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Na Alemanha ocupada pelas tropas de Napoleão, no início do século 19, Wilhelm (Matt Damon) e Jacob Grimm (Heath Ledger) ganham dinheiro enganando moradores de pequenos vilarejos. Os dois encenam ataques sobrenaturais e cobram para livrar seus clientes das assombrações. O negócio vai bem até qe as autoridades francesas descobrem a fraude e os obrigam a investigar desaparecimentos de meninas numa aldeia próxima a uma floresta. Em “Os Irmãos Grimm”, de 2005, Terry Gilliam coloca dois especialistas em fabricar sustos diante de perigos que desconhecem.

A ideia rende uma aventura divertida, por vezes assustadora, que transforma os célebres colecionadores de contos populares em uma dupla de vigaristas com habilidades bastante questionáveis. A ligação com os escritores históricos dá liberdade para brincar com histórias conhecidas, sem compromisso de reconstituir suas vidas. O interesse está em acompanhar esses homens quando o conhecimento necessário para enganar os outros deixa de ser suficiente para protegê-los.

Dois irmãos e um negócio lucrativo

Wilhelm é o vendedor da dupla. Seguro de si e acostumado a impressionar os moradores, ele trata cada suposta maldição como uma oportunidade de faturamento. Matt Damon aproveita bem essa mistura de charme e oportunismo. Seu personagem precisa convencer os clientes de que possui uma coragem extraordinária, embora trabalhe com perigos preparados de antemão.

Jacob participa dos golpes, mas preserva uma curiosidade sincera pelas histórias que escuta. Heath Ledger dá ao personagem um jeito distraído e uma vulnerabilidade que ajudam a diferenciá-lo do irmão. Enquanto Wilhelm quer receber pelo serviço e seguir viagem, Jacob presta atenção às crenças dos moradores. Para alguém empregado numa sociedade de falsos caçadores de monstros, acreditar no sobrenatural pode causar alguns problemas administrativos.

O vínculo entre os dois mantém boa parte da diversão. Eles discutem, discordam e conhecem as fraquezas um do outro. Damon e Ledger dão a essas implicâncias uma familiaridade convincente. Existe afeto naquela parceria, mesmo quando a impaciência de Wilhelm faz Jacob parecer um acompanhante inconveniente do próprio negócio.

Uma missão imposta pelos franceses

A descoberta das fraudes coloca os irmãos nas mãos do general Delatombe (Jonathan Pryce). O militar exige que investiguem o desaparecimento de meninas em Marbaden, onde os moradores atribuem os acontecimentos a uma força sobrenatural. Recusar a tarefa significaria enfrentar as punições das autoridades. Aceitá-la exige sustentar uma reputação construída com mentiras.

Pryce interpreta o general com uma arrogância teatral que combina com o gosto de Gilliam pelo exagero. Delatombe despreza as crenças locais e espera que os visitantes encontrem uma explicação compatível com suas próprias certezas. Os dois ficam presos entre os relatos dos moradores e as exigências de um homem pouco disposto a ouvir algo que contrarie suas ordens.

Para completar o constrangimento, Cavaldi (Peter Stormare) acompanha a investigação e vigia os convocados. A interpretação espalhafatosa de Stormare pode cansar, sobretudo quando uma ameaça já foi suficientemente estabelecida e ele insiste em carregá-la nos gestos. Ainda assim, sua presença lembra que os irmãos precisam prestar contas. Desistir do trabalho e procurar outra aldeia deixou de ser uma saída.

A floresta tem outros perigos

Em Marbaden, os recém-chegados recebem a ajuda de Angelika (Lena Headey), uma moradora que conhece a floresta e leva os desaparecimentos a sério. Sua firmeza contrasta com a conversa dos visitantes. Ela possui experiência naquele território, enquanto eles carregam uma fama que não corresponde ao que sabem fazer.

Headey dá à personagem uma sobriedade bem-vinda. Cercada por homens que representam autoridade, coragem ou conhecimento, Angelika precisa lidar com os perigos do lugar. Sua participação também impede que a busca fique restrita às discussões entre Wilhelm e Jacob. Há meninas desaparecidas, famílias assustadas e uma região que os supostos especialistas não sabem percorrer sozinhos.

Quando entram na mata, os irmãos perdem a vantagem de conhecer os bastidores das assombrações. Wilhelm procura explicações que preservem suas certezas. Jacob está mais disposto a considerar aquilo que o outro rejeita. A curiosidade antes tratada com impaciência passa a ter valor, e a confiança do vendedor já não basta para decidir o próximo passo.

Gilliam aproveita essa mudança para aproximar a aventura dos aspectos mais inquietantes dos contos de fadas. A floresta deixa de ser um cenário bonito para passeios e ganha o desconforto de um lugar onde crianças podem desaparecer. As referências a histórias familiares despertam reconhecimento, mas oferecem pouco acolhimento.

Entre o encanto e o excesso

A Rainha do Espelho (Monica Bellucci) traz uma presença ameaçadora a esse universo. Bellucci trabalha com gestos contidos e uma tranquilidade perturbadora, um contraste interessante com a agitação dos demais personagens. A ligação da personagem com a torre e o espelho recupera elementos conhecidos dos contos sem exigir que a aventura adapte uma única história.

Gilliam, porém, nem sempre sabe dar espaço às próprias invenções. Criaturas, perseguições e situações grotescas se acumulam, e alguns acontecimentos passam antes que o susto tenha tempo de crescer. Em certos trechos, acompanhar o que os personagens precisam fazer exige mais atenção do que deveria. A vontade de surpreender acaba atropelando parte da investigação.

Damon e Ledger tornam interessante a passagem da segurança profissional para o medo de quem perdeu o controle do serviço. Os dois chegaram a Marbaden interessados em salvar a própria pele. Agora precisam procurar as meninas num lugar onde nenhuma assombração foi contratada para colaborar.


Filme: Os Irmãos Grimm
Diretor: Terry Gilliam
Ano: 2005
Gênero: Ação/Aventura/Comédia/Fantasia
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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