Em 2017, nos Estados Unidos, a tradutora Reality Winner (Emilia Jones) começa a trabalhar em uma empresa que presta serviços à Agência de Segurança Nacional, a NSA. Precisa do salário para ajudar o pai doente, mas o emprego a coloca diante de documentos sigilosos sobre a interferência russa na eleição presidencial do ano anterior. Em “A Informante”, de Susanna Fogel, essa descoberta põe uma jovem idealista diante de uma escolha arriscada entre preservar o trabalho e divulgar informações que considera de interesse público.
A decisão ganha peso quando conhecemos a vida que ela levava antes desse cargo. Criada no Texas, a protagonista deseja trabalhar em projetos humanitários no exterior. Aprende idiomas, se interessa pelo que acontece longe de casa e tem pouca disposição para aceitar uma ordem sem questioná-la. É uma combinação promissora para quem quer mudar alguma coisa, embora pouco confortável para quem pretende seguir carreira militar.
Uma família que incentiva a contestação
O pai, Ron (Zach Galifianakis), tem participação importante nessa formação. Crítico das guerras e das autoridades americanas, ele estimula a filha a pensar por conta própria. A mãe, Billie (Connie Britton), recebe as escolhas da jovem com preocupação, enquanto a irmã, Brittany (Kathryn Newton), tem outros interesses. A convivência ajuda a situar uma personagem que, muito antes de ter acesso a segredos de Estado, já dava trabalho dentro de casa.
Fogel aposta no sarcasmo e nas diferenças familiares para apresentar essa personalidade. A leveza aproxima o espectador de uma mulher que poderia ficar restrita à imagem solene de uma denunciante. Há, porém, um desequilíbrio nessa escolha. O vínculo com o pai recebe atenção, enquanto a mãe e a irmã permanecem menos desenvolvidas. Seria interessante conhecê-las além das reações às atitudes da protagonista.
O trabalho fica longe da promessa
Reality Winner (Emilia Jones) se alista na Força Aérea porque acredita que poderá usar seu conhecimento de línguas para ajudar pessoas em regiões de conflito. A possibilidade de uma missão no exterior dá sentido à escolha, apesar do espanto dos pais. Depois do treinamento, porém, ela acaba em um escritório, traduzindo conversas que podem orientar ataques militares.
Essa diferença entre o trabalho desejado e o trabalho recebido sustenta uma das partes mais fortes de “A Informante”. A jovem queria se aproximar de quem precisava de ajuda, mas passa a fornecer informações para operações sobre as quais não tem poder de decisão. Quanto melhor executa suas tarefas, mais difícil fica ignorar o uso das traduções.
O desconforto tem endereço, função e horário de expediente. Por isso, dispensa grandes declarações para ganhar força. A questão está no cotidiano de uma profissional que precisa cumprir ordens e começa a duvidar do benefício de sua contribuição. Fogel consegue tornar esse impasse acessível, mesmo para quem conhece pouco o funcionamento dos serviços de inteligência.
Nem o namoro oferece descanso
Fora do escritório, a protagonista se dedica aos exercícios físicos, ao voluntariado e às doações. Procura fazer algo que considere benéfico, mas leva o desgaste do trabalho para as horas de folga. A agenda cheia oferece ocupação, sem resolver o que a incomoda.
O relacionamento com Andre (Danny Ramirez), que pretende estudar veterinária, acrescenta outra dificuldade. Ele faz planos para o futuro, enquanto a namorada continua empenhada em conseguir uma ocupação humanitária. Existe afeto, mas os dois nem sempre reservam espaço para discutir o que desejam. A vontade dela de ajudar desconhecidos convive com certa dificuldade para incluir alguém próximo nas próprias decisões.
É uma contradição que torna a personagem mais interessante. Sua generosidade não elimina a teimosia, nem garante delicadeza no convívio. Emilia Jones sustenta esse equilíbrio entre convicção e inquietação. Ainda assim, a pressa em percorrer tantas etapas deixa algumas relações com menos espaço do que merecem.
Um diploma fecha a porta
Quando tenta trabalhar em uma organização humanitária, Reality Winner (Emilia Jones) esbarra na falta de formação universitária. A experiência militar e o domínio de idiomas não substituem o diploma exigido. A situação tem uma ironia amarga. A instituição que poderia aproximá-la do trabalho desejado não aceita as qualificações adquiridas no caminho que ela escolheu para chegar até ali.
A necessidade de dinheiro também pesa. Com o pai doente, a vaga ligada à NSA oferece uma possibilidade de ajudar a família. O acesso a informações confidenciais vem acompanhado de obrigações de sigilo, e é nesse ambiente que ela toma conhecimento do material relacionado à eleição de 2016.
“A Informante” se desenrola ao ligar esse emprego às frustrações anteriores, às contas e aos vínculos familiares. Perde um pouco quando o tom brincalhão torna situações difíceis leves demais. Ainda assim, há interesse em acompanhar uma protagonista que deseja ser útil e insiste em procurar uma função compatível com suas convicções. Ao assumir o novo cargo, ela consegue renda para ajudar o pai e passa a lidar com documentos que não tem autorização para divulgar.

