Charlie Waldo (Charlie Hunnam) passou três anos longe da polícia de Los Angeles e gostaria de continuar assim. Seu isolamento termina quando a investigadora particular Lorena Nascimento (Morena Baccarin), antiga namorada, pede ajuda para apurar o assassinato da esposa de um ator famoso. Esse é o ponto de partida de “Crimes em Hollywood”, produção de 2021 dirigida por Tim Kirkby, que reúne comédia, investigação e pancadaria ao colocar um ex-detetive recluso diante de uma celebridade incapaz de lembrar o que aconteceu na noite do crime.
O suspeito é Alastair Pinch (Mel Gibson), estrela de televisão cuja mulher, Monica, foi assassinada. Ele afirma que estava tão bêbado que não recorda os acontecimentos. A falta de memória deixa Waldo numa situação ingrata. Seu possível cliente não consegue fornecer um relato que ajude a reconstituir aquela noite, e a fama traz gente demais interessada no caso por motivos que nem sempre incluem descobrir o assassino.
Cem pertences e um problema novo
Antes da visita de Lorena, Waldo havia construído uma rotina de poucas necessidades. Mora afastado da cidade, usa bicicleta e estabeleceu o limite de cem objetos pessoais. A barba crescida completa a aparência de quem dispensou compromissos sociais, embora o cuidado obsessivo com os pertences sugira que viver com pouco também pode dar um trabalho considerável.
Essa contradição torna o protagonista mais interessante do que a figura habitual do policial aposentado chamado para uma última missão. Ele deseja distância das pessoas, mas conserva as habilidades de um ofício que exige ouvi-las, fazer perguntas incômodas e desconfiar das versões apresentadas. Hunnam sustenta bem essa resistência ao convívio. Seu personagem tem o ar cansado de alguém que gostaria de encerrar a conversa antes mesmo de saber o assunto.
Lorena conhece o homem por trás da barba e procura sua ajuda porque reconhece sua capacidade de investigação. A relação anterior acrescenta intimidade ao convite, mas também dificulta uma recusa sem consequências pessoais. Baccarin dá à personagem desenvoltura para entrar naquele refúgio e perturbar uma rotina que parecia cuidadosamente protegida. A chegada dela devolve ao ex-policial um problema que nenhum limite de objetos consegue resolver.
Um astro sem lembranças
Pinch tem dinheiro, prestígio e um problema que sua carreira não ajuda a solucionar. Acusado de matar a esposa, precisa que outra pessoa investigue acontecimentos dos quais diz não guardar lembrança. O apagão alcoólico oferece uma boa dificuldade para a história porque deixa em aberto tanto a responsabilidade do ator quanto a confiança que se pode depositar nele.
Gibson aproveita a extravagância do papel. Pinch é um britânico que interpreta um juiz sulista numa série de sucesso, habituado, portanto, a vestir uma autoridade que pertence ao personagem da televisão. Fora do estúdio, precisa responder a perguntas bem menos confortáveis. A ironia funciona sem grande esforço. O homem que ganha a vida pronunciando sentenças diante das câmeras agora depende da disposição de um desconhecido para examinar as suspeitas contra ele.
A convivência entre os dois oferece uma das melhores razões para acompanhar “Crimes em Hollywood”. De um lado está um sujeito que fez do desapego uma regra pessoal. Do outro, uma celebridade cercada pelas facilidades e pelos excessos da profissão. Essa diferença rende atritos, mas também estabelece uma dúvida importante para a apuração. Ser inconveniente, vaidoso ou beber demais não basta para transformar alguém em assassino. Waldo precisa descobrir o que houve, por mais desagradável que seu cliente possa ser.
Há uma carreira em jogo
O retorno a Los Angeles leva o investigador até Wilson Sikorsky (Rupert Friend), executivo de televisão ligado ao trabalho de Pinch. Sua presença acrescenta interesses comerciais à investigação. Uma acusação de assassinato contra um astro envolve também quem depende dele para manter uma produção de pé. Nesse ambiente, ajudar o detetive e proteger um negócio podem ser objetivos bastante diferentes.
Kirkby aproveita esse círculo profissional para brincar com a distância entre a imagem pública de um ator e as pessoas que administram sua carreira. A escolha de Hollywood tem utilidade para o enredo. Waldo precisa atravessar um meio acostumado a fabricar aparências e descobrir quais informações resistem às conveniências de seus interlocutores.
A busca também o aproxima de Jayne White (Lucy Fry), professora ligada à filha de Pinch. Ela abre espaço para que o investigador conheça relações do suspeito fora da televisão. O ator tem uma vida familiar que sua popularidade não explica, e as perguntas precisam alcançar esse lado menos exposto. A entrada de novos personagens mantém a curiosidade, embora a quantidade de figuras excêntricas por vezes disperse a atenção que deveria permanecer sobre a morte de Monica.
Investigar também deixa hematomas
Waldo tampouco recebe apenas respostas evasivas. Sua insistência provoca agressões, e o antigo policial passa uma parte considerável do trabalho tentando suportar as consequências físicas das perguntas que faz. A graça está na pouca cerimônia com que perde qualquer aparência de controle. O investigador experiente continua sujeito a levar uma surra.
Hunnam combina com esse tipo de comédia porque não precisa transformar cada pancada numa grande demonstração de sofrimento ou valentia. Ainda assim, a repetição cobra seu preço. Quando as agressões se tornam frequentes demais, o perigo perde força e começa a parecer mais uma obrigação entre duas conversas. Kirkby consegue manter a leveza, mas nem sempre dá ao assassinato o peso que ele merece.
“Crimes em Hollywood” agrada mais pela companhia de seu detetive do que pela promessa de um mistério excepcional. A química entre Hunnam e Gibson ajuda a sustentar os desvios, enquanto a resistência de Waldo em voltar ao trabalho oferece algo além da curiosidade sobre o culpado. Ele havia encontrado uma maneira de passar os dias sem prestar contas a ninguém. Para investigar a morte de Monica, precisa abandonar esse conforto, bater às portas de desconhecidos e insistir mesmo quando a recepção termina em socos.

