Homens comuns enfrentam situações que demandam-lhes uma dose generosa de alheamento. Por estarem sempre se cercando de todos os cuidados para que nada fuja ao esperado, no momento em que se veem diante de uma grande reviravolta do destino, ainda que tudo possa tornar ao ponto inicial não muito tempo depois, nunca se perdem de si mesmos e optam pela cautela, o que, em determinadas circunstâncias, termina virando uma maldição. “A Chamada” destrói as certezas de um sujeito exemplar num único golpe, esticando um pouco a corda da violência, mas mantendo a fórmula. Nimród Antal sustenta a instabilidade de seu protagonista valendo-se de algumas cenas em que ele mostra um de seus lados, em nada parecido com o que é e com o que vem a ser.
Segredo bombástico (só que não)
Muito da substância de “A Chamada” está em Liam Neeson, um ator por cuja versatilidade o texto caudaloso de Alberto Marini e Christopher Salmanpour materializa sacadas sobre a vida a dois, esbregues em filhos adolescentes e maçudos (terei cometido um pleonasmo?), piadinhas de tiozão que diz aos amigos ao telefone enquanto dirige e aquela necessidade tipicamente masculina de antecipar-se a qualquer perigo e manter tudo sob controle, o que, convenhamos, é uma tarefa inglória com uma bomba sob o traseiro — como e, mais importante, por que ela foi parar lá é o segredo de polichinelo dessa história. Neeson protagoniza o terceiro remake do aclamado thriller espanhol “El Desconocido” (2015), de Dani de la Torre, sabendo muito bem como queimar os fantasmas varonis. Muito esperto, ele.

