Há quem prefira o cinema comercial, os efeitos grandiosos de CGI, as produções milionárias e os elencos estelares. Tudo bem. Mas o próprio cinema já provou inúmeras vezes que dinheiro não é sinônimo de qualidade artística. O que não falta é superprodução hollywoodiana repetitiva, vazia de simbolismo e empenhada em reciclar fórmulas cansativas. Dinheiro compra escala. Não compra visão.
Sem romantizar a precariedade, porque sofrimento não é método, é inegável que a escassez exige criatividade. Obriga à síntese. Faz o cineasta trabalhar com o essencial. O Cinema Novo brasileiro já defendia “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Não era um slogan ingênuo, mas um princípio estético que segue atual. Quando há ideia, há cinema.
O talento supera a receita, e Jafar Panahi é prova viva disso em “Foi Apenas Um Acidente”, indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026. Antes de falar do filme, duas coisas precisam ser ditas. O cinema iraniano é robusto, sofisticado e historicamente relevante. Quem já viu “A Separação”, “Meu Bolo Favorito” ou “O Sabor da Cereja” sabe que existe uma tradição ali. Não é exotismo festivalizado.
Também é preciso lembrar que Panahi foi preso duas vezes por sua postura crítica ao governo iraniano. Em 2010, foi condenado a seis anos de prisão e proibido de filmar por 20 anos. Mesmo sob a proibição, continuou trabalhando. Desde a condenação, lançou diversos filmes, desafiando uma sentença que pretendia silenciá-lo.
Digno de premiações
“Foi Apenas Um Acidente” merece o Oscar. Não digo isso torcendo contra “O Agente Secreto”, que, aliás, é meu favorito. Mas, se Panahi levar a estatueta, será absolutamente justo. Feito sob limitações extremas, o longa trata de trauma, tortura e vingança em um drama tenso, atravessado por um humor afiado e constrangedor. Não é humor de piada. É de situação, de ironia seca. Daqueles que fazem o espectador rir e, no segundo seguinte, sentir culpa por ter rido.
A trama começa com uma família dentro de um carro. Depois de atropelar um animal, o motorista enfrenta um problema mecânico e para em uma oficina. Ali trabalha Vahid, interpretado por Vahid Mobasseri. Ao ouvir os passos do visitante, ele acredita reconhecer o homem que o torturou durante os interrogatórios na prisão. O som específico da perna protética desperta uma lembrança que o rosto não poderia confirmar. Quando era interrogado, Vahid permanecia encapuzado.
O reconhecimento é sonoro, quase instintivo. Convencido de que encontrou seu algoz, Vahid passa a segui-lo, agride o homem e o leva ao deserto. Cava uma cova e ameaça enterrá-lo vivo. Mas uma dúvida interrompe o plano. E se não for ele?
Corrida para reconhecer o algoz
Sem conseguir ter certeza, Vahid coloca o sequestrado em uma caixa de madeira dentro de uma van e procura antigos companheiros de prisão. A cada parada, aparece alguém que talvez possa identificá-lo. Ou tornar tudo ainda mais incerto. A van vai ficando cheia. Entre os envolvidos estão Shiva, a fotógrafa interpretada por Mariam Afshari, um casal de noivos e Hamid, vivido por Mohamad Ali Elyasmehr, que está pronto para executar o suspeito mesmo sem uma confirmação definitiva.
O grupo percorre a cidade em busca de uma certeza que autorize um ato irreversível. Todos carregam traumas. Todos querem justiça. Mas a disposição para se vingar esbarra no medo de matar o homem errado. As discussões ficam mais intensas porque cada um reconhece naquela situação uma oportunidade de acertar contas com o próprio sofrimento.
Impasse implacável
É nesse impasse que o filme cresce. Panahi transforma a vingança em um dilema ético coletivo, sem dar aos personagens o conforto de uma decisão simples. O suspense depende da identidade do sequestrado, mas também do que aquelas pessoas estão dispostas a fazer com ele. Quanto da violência sofrida pode ser devolvido antes que a vítima passe a reproduzir os métodos de seu agressor?
O humor torna esse desconforto ainda maior. Há algo de absurdo na convivência improvisada dentro da van, nas divergências e na tentativa de organizar uma vingança entre pessoas que mal conseguem concordar umas com as outras. A dor é compartilhada. O modo de lidar com ela, não. Panahi encontra nessas diferenças uma humanidade que impede o grupo de virar uma coleção de vítimas exemplares.
O fim deixa um gosto amargo. A justiça não é simétrica. O carma não obedece a um roteiro didático, disposto a recompensar os bons e castigar os maus. O sofrimento tampouco oferece a quem o atravessou uma espécie de sabedoria automática. Restam dúvidas, lembranças e o peso das escolhas.
Com estrutura minimalista e atores extraordinários, “Foi Apenas Um Acidente” é um dos filmes mais brilhantes da temporada. A força está na ideia, na escrita e na capacidade de fazer uma situação aparentemente simples carregar tantas contradições. É um filme para quem gosta de pensar, inclusive quando pensar significa abrir mão de uma certeza confortável.
O cinema iraniano não é tendência. É tradição consolidada. Nas mãos de Panahi, continua sendo também um ato político. Silencioso, pacífico e profundamente poderoso.

