Maxwell Smart (Steve Carell) passa os dias analisando informações para a agência de espionagem norte-americana CONTROLE, mas sonha em participar das missões que conhece pelos relatórios. Em “Agente 86”, comédia de ação de 2008 dirigida por Peter Segal, um ataque à sede da instituição finalmente abre essa porta. Com a identidade dos agentes comprometida, o Chefe (Alan Arkin) promove o funcionário e o envia para combater a organização criminosa KAOS. Seu entusiasmo é enorme. A experiência nas ruas, porém, está bem abaixo do recomendado para alguém encarregado de impedir uma ameaça internacional.
A tarefa será dividida com a Agente 99 (Anne Hathaway), uma espiã experiente que recebe o novo parceiro com pouca satisfação. Ela tem razões para desconfiar. Maxwell conhece detalhes dos inimigos, presta atenção às informações e leva o emprego muito a sério, mas falta desenvoltura quando precisa transformar conhecimento em ação. A dupla deve investigar os planos de Siegfried (Terence Stamp), líder da KAOS, enquanto aprende a trabalhar em conjunto. Para 99, isso inclui cumprir a missão e sobreviver às iniciativas do colega.
Do escritório para uma missão perigosa
Carell dá a Maxwell uma qualidade essencial para que a comédia funcione. Seu personagem quer contribuir. Por mais inconveniente que seja, existe sinceridade naquela vontade de conquistar a confiança dos outros. Ele estudou, dedicou tempo ao trabalho e acredita que merece uma oportunidade. É fácil reconhecer ali o funcionário que se prepara durante anos para uma promoção e descobre, depois de recebê-la, que o novo cargo exige habilidades ausentes do treinamento.
O ator preserva essa vulnerabilidade mesmo nas situações mais absurdas. Maxwell pode falhar em algo elementar e continuar falando com a convicção de quem acredita estar prestes a resolver o problema. A graça está na diferença entre sua segurança e os resultados que consegue produzir. Carell tem talento para prolongar um constrangimento sem precisar anunciar a piada, sobretudo quando mantém a expressão séria depois de uma iniciativa desastrosa.
Alan Arkin contribui bastante para esse ambiente. À frente da CONTROLE, seu Chefe precisa administrar uma crise de segurança e lidar com um subordinado cheio de disposição. A impaciência do personagem dá às conversas um ritmo agradável. Arkin pronuncia suas falas com uma secura que combina com a autoridade do cargo, sem parecer interessado em disputar atenção com o protagonista.
Uma parceira com pouca paciência
Anne Hathaway tem uma participação decisiva no equilíbrio da dupla. Sua Agente 99 conhece os perigos do trabalho e não está disposta a tratar a missão como uma oportunidade de aprendizado para Maxwell. Cada erro pode expor os dois, e a irritação dela nasce dessa responsabilidade. A atriz sustenta a competência da espiã enquanto participa das piadas, especialmente pelos olhares que dirige ao parceiro quando ele insiste em falar além da conta.
Seria cansativo acompanhar uma relação baseada apenas em humilhações. Há atritos, mas Carell permite perceber o esforço de Maxwell, enquanto Hathaway dá espaço para que a resistência de 99 ganhe outras nuances. A convivência melhora quando os dois precisam considerar qualidades que suas primeiras impressões deixaram de fora. Ele tem informações e capacidade de observação. Ela sabe agir quando a situação exige experiência.
Existe também uma aproximação afetiva, embora o interesse da parceria esteja menos no romance do que na convivência profissional. Os melhores trechos surgem quando uma conversa aparentemente simples vira um pequeno impasse. Maxwell tenta demonstrar preparo, escolhe palavras demais e acaba fornecendo à colega mais um motivo para desconfiar dele. É uma dinâmica familiar a qualquer pessoa que já tentou causar uma boa impressão e acabou falando o que deveria guardar para si.
Quando o equipamento piora tudo
A investigação leva os agentes à Rússia e coloca o antigo analista diante de situações que exigem muito mais do que familiaridade com relatórios. Equipamentos de espionagem prometem facilitar o serviço, mas, nas mãos de Maxwell, podem acrescentar problemas. A diferença entre conhecer um recurso e saber utilizá-lo rende algumas das melhores piadas físicas.
Carell trabalha bem com essa combinação de concentração e desastre. O personagem se aplica ao que está fazendo, insiste no procedimento e demora a admitir que perdeu o controle da situação. O esforço torna os acidentes mais engraçados porque existe um objetivo reconhecível por trás deles. Maxwell quer sair de uma dificuldade, mas sua tentativa pode deixá-lo ainda mais vulnerável.
Peter Segal consegue bons resultados quando dá tempo para esse desconforto crescer. Nas sequências maiores, com perseguições e confrontos, a comédia perde parte dessa precisão. O barulho ocupa o espaço que antes pertencia às pausas e às reações dos atores. A aventura mantém o movimento, mas nem sempre oferece uma piada à altura da confusão criada.
O elenco sustenta a aventura
Terence Stamp interpreta Siegfried com uma solenidade apropriada para um adversário que precisa ser levado a sério pelos agentes. Sua postura ajuda a preservar algum peso na investigação. Dwayne Johnson, como o Agente 23, acrescenta à CONTROLE a presença de um profissional admirado por Maxwell, alguém aparentemente muito à vontade no universo ao qual o analista deseja pertencer.
O roteiro segue caminhos conhecidos da espionagem e tem menos inventividade na ameaça criminosa do que nas relações entre os personagens. Há trechos em que o excesso de ação alonga uma aventura que poderia ser mais enxuta. Ainda assim, Carell e Hathaway mantêm a companhia agradável, com uma química construída entre a insistência dele e a resistência dela.
O afeto por Maxwell nasce desse esforço, sem exigir que seus erros sejam ignorados. Quando ele entra em mais uma situação perigosa, a torcida vem acompanhada de uma preocupação bastante razoável. Antes de enfrentar a KAOS, seria bom conferir se aprendeu a usar o próprio equipamento.

