“O Aniversário” é um thriller político de Jan Komasa que me lembra, em alguns aspectos, a obra-prima brasileira “Ainda Estou Aqui”. Embora o longa nacional seja baseado em uma história real, de um período existente da política brasileira, e o outro seja apenas uma distopia, ambos tratam do mesmo tema: autoritarismo e o luto pela perda da família enquanto se vê o próprio país se desfazer.
“Ainda Estou Aqui” relata o desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva. O filme começa colorido, mostrando uma casa feliz, cheia de vida, com crianças correndo, pessoas entrando e saindo e uma atmosfera tranquila e despreocupada. A partir do momento em que Rubens é levado para depor por militares, o tom fica sombrio. A casa escurece, as janelas são fechadas, o que antes era barulho de risos, conversas e música se torna silêncio. Há algo que não precisa ser dito. A gente sabe. Rubens morreu e seu desaparecimento é o prenúncio de algo muito pior: do fim da democracia e da liberdade.
Uma infiltrada conhecida
Em “O Aniversário”, também temos um cenário inicial convidativo. A paleta utilizada é colorida, o ambiente é cheio de ruídos de vozes, risadas. Os protagonistas, Ellen (Diane Lane) e Paul (Kyle Chandler), celebram 25 anos de casamento. O quintal está cheio de amigos, a família é grande. Anna (Madeline Brewer) é uma comediante de stand-up; Cynthia (Zoey Deutch) é uma advogada ambientalista; Josh (Dylan O’Brien) é um escritor inseguro; e a caçula Birdie (Mckenna Grace) é uma adolescente estudante com vocação científica. Josh aparece com a nova namorada, que, para a surpresa da mãe, uma professora universitária de Georgetown, é Elizabeth (Phoebe Dynevor), uma de suas ex-alunas.
Ellen e Elizabeth já se desentenderam no passado. Cada uma possui opiniões políticas muito fortes e contrárias. Enquanto Ellen é uma professora progressista, Elizabeth defende uma sociedade conservadora e autoritária como uma saída. A escolha da nova namorada de Josh desagrada à mãe, mas ela decide respeitar o filho, embora desconfie das intenções da nora.
Uma autocracia
O relacionamento com Josh se desenvolve. Eles se casam e Elizabeth engravida de gêmeos. O filme dá saltos no tempo, mas não sem intenção. Tudo para mostrar a degradação da família, enquanto a política de seu país se torna também mais complicada. Elizabeth lança um livro com seus ideais conservadores, e ele logo se torna best-seller. A publicação logo toma campos influentes do país, como as próprias universidades. Conforme o sucesso da obra literária avança, também avançam os conflitos à mesa, os desentendimentos dentro de casa e a convivência difícil.
O livro de Elizabeth vira um manual conservador que toma conta dos espaços de poder. Mas, embora esteja ganhando cada vez mais visibilidade e respeito fora de casa, é dentro da casa de Ellen que ela deseja reconhecimento. Ela luta para se aproximar da família e ganhar seu respeito, mas não é isso que acontece. O sucesso a afasta cada vez mais do que ela sempre sonhou: conquistar a admiração de Ellen.
A perda da cor e dos sons
A casa de Ellen e Paul, assim como a casa de Rubens Paiva e Eunice, vai perdendo a cor, o barulho, a vida. O lugar que era lugar de segurança e aconchego vai se tornando uma prisão. O filme perde a saturação. Ellen perde o emprego na universidade devido às suas opiniões políticas, o restaurante do marido está à beira da falência. A filha Anna desaparece após ser perseguida por transformar o novo regime autoritário do país em piada em um de seus stand-ups. Cynthia se separa do marido após um aborto, volta para a casa dos pais e adoece emocionalmente. Birdie se torna uma rebelde procurada pelo governo.
Enquanto isso, Josh performa uma vida perfeita e bem-sucedida, vigiando a casa dos pais e pronto para denunciar qualquer membro de sua família que ouse desobedecer ao sistema. “O Aniversário” parece uma distopia, mas está bem mais próximo do que imaginamos de uma realidade. A onda crescente de conservadorismo e vigilância está à espreita. O Brasil já viu acontecer uma vez.

