Dinheiro velho costuma fingir alergia à sujeira, até descobrir que a lama, quando passa por advogados, contadores e chás servidos em porcelana, rende melhor que brasões, caçadas e fundos de família. Em “Magnatas do Crime”, Guy Ritchie volta a Londres e reorganiza suas quinquilharias favoritas: criminosos de fala rápida, aristocratas quebrados, capangas metódicos, moleques idiotas com celular na mão, chantagistas de segunda categoria e uma fortuna girando por baixo de tudo, tão discreta quanto uma plantação subterrânea de maconha instalada no campo inglês. Lançado entre 2019 e 2020, com 113 minutos, roteiro de Ritchie a partir de história concebida com Ivan Atkinson e Marn Davies, o longa recupera a energia cafajeste de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch: Porcos e Diamantes”, agora com um verniz um pouco mais caro, feito a velha malandragem que aprendeu a usar casimira.
A aristocracia como esconderijo
Mickey Pearson, o americano vivido por Matthew McConaughey, chegou à Inglaterra com algum lustro acadêmico e logo percebeu que a elite britânica, por trás da pose, sangrava dinheiro. Sua solução foi simples, suja e brilhante: usar as propriedades de nobres endividados para esconder uma rede de cultivo de maconha, fazendo do feudalismo em ruínas uma engrenagem moderna de narcotráfico. O problema começa quando Mickey decide vender o império e retirar-se com Rosalind, a mulher de Michelle Dockery, uma dona de oficina de luxo que parece mais perigosa que todos os homens do filme juntos. A negociação com Matthew Berger, o bilionário americano interpretado por Jeremy Strong com uma afetação deliciosa de sujeito que calcula até o modo de sorrir, deveria ser apenas uma transação entre predadores educados. Ritchie, claro, não tem paciência para negócios limpos.
Hugh Grant, com veneno e charme
A notícia da aposentadoria de Mickey atrai Dry Eye, o jovem gângster de Henry Golding, que confunde impetuosidade com inteligência e tenta tomar no grito o que ainda não tem força para sustentar; Big Dave, o editor de tabloide de Eddie Marsan, ressentido por ter sido humilhado num convescote de ricos; e Fletcher, o investigador particular encarnado por Hugh Grant, contratado para farejar podres e transformá-los em dinheiro. É Fletcher quem dá ao longa sua forma mais ardilosa. Ele invade a casa de Raymond, o braço direito de Mickey vivido por Charlie Hunnam, e apresenta a própria chantagem como se estivesse vendendo um roteiro de cinema. Grant curva o corpo, umedece a voz, ajeita os óculos, saboreia cada insinuação obscena e transforma Fletcher num parasita quase irresistível, desses que merecem desprezo imediato e, ainda assim, ganham uma cadeira, um copo e atenção. Hunnam, em sentido oposto, sustenta Raymond pela contenção: escuta, mede, ameaça pouco, espera muito. Seu personagem sabe que numa sala cheia de tagarelas o homem quieto costuma ser o único armado.
Ritchie se diverte com a estrutura em camadas, voltando e avançando no tempo conforme Fletcher narra sua versão dos acontecimentos, sempre adulterando o que sabe para inflar o preço de seu silêncio. A invasão de uma das plantações pelos garotos treinados pelo Coach, o personagem de Colin Farrell, é uma das melhores ideias do filme porque atualiza o velho crime londrino para a era dos imbecis performáticos: os moleques invadem, batem, roubam e ainda publicam a façanha na internet, provando que a vaidade digital pode ser mais incriminadora que uma testemunha ocular. Farrell entra de agasalho xadrez, fala como um homem que já desistiu de parecer respeitável e dá ao Coach uma ética torta, sincera dentro de seus próprios limites, talvez o único código moral reconhecível naquele zoológico.
McConaughey faz Mickey como um rei cansado, dono de uma calma estudada que às vezes beira a imobilidade. Seu melhor momento vem quando o personagem deixa escapar a brutalidade que o enriquecimento sofisticado tentava esconder, lembrando a todos que por trás dos ternos, dos copos de uísque e das conversas em voz baixa ainda existe um sujeito capaz de resolver pendências com métodos bastante rudimentares. Dockery, por sua vez, dá a Rosalind uma mistura de glamour e ameaça que Ritchie poderia ter explorado com mais generosidade; quando ela aparece, o filme ganha uma temperatura diferente, menos brincalhona, como se alguém realmente adulto tivesse entrado numa sala dominada por garotos excitados demais com seus próprios apelidos. Essa é também a principal limitação de “Magnatas do Crime”: Ritchie ainda se encanta tanto com a esperteza de sua engrenagem que às vezes esquece de respirar, empilhando personagens, trocadilhos, provocações e pequenas grosserias que parecem saídas de um pub onde todos falam alto para provar alguma coisa.
Ainda assim, há prazer genuíno nesse retorno. “Magnatas do Crime” não tenta purificar Guy Ritchie nem pedir desculpas por sua velha inclinação ao excesso; prefere vestir seus vícios com paletó novo, polir a malandragem, deixar Hugh Grant tomar conta dos cantos e permitir que McConaughey atravesse a trama como um coronel estrangeiro administrando uma colônia de canalhas nativos. O resultado é um policial de luxo com alma de briga de bar, irregular em suas afetações, saboroso em seus melhores desvios e suficientemente cínico para lembrar que, quando o dinheiro troca de mãos entre cavalheiros, convém verificar antes se ainda há dedos presos a elas.

