muda quando o menino encontra um guia escrito por Arthur Spiderwick (David Strathairn), antigo estudioso das criaturas que vivem naquele território. O volume reúne informações sobre um mundo que existe junto ao dos humanos, embora permaneça escondido da maioria deles. Aquilo que parecia uma sucessão de travessuras começa a ganhar outra explicação.
A fantasia de “As Crônicas de Spiderwick” nasce desse contato entre o cotidiano e o desconhecido. Os irmãos continuam dentro de casa ou perto dela, mas passam a descobrir habitantes e perigos onde antes enxergavam apenas quartos, árvores e caminhos. É uma escolha que favorece a aventura. O espectador aprende as regras junto com as crianças, sem precisar interromper a história para decorar uma longa lista de nomes.
O guia também desperta o interesse de Mulgarath, ogro que tem voz de Nick Nolte na versão original. As informações reunidas por Arthur representam uma vantagem sobre as outras criaturas, e o vilão quer se apoderar delas. Jared deixa de ser apenas um garoto tentando provar que tem razão. Ao abrir o livro, assume uma responsabilidade para a qual não estava preparado.
Criaturas com pouca paciência
Entre os seres que habitam a propriedade está Thimbletack, com voz original de Martin Short. Pequeno e temperamental, ele exige cuidados que Jared ainda desconhece. A relação dos dois rende algumas das passagens mais divertidas porque ambos se irritam com facilidade. O menino já tem dificuldades para conviver com os irmãos e agora precisa aprender a respeitar as exigências de outro morador.
Hogsqueal, que recebe a voz de Seth Rogen, oferece uma ajuda menos previsível. Sua presença acrescenta graça à aventura sem eliminar a necessidade de cautela. Jared precisa descobrir quais criaturas podem ajudá-lo e quanto pode confiar nelas. Nem todo encontro oferece uma ameaça, mas simpatia também está longe de garantir tranquilidade.
Waters aproveita essas diferenças para variar o ritmo. Há espaço para estranhamento e brincadeira, seguido por situações em que os irmãos precisam se proteger. Algumas criaturas são simpáticas. Outras têm uma aparência e um comportamento capazes de assustar crianças menores. A ameaça ganha força porque os personagens nem sempre conseguem enxergar o que está perto deles.
Irmãos precisam aprender a colaborar
Quando Simon e Mallory se envolvem nas descobertas, Jared já não pode resolver tudo pela insistência. Os três precisam compartilhar informações e agir juntos, apesar das brigas que trouxeram para o casarão. A aproximação funciona porque depende do que enfrentam. Cada novo perigo exige uma colaboração que, no começo, nenhum deles parecia muito disposto a oferecer.
É nessa relação que “As Crônicas de Spiderwick” encontra sua força. As criaturas despertam curiosidade, mas o interesse pelos irmãos sustenta a aventura. Jared quer ser ouvido, Mallory quer que ele pare de causar problemas e Simon ocupa um espaço menos combativo entre os dois. Para proteger a família, precisam fazer alguma coisa com essas diferenças.
A sucessão de encontros por vezes deixa pouco tempo para conhecer melhor os seres apresentados. Certos habitantes mereciam uma convivência mais longa, especialmente quando suas particularidades começam a despertar interesse. Ainda assim, Waters mantém a história concentrada nas crianças e no perigo que cerca a propriedade.
“As Crônicas de Spiderwick” é uma aventura envolvente, com sustos, implicâncias entre irmãos e descobertas que tornam o casarão cada vez menos acolhedor. O melhor está na maneira como o extraordinário invade uma família já ocupada com seus próprios problemas. Helen procurava um lugar para recomeçar. Os filhos acabam precisando aprender quem vive ali antes deles e por que aquele livro não pode cair nas mãos erradas.

