A civilização começa a ruir no instante em que dois desconhecidos são obrigados a dividir um carro. O veículo torna-se tribunal, confessionário, quarto, cela e arena, enquanto a estrada elimina as saídas laterais e força cada ocupante a conhecer hábitos que um encontro breve jamais revelaria. Peter Highman, arquiteto nervoso cuja esposa está prestes a dar à luz em Los Angeles, encontra em Ethan Tremblay a pior companhia possível para atravessar os Estados Unidos. Um incidente no aeroporto coloca os dois na lista de passageiros proibidos, e Peter, sem documentos ou dinheiro, aceita a carona do aspirante a ator, acompanhado pelo buldogue Sonny e pelas cinzas do pai guardadas numa lata de café. Todd Phillips arma “Um Parto de Viagem” sobre essa colisão de temperamentos, fazendo da viagem uma experiência de resistência física para os personagens e moral para o espectador.
Peter é o homem da ordem, embora Robert Downey Jr. trate de revelar rapidamente que sob o terno bem-cortado existe uma criatura colérica, vaidosa e capaz de abandonar um ferido na estrada se o relógio assim recomendar. Ethan parece viver no polo oposto. Zach Galifianakis caminha com roupas amarrotadas, barba malcuidada e uma convicção comovente de que Hollywood o espera; ele fala demais, interpreta tudo de maneira literal e consegue transformar qualquer providência simples numa catástrofe. Phillips percebeu que o filme precisava daquilo que chamou de “antiquímica” entre os atores, e a expressão explica boa parte da graça. Downey reage às excentricidades do parceiro como se estivesse sendo atacado pessoalmente pela estupidez; Galifianakis recebe o desprezo com uma inocência que torna Peter ainda pior.
A estrada vira campo de batalha
A estrutura vem dos velhos road movies de pares incompatíveis, em especial “Antes Só do que Mal Acompanhado”, de John Hughes, referência que “Um Parto de Viagem” atualiza com maconha, masturbação canina, acidentes espetaculares e uma passagem desastrosa pela fronteira mexicana. O roteiro de Alan R. Cohen, Alan Freedland, Adam Sztykiel e do próprio Phillips trabalha por episódios, alguns melhores que o conjunto. Juliette Lewis aparece como uma fornecedora de drogas doméstica, Danny McBride encarna um funcionário da Western Union que transforma uma discussão em espancamento, e Jamie Foxx surge como Darryl, amigo de Peter cuja intimidade com Sarah desperta dúvidas sobre a paternidade do bebê. São desvios pensados para prolongar a viagem e aumentar o suplício, nem sempre com a precisão necessária.
Phillips tem predileção por personagens humilhados, corpos feridos e homens adultos cuja incapacidade de controlar impulsos produz a comicidade. Em “Se Beber, Não Case!”, essa crueldade distribuía-se entre quatro sujeitos igualmente irresponsáveis; aqui, Peter concentra a violência e Ethan recebe quase todos os golpes. O arquiteto soca uma criança, cospe num cachorro, agride o companheiro e provoca acidentes que poderiam matar ambos. Downey emprega seu carisma para evitar que o personagem se torne irremediavelmente odioso, estratégia que funciona porque Galifianakis nunca interpreta Ethan como mero imbecil. A tristeza pela morte do pai, o medo de fracassar como ator e a necessidade de acreditar que Peter é seu amigo dão espessura ao tipo.
O luto entra no carro
A cena junto ao Grand Canyon, quando as cinzas finalmente são libertadas, expõe o assunto que Phillips pretendia esconder debaixo das trapalhadas. Ethan perdeu o pai e tenta prolongar a presença dele; Peter está prestes a se tornar pai e teme não chegar a tempo sequer para o primeiro gesto. A estrada aproxima os dois sem apagar a irritação que os define, e o filme cresce quando permite que o luto entre no carro e ocupe algum espaço entre as piadas. O excesso retorna logo depois, como se a direção desconfiasse de qualquer emoção que não terminasse numa colisão.
“Um Parto de Viagem” é irregular, grosseiro e ocasionalmente muito engraçado. O roteiro confunde sadismo com humor em vários momentos, e as participações especiais nem sempre encontram função para além do esbarrão episódico. Downey e Galifianakis salvam o percurso porque nunca transformam a hostilidade numa amizade açucarada. Peter chega ao hospital, Ethan alcança a televisão e Sonny continua a contemplar os homens com a sabedoria silenciosa de quem percebeu, desde o aeroporto, que nenhum deles deveria estar dirigindo.

