Dirigido por Kenneth Branagh e lançado em 2022, “Morte no Nilo” acompanha o detetive Hercule Poirot durante uma viagem pelo Egito, onde o casamento de uma jovem milionária transforma um passeio elegante em uma investigação criminal. A bordo de um barco cercado pelo deserto, Poirot precisa descobrir quem matou uma das passageiras e por que quase todos os viajantes tinham algum motivo para desejar sua morte.
Hercule Poirot, interpretado pelo próprio Kenneth Branagh, chega ao Egito interessado em férias, boa comida e alguns dias longe de cadáveres. O plano dura pouco. Seu amigo Bouc, vivido por Tom Bateman, convida o detetive para participar das comemorações do casamento de Linnet Ridgeway, personagem de Gal Gadot, com Simon Doyle, interpretado por Armie Hammer.
O problema começa antes mesmo de o casal subir a bordo. Simon era noivo de Jacqueline de Bellefort, papel de Emma Mackey, que havia apresentado o rapaz à amiga Linnet na esperança de conseguir para ele uma oportunidade de trabalho. A aproximação profissional ganha outro rumo. Linnet se apaixona por Simon, ele abandona Jacqueline e os dois se casam pouco tempo depois.
Jacqueline não aceita desaparecer silenciosamente da vida do antigo noivo. Ela passa a seguir o casal por hotéis, restaurantes e pontos turísticos, sempre surgindo quando Linnet e Simon acreditam ter conquistado alguma privacidade. Sua presença mistura sofrimento, raiva e desejo de vingança. A jovem não precisa fazer ameaças espalhafatosas. Basta entrar em um salão para mudar o clima da noite.
Uma viagem cercada por ressentimentos
Linnet pede que Poirot convença Jacqueline a interromper a perseguição. O detetive conversa com a jovem abandonada, mas percebe que nenhuma recomendação será suficiente para afastá-la. Jacqueline perdeu o noivo, os planos de casamento e a confiança na melhor amiga. Ela deseja que os recém-casados convivam com o dano causado, ainda que isso também prolongue sua própria dor.
Para despistar a antiga noiva, Linnet e Simon embarcam no Karnak, um luxuoso barco que navega pelo Rio Nilo. A viagem reúne amigos, parentes, funcionários e conhecidos do casal. Todos estão impecavelmente vestidos, mas poucos parecem genuinamente felizes com a presença da herdeira.
Bouc viaja ao lado da mãe, Euphemia Bouc, interpretada por Annette Bening. A pintora observa os demais passageiros com a disposição de quem considera qualquer conversa uma oportunidade para descobrir um segredo. Ela também desaprova o interesse do filho por Rosalie Otterbourne, vivida por Letitia Wright, empresária e sobrinha da cantora Salome Otterbourne, personagem de Sophie Okonedo.
Rosalie administra a carreira da tia com firmeza e não pretende submeter sua vida às exigências de Euphemia. Bouc tenta preservar o romance enquanto a mãe avalia a relação quase como uma contratação suspeita. A dinâmica dos três oferece leveza ao filme sem interromper o mistério, pois até os assuntos amorosos acabam ligados a dinheiro, prestígio e dependência.
Quase todos escondem alguma conta
Outros passageiros também carregam motivos para desconfiar de Linnet. Louise Bourget, interpretada por Rose Leslie, trabalha como criada da milionária e depende de sua autorização para mudar de vida. Andrew Katchadourian, vivido por Ali Fazal, é primo e administrador dos negócios da família, função que o coloca perto da fortuna e de possíveis irregularidades financeiras.
O médico Linus Windlesham, papel de Russell Brand, mantém uma relação mal resolvida com Linnet, sua antiga pretendente. Marie Van Schuyler, interpretada por Jennifer Saunders, critica a riqueza enquanto aproveita o conforto oferecido por ela. Sua acompanhante Bowers, vivida por Dawn French, conhece os hábitos da patroa e guarda ressentimentos próprios.
O barco oferece luxo, música e paisagens grandiosas, mas também impede que os passageiros mantenham distância uns dos outros. Cabines, corredores e salões passam a reunir pessoas que prefeririam permanecer separadas. Uma conversa ouvida por acaso pode revelar um interesse financeiro. Um horário mal explicado pode comprometer um álibi. Uma porta fechada pode proteger alguém ou esconder uma mentira.
