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Em Burnley, no norte da Inglaterra, o empresário Dave Fishwick (Rory Kinnear) decide abrir um banco para ajudar comerciantes que já não conseguem crédito nas grandes instituições financeiras. Inspirado em suas experiências reais, “David Contra os Bancos”, lançado em 2023 e dirigido por Chris Foggin, acompanha essa empreitada no período posterior à crise financeira de 2008. Dave ganhou dinheiro vendendo vans e micro-ônibus, mas precisa de algo que sua fortuna não compra sozinha, uma licença para receber depósitos e financiar os negócios da cidade.

O ponto de partida tem uma simplicidade atraente. Se os bancos deixaram seus clientes sem apoio, Dave pretende oferecer o dinheiro necessário para que continuem trabalhando. Ele já empresta recursos próprios e conhece as pessoas beneficiadas. Sua ambição é transformar essa ajuda em uma instituição comunitária, com os lucros destinados a entidades beneficentes. Entre a vontade de fazer e a permissão para começar, porém, existe uma burocracia que exige muito mais do que boas intenções.

Dinheiro para quem ficou sem crédito

Kinnear é a melhor razão para acompanhar essa história. Seu Dave tem generosidade, orgulho e certa satisfação em contrariar gente poderosa. É um homem acostumado a resolver problemas, pouco disposto a aceitar uma negativa embrulhada em vocabulário técnico. O ator preserva essas características sem transformar o empresário em um santo. A simpatia vem também de sua vaidade, de sua insistência e da confiança quase inconveniente de que conseguirá realizar o que prometeu.

A ligação com Burnley dá consistência à proposta. Dave pretende emprestar a quem precisa manter uma empresa funcionando, pagar despesas e preservar empregos. Conhecer os moradores permite que ele enxergue necessidades que os bancos tratam à distância. Essa proximidade torna compreensível seu desejo de abrir uma instituição local, embora não resolva as exigências legais. Uma pessoa pode confiar no vizinho e decidir ajudá-lo. Receber o dinheiro de outros moradores para financiar esses empréstimos envolve responsabilidades de outra ordem.

Foggin acerta ao manter essas necessidades perto dos personagens. Há uma diferença entre discutir crédito em termos gerais e acompanhar um empresário tentando ajudar clientes que ficaram sem alternativas. O interesse está nessa relação entre dinheiro e convivência, ainda que os adversários recebam um tratamento menos cuidadoso. Dave conhece o destino que gostaria de dar aos recursos. Quem autoriza a abertura do banco está longe dos comerciantes que ele pretende atender.

Um advogado longe de casa

Para preparar o pedido, Dave contrata um escritório de Londres, que envia o jovem advogado Hugh (Joel Fry) a Burnley. Hugh chega com reservas. Conhece as dificuldades para obter uma licença e considera improvável que aquele cliente consiga superar todas elas. Para Dave, ouvir uma lista de impedimentos é apenas o começo da conversa. O empresário espera que o especialista procure uma saída, enquanto o especialista gostaria que o empresário aceitasse a dimensão do problema.

Joel Fry aproveita bem esse desencontro. Hugh tenta conservar a formalidade profissional diante de um cliente expansivo, insistente e muito à vontade em seu próprio território. A graça está no desconforto do visitante, que precisa trabalhar com alguém pouco interessado em respeitar a distância habitual entre advogado e contratante. Dave pede ajuda, faz perguntas e insiste. Hugh descobre que cobrar pelo serviço será mais fácil do que encerrar a discussão.

O roteiro pesa a mão nas diferenças entre Londres e o norte inglês. A reserva de Hugh e a hospitalidade dos moradores deixam bastante evidente o caminho de sua aproximação com Burnley. Ainda assim, a parceria tem encanto porque os dois oferecem habilidades distintas. Dave conhece os comerciantes e reúne apoio local. Hugh sabe preparar os documentos e lidar com as exigências da candidatura. À medida que trabalha, o advogado passa a ter mais dificuldade em tratar aquele pedido como um assunto que pode simplesmente arquivar.

Uma médica com planos próprios

A convivência ganha outro interesse com Alexandra (Phoebe Dynevor), médica e sobrinha de Dave. Ela busca financiamento para um serviço de atendimento que ajude a aliviar a pressão sobre a saúde local. Seu projeto coloca ao lado da proposta bancária uma necessidade concreta da cidade. Para Alexandra, conseguir recursos significa ter condições de atender pessoas, e as reservas do advogado chegam a alguém que já conhece de perto a falta desse apoio.

Dynevor dá firmeza à personagem, sobretudo quando Alexandra reage à postura do visitante. Hugh precisa abandonar parte de sua cerimônia para conversar com ela, e dessa aproximação nasce o componente romântico da história. É um desenvolvimento familiar, desses que dificilmente surpreendem quem assiste a comédias britânicas acolhedoras. A química entre os atores ajuda, embora Alexandra merecesse mais espaço dedicado ao trabalho que tenta realizar.

O romance oferece uma pausa agradável entre conversas jurídicas e exigências financeiras. Também dá a Hugh um vínculo pessoal com o lugar em que foi trabalhar. Essa escolha torna sua permanência em Burnley mais interessante, mas simplifica algumas mudanças do personagem. A cidade passa a reunir um cliente pelo qual ele se importa, moradores que o acolhem e uma mulher que desperta sua atenção. Londres, em comparação, fica com uma parte considerável das más notícias.

Boas intenções diante dos banqueiros

A resistência ganha rosto em Sir Charles (Hugh Bonneville), um banqueiro que recebe a iniciativa de Dave com desprezo. Bonneville sabe interpretar esse tipo de superioridade social e tira proveito da arrogância do personagem. Falta, porém, uma caracterização que vá além da antipatia. Quando Dave apresenta sua proposta, Sir Charles já parece ter decidido quanto vale aquele homem antes de examinar o que ele pretende fazer.

Essa divisão entre o empresário generoso e os banqueiros hostis limita a crítica às instituições financeiras. Há espaço para discutir quem consegue crédito, quais interesses recebem proteção e quanto custa abrir uma empresa com objetivos comunitários. Foggin prefere dar atenção à perseverança de Dave e às relações que se formam durante a tentativa. O resultado é agradável, embora menos incisivo do que a premissa poderia permitir.

“David Contra os Bancos” conquista mais pela presença de Kinnear e pela parceria com Fry do que pela complexidade de seus adversários. As situações dramatizadas pertencem a uma versão ficcional das experiências de Fishwick, algo que pede cuidado diante do apelo da história real. Dentro dessa proposta, o empresário permanece uma companhia envolvente, inclusive quando sua certeza de estar certo ameaça acabar com a paciência do advogado. Dave quer receber depósitos e financiar negócios em Burnley. Para isso, Hugh precisa transformar a ideia do cliente em um pedido que as autoridades sejam obrigadas a examinar.


Filme: David Contra os Bancos
Diretor: Chris Foggin
Ano: 2023
Gênero: Biografia/Comédia/Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
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