Sonhos são das poucas manifestações verdadeiramente genuínas no espírito do homem, das quais nunca se afasta, sem as quais não consegue sentir-se pleno e que se mantêm fortes mesmo com o passar dos anos. Essa natureza indestrutível dos sonhos, como se revestidos de uma substância mágica que os fizesse à prova do mais duro choque, cristaliza-se com os traumas e recrudesce sempre que precisamos de alento para a brutalidade da vida. De quando em vez, assalta-nos o gosto por reivindicar direitos que nem sabemos se nos assistem, e sobejam as queixas sobre tudo e nada, que apenas os sonhos, claro, abrandam. Os problemas começam no momento em que vivemos sonhos que não são nossos, essência dramática do abilolado “Lutando pela Família”. Baseado na história da lutadora britânica Saraya-Jade Bevis, a Paige, o roteiro do diretor Stephen Merchant esgrime desarranjos de uma família à beira da vulnerabilidade social, tentando manter-se no ringue e não jogar a toalha, façanha mais e mais difícil à medida que Paige, a estrela das apresentações de luta livre com que peregrinam por cidadezinhas do interior do Reino Unido, padece de uma repentina crise de identidade. Nada que um bom contrato não resolva.
Fingimento?! E os ossos quebrados?
Um flashback insinua que Paige gozou de uma infância sem grandes percalços em Norwich, leste da Inglaterra, morando numa casa com quintal e cheia de brinquedos, mas minutos depois, quando ela e o irmão, Zak, surgem adultos, a desordem de papéis revirados e aquela impropriedade das conversas sugerem que eles enfrentam graves apuros de dinheiro. De qualquer forma, na iminência da pobreza ou não, Zak engata um namoro que corre rápido, mas Paige continua apenas seguindo as ordens dos pais e comparecendo aos treinos e lutando — e fraturando ossos, contrassenso numa modalidade conhecida pelo seu caráter teatral. A química entre Jack Lowden e Florence Pugh garante ótimas cenas, além de ajudar a entender o abismo existencial dessa anti-heroína judiciosa e excessivamente preocupada com todo mundo, menos consigo. Como se atesta pelos últimos rankings anuais da WWE, isso passou.

