Em “Os Renegados”, filme de ação lançado em 2021 e dirigido por Renny Harlin, Pierce Brosnan vive Richard Pace, um ladrão internacional convocado para roubar ouro usado no financiamento de grupos terroristas. A operação atravessa Los Angeles e Abu Dhabi, envolve uma prisão de segurança máxima e coloca o protagonista diante de uma dupla conta pendente. De um lado, há o dinheiro. Do outro, há Schultz, vivido por Tim Roth, o empresário que ajudou a colocá-lo atrás das grades.
Richard Pace não é apresentado como um criminoso qualquer. Ele é o tipo de ladrão que parece acreditar que algemas, muros e agentes federais existem apenas para tornar sua biografia mais interessante. Logo no começo de “Os Renegados”, ele escapa de uma prisão federal de segurança máxima e transforma a fuga em espetáculo de habilidade, velocidade e insolência. Pierce Brosnan interpreta Pace com a elegância de quem já viu planos ruins demais para se assustar com um bom perigo.
A fuga, porém, dura menos do que o ego do personagem gostaria. Depois de despistar o FBI e a polícia em uma perseguição de carro, Pace acaba capturado pelos Misfits, um grupo de ladrões modernos que prefere roubar criminosos e corruptos a seguir a cartilha convencional do crime. O bando é liderado por Ringo, vivido por Nick Cannon, um sujeito carismático, espalhafatoso e bastante convencido de que está fazendo o bem, mesmo quando tudo ao redor cheira a golpe internacional.
Robin Hoods com passaporte
Os Misfits se apresentam como uma espécie de versão luxuosa e indisciplinada de Robin Hood. Além de Ringo, o grupo reúne Violet, interpretada por Jamie Chung, The Prince, vivido por Rami Jaber, Wick, personagem de Mike Angelo, e Hope, interpretada por Hermione Corfield. A presença de Hope muda a temperatura da história porque ela é filha de Pace. O ladrão, que até então parecia tratar o mundo como um tabuleiro particular, passa a encarar uma missão em que o passado familiar também cobra sua parte.
O grupo quer convencer Pace a participar de um assalto ousado. O alvo é uma fortuna em barras de ouro mantida em uma das prisões mais protegidas do mundo, propriedade de Schultz, interpretado por Tim Roth. O empresário usa a estrutura do presídio para guardar dinheiro sujo e, pior, esse ouro abastece grupos terroristas. A proposta dos Misfits mistura justiça torta, vingança pessoal e lucro, uma combinação que o filme abraça sem pedir muitas desculpas.
Pace aceita porque o roubo oferece algo que dinheiro nenhum compra sozinho. Ele quer se acertar com Schultz, o homem por trás de sua prisão. A partir daí, “Os Renegados” passa a funcionar como uma aventura de assalto movida por disfarces, carros velozes, identidades falsas, deslocamentos internacionais e uma confiança quase absurda na capacidade do grupo de atravessar sistemas de segurança sem virar manchete policial antes da hora.
Abu Dhabi vira palco do golpe
A história sai de Los Angeles e chega a Abu Dhabi com ambição de filme grande. Renny Harlin, diretor de “Duro de Matar 2” e “Risco Total”, aposta em ação acelerada, cenários solares e uma lógica de aventura em que cada etapa do plano precisa parecer mais perigosa que a anterior. O objetivo é entrar na prisão de Schultz, chegar ao ouro e sair antes que o empresário consiga fechar todas as saídas.
A prisão é o centro de gravidade do enredo. Ela não guarda apenas detentos. Guarda fortuna, poder privado e o tipo de segredo que costuma ficar bem protegido quando muita gente importante lucra com ele. Esse detalhe ajuda o filme a dar peso ao assalto, ainda que a abordagem seja mais divertida do que severa. Os Misfits querem roubar barras de ouro, mas também querem retirar recursos de uma cadeia criminosa que usa dinheiro para alimentar violência.
O tom de “Os Renegados” fica entre a aventura espalhafatosa e a comédia de equipe. Ringo fala com a autoconfiança de quem ensaiou frases de efeito diante do espelho. Wick parece feliz demais quando o assunto envolve armas, velocidade ou qualquer coisa capaz de fazer barulho. The Prince entra no jogo com pose de quem conhece atalhos em lugares onde ninguém deveria conhecer atalhos. Violet surge como presença mais controlada, alguém que parece lembrar aos demais que um assalto depende menos de charme e mais de precisão.
Pace aprende a dividir o plano
O ponto mais interessante do filme está na relação entre Pace e Hope. Hermione Corfield dá à personagem uma função maior do que a de simples elo familiar. Hope conhece o pai além da fama de ladrão brilhante. Ela enxerga suas falhas, suas ausências e sua tendência a transformar tudo em performance. Essa tensão dá ao protagonista um atrito mais humano, porque Pace pode enganar agentes, fugir de prisões e flertar com o perigo, mas não consegue tratar a filha como mais uma peça descartável do plano.
Pierce Brosnan se diverte nesse registro. Seu Richard Pace carrega a elegância de um vigarista veterano, sempre pronto para responder com ironia mesmo quando deveria estar preocupado. Tim Roth, por sua vez, faz de Schultz um antagonista cínico, desses que parecem administrar crimes com a frieza de quem analisa planilhas. Nick Cannon adiciona energia ao grupo como Ringo, enquanto Jamie Chung, Rami Jaber e Mike Angelo ajudam a sustentar a dinâmica de bando improvável.
“Os Renegados” não tenta ser um suspense realista sobre criminalidade internacional. Seu interesse é criar uma aventura de ritmo solto, com assaltos, carros, camelos, nitro, disfarces e personagens que tratam o impossível como uma tarefa de agenda. Há exageros, atalhos e momentos em que o roteiro prefere o brilho da situação à lógica mais rigorosa. Ainda assim, o filme encontra sua graça quando assume essa vocação para o entretenimento barulhento e bem-humorado.
Um assalto mais leve que perigoso
A direção de Renny Harlin trabalha melhor quando deixa a ação correr sem solenidade. As perseguições, os planos de infiltração e as cenas de preparação mantêm o espectador dentro da missão, mesmo quando a história pede generosidade. O filme tem consciência de que seu maior trunfo está no prazer de ver um grupo improvável tentando roubar um vilão ainda pior. Nessa conta, a moral passa longe da cartilha tradicional, mas a diversão ganha espaço.
O filme quer ser aventura internacional, comédia de assalto, suspense de prisão e história de reconciliação familiar. Nem todos esses caminhos recebem o mesmo cuidado. Alguns personagens poderiam ter mais presença, e certas etapas do golpe passam com rapidez demais para que o risco pese de verdade. Ainda assim, o elenco ajuda a manter o conjunto de pé, principalmente quando Brosnan assume o papel de ladrão charmoso sem medo de soar um pouco ridículo.
“Os Renegados” agrada mais quem aceita seu espírito de diversão escapista. É um filme de assalto com luxo, piadas, criminosos de bom coração e um vilão feito para ser roubado sem muita culpa. Entre barras de ouro, prisões fortificadas e acertos familiares mal resolvidos, Richard Pace entra na operação achando que domina o jogo. A graça está em ver quantas vezes o plano prova que ele ainda tem bastante trabalho pela frente.