Quando um assassinato interrompe a viagem, Poirot assume a investigação. Ele preserva o local, recolhe informações e começa a interrogar os passageiros. O detetive não depende apenas de impressões. Ele compara horários, movimentos, objetos e relações pessoais para descobrir quem teve oportunidade de cometer o crime.
Poirot interroga os passageiros
Cada entrevista abre uma nova suspeita. Um viajante culpa outro, uma testemunha omite parte do que viu e alguém sempre parece ter saído da cabine no momento errado. Poirot precisa separar ressentimentos antigos de ações realmente ligadas ao assassinato.
Kenneth Branagh interpreta o detetive com solenidade, mas permite pequenas notas de vaidade. Poirot trata o bigode quase como um patrimônio histórico e parece mais confortável organizando pistas do que lidando com sentimentos. Ainda assim, o caso toca questões pessoais que o obrigam a observar o amor além da lógica usada em suas investigações.
O roteiro dedica tempo ao passado do personagem, incluindo a origem de sua aparência e de algumas escolhas afetivas. Essa introdução humaniza o investigador, embora atrase a entrada do mistério principal. Quando o crime acontece, “Morte no Nilo” ganha ritmo e passa a aproveitar melhor o confinamento do barco.
Poirot circula pelas cabines, retorna aos depoimentos e percebe que os passageiros não mentem apenas para escapar de uma acusação. Alguns protegem romances. Outros temem perder dinheiro, emprego ou reputação. Há ainda quem esconda informações porque revelar a verdade significaria admitir uma humilhação antiga.
Um Egito bonito demais
A produção apresenta o Egito com pirâmides, ruínas, hotéis elegantes e extensas paisagens do deserto. O cenário oferece imponência, mas frequentemente parece polido em excesso. Em alguns trechos, o ambiente digital enfraquece a sensação de perigo e deixa o Nilo com aparência de cartão-postal sofisticado.
Essa artificialidade contrasta com o trabalho do elenco. Emma Mackey oferece intensidade a Jacqueline sem transformar a personagem apenas em uma mulher ciumenta. Sua raiva vem acompanhada por vergonha, perda e uma vontade quase obstinada de ser reconhecida por Simon e Linnet.
Gal Gadot compõe Linnet como uma mulher acostumada a obter conforto, atenção e proteção por meio da fortuna. A atriz também sugere o medo de alguém que percebe ter acumulado inimigos demais. Linnet pode pagar viagens, contratar funcionários e reservar um barco, mas não consegue comprar confiança entre os convidados.
Sophie Okonedo impõe presença a Salome, enquanto Letitia Wright dá firmeza a Rosalie. Annette Bening aproveita a desconfiança de Euphemia para produzir algumas das melhores reações do filme. Tom Bateman transforma Bouc em uma figura afetuosa, impulsiva e menos preocupada com dinheiro do que quase todos ao redor.
O luxo perde sua proteção
“Morte no Nilo” funciona melhor quando o barco deixa de ser uma atração turística e passa a aprisionar pessoas com interesses incompatíveis. O espaço diminui, as versões entram em choque e Poirot precisa agir antes que outra pessoa seja atacada.
A adaptação preserva o prazer básico das histórias de Agatha Christie. Um grupo limitado de suspeitos ocupa um mesmo ambiente, cada integrante guarda um segredo e o investigador precisa organizar fatos que parecem desconectados. O público recebe pistas suficientes para formular hipóteses, embora algumas revelações dependam de informações apresentadas perto da resolução.
Branagh também investe mais nos sentimentos dos personagens do que em uma investigação puramente cerebral. Ciúme, dinheiro, amizade e desejo atravessam o crime e ajudam a explicar por que tantos passageiros preferem esconder parte da verdade. Essa escolha deixa o mistério menos frio, ainda que algumas figuras secundárias recebam pouco espaço antes dos interrogatórios.
A investigação chega ao ponto em que Poirot reúne os passageiros e apresenta as relações entre horários, depoimentos e interesses pessoais. A solução preserva o espírito de Christie e mostra que a aparência sofisticada do grupo escondia alianças bem menos elegantes.
“Morte no Nilo” pode exagerar no brilho, mas mantém a curiosidade até a reunião decisiva. Quando Poirot fecha as portas do salão, a fortuna de Linnet já perdeu o poder de proteger qualquer pessoa a bordo.

