Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) precisa ajudar um grupo de treze anões a recuperar Erebor, o reino sob a Montanha Solitária ocupado pelo dragão Smaug. Em “O Hobbit: A Desolação de Smaug”, de 2013, Peter Jackson acompanha essa expedição pela Terra Média, onde chegar ao destino depende de atravessar florestas perigosas e territórios governados por gente pouco receptiva. À frente dos viajantes, Thorin Escudo-de-Carvalho (Richard Armitage) quer retomar a terra de seus antepassados. Bilbo foi contratado para entrar sem ser percebido e procurar uma joia essencial às pretensões do líder. É um trabalho bastante ambicioso para alguém cuja experiência anterior favorecia refeições e sossego.
A aventura continua os acontecimentos de “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada”, mas a convivência já tem outro peso. O pequeno viajante ganhou alguma confiança, embora continue cercado de companheiros mais acostumados às armas. Gandalf (Ian McKellen), responsável por reunir aquela comitiva improvável, ainda oferece orientação. Sua presença, porém, tem prazo. Outros sinais de perigo exigem a atenção do mago, e os anões precisarão prosseguir sem a pessoa mais preparada para reconhecer as ameaças pelo caminho.
Uma floresta sem proteção
Antes de entrar na Floresta das Trevas, os viajantes procuram abrigo com Beorn (Mikael Persbrandt), um homem capaz de assumir a forma de urso. A possibilidade de receber ajuda depende da disposição de um anfitrião que tem boas razões para desconfiar de estranhos. Jackson dá a esses encontros uma qualidade importante para a aventura. Quem vive na Terra Média tem interesses, perdas e preocupações anteriores à chegada dos protagonistas. A urgência de Thorin dificilmente basta para abrir todas as portas.
A separação de Gandalf torna a passagem pela mata especialmente arriscada. Sem o guia, o grupo precisa preservar a orientação em um lugar que confunde os sentidos e esconde criaturas perigosas. Freeman é muito bom ao combinar o medo de Bilbo com sua crescente disposição para agir. Há hesitação em seus gestos, mas também atenção ao que os outros deixam passar. O anel que o torna invisível oferece uma vantagem preciosa, embora o apego ao objeto introduza um desconforto que o ator expressa sem precisar de grandes manifestações.
Nesses trechos, o hobbit ganha espaço por suas escolhas. Ele continua pequeno diante dos perigos, sujeito ao cansaço e pouco à vontade entre guerreiros. A diferença está na responsabilidade que aceita assumir. Quando os companheiros ficam em dificuldade, alguém precisa observar as saídas, aproveitar uma distração e tomar uma iniciativa. Freeman preserva a personalidade doméstica de Bilbo mesmo quando o personagem se vê obrigado a fazer coisas que jamais caberiam em seus planos no Condado.
Os elfos têm suas condições
O encontro com os elfos acrescenta uma dificuldade política ao percurso. Thranduil (Lee Pace), rei daquele território, tem suas próprias condições para colaborar. Thorin carrega ressentimentos antigos e recebe qualquer exigência com a rigidez de quem considera injusto precisar pedir ajuda. Armitage transmite bem esse orgulho ferido. Seu personagem reivindica a autoridade de um rei enquanto depende de abrigo, transporte e recursos oferecidos por terceiros.
Essa contradição torna o líder interessante, ainda que Jackson insista algumas vezes em expressões de desconfiança que já cumpriram sua função. É possível compreender o desejo de recuperar a própria casa e, ainda assim, questionar o comportamento de alguém disposto a comprometer os companheiros para preservar uma certeza pessoal. A lealdade dos anões mantém a expedição unida, mas deixa pouco espaço para discutir o preço de seguir adiante.
Legolas (Orlando Bloom) e Tauriel (Evangeline Lilly) participam da defesa do reino élfico com atitudes diferentes diante dos visitantes e dos perigos externos. Ela demonstra curiosidade pelo que acontece além das fronteiras. Ele enfrenta inimigos com uma desenvoltura que Jackson aproveita em sequências longas de combate. Algumas têm graça e energia. Outras se prolongam tanto que o risco perde força, sobretudo quando os movimentos dos combatentes parecem dispensar qualquer preocupação com peso, altura ou gravidade.
A cidade precisa de garantias
A chegada à Cidade do Lago muda o ambiente da aventura. Ali existem famílias, pobreza, vigilância e autoridades interessadas em preservar seus privilégios. Bard (Luke Evans), um barqueiro que conhece a região, oferece aos viajantes uma possibilidade de prosseguir. O auxílio exige confiança entre pessoas que não compartilham as mesmas prioridades. Para Thorin, a montanha representa um reino perdido. Para quem mora nas proximidades, ela também abriga um dragão.
Evans traz uma sobriedade bem-vinda a essa parte da história. Bard tem filhos e responsabilidades que tornam suas preocupações bastante concretas. Promessas de riqueza podem entusiasmar uma população necessitada, mas não garantem proteção caso a expedição provoque uma reação de Smaug. A perspectiva dos moradores impede que a reivindicação dos anões seja aceita sem perguntas. Recuperar Erebor envolve pessoas que jamais foram consultadas sobre os riscos.
Jackson consegue dar espessura à aventura quando permanece perto dessas divergências. O entusiasmo de Thorin ganha uma dimensão inquietante diante da cautela do barqueiro. Armitage mantém no personagem uma convicção que tanto inspira os seguidores quanto dificulta ouvir qualquer advertência. A esperança de retornar à terra dos antepassados começa a exigir compromissos de quem vive fora dela.
O tamanho do trabalho de Bilbo
Enquanto Gandalf investiga a ameaça associada a Dol Guldur, Bilbo se aproxima da tarefa para a qual foi contratado. As passagens com o mago acrescentam informações sobre perigos maiores, embora algumas interrupções afastem a atenção do grupo quando sua situação já despertou interesse. Jackson parece sempre ter outra frente para acompanhar, mesmo quando seria mais proveitoso permanecer um pouco com aqueles viajantes.
A presença de Smaug, interpretado por Benedict Cumberbatch por meio de voz e captura de movimentos, dá proporção ao receio que acompanha a expedição. A inteligência da criatura importa tanto quanto seu tamanho. Diante dela, força e coragem deixam de parecer recursos suficientes, e a escolha de um ladrão discreto ganha sentido.
É nessa diferença de escala que “O Hobbit: A Desolação de Smaug” encontra seu melhor material. Freeman sustenta a atenção com pausas, olhares e tentativas de preservar alguma compostura diante de um trabalho absurdo. Jackson exagera nas perseguições e dispersa a história em alguns trechos, mas acerta ao manter Bilbo vulnerável. Depois de tanta gente armada defender grandes planos, cabe ao sujeito menos preparado se aproximar do perigo e procurar uma entrada.

