Às vésperas do Natal, em Los Angeles, a jovem Ronna Martin aceita vender ecstasy para pagar o aluguel e acaba envolvida numa madrugada de policiais, traficantes, atores de televisão, festas clandestinas e decisões cada vez piores. Dirigido por Doug Liman e lançado em 1999, “Vamos Nessa” acompanha três grupos cujas histórias se cruzam durante poucas horas. O resultado mistura comédia e crime com leveza, velocidade e um elenco que sabe tornar personagens irresponsáveis estranhamente simpáticos.
Ronna Martin, interpretada por Sarah Polley, trabalha como caixa de supermercado e precisa conseguir dinheiro antes de ser despejada. Durante um turno extra, ela é abordada por Adam, vivido por Scott Wolf, e Zack, papel de Jay Mohr. Os dois querem comprar comprimidos de ecstasy que costumavam adquirir com Simon Baines, personagem de Desmond Askew, colega de Ronna que está viajando.
A proposta parece oferecer uma saída para o aluguel atrasado. Ronna decide procurar Todd Gaines, traficante interpretado por Timothy Olyphant, e pede vinte comprimidos. O problema surge quando ela não consegue pagar toda a mercadoria. Para completar a operação, deixa sua amiga Claire Montgomery, vivida por Katie Holmes, no apartamento de Todd como garantia.
A situação já seria arriscada sem qualquer ajuda adicional. Manny, interpretado por Nathan Bexton, acompanha Ronna e ingere dois comprimidos escondido, sem conhecer a potência da droga. Quando deveria auxiliar a amiga, passa a enfrentar os efeitos do ecstasy e se torna mais uma responsabilidade numa noite que já saiu do controle.
Ronna também desconfia de Burke, personagem de William Fichtner, um homem insistente que acompanha Adam e Zack durante a compra. Temendo uma armadilha policial, ela se livra das drogas e tenta recuperar o dinheiro usando comprimidos comuns vendidos como ecstasy. A tentativa permite que a jovem permaneça no jogo por mais algumas horas, mas coloca Todd em seu encalço e aumenta o perigo para Claire e Manny.
Sarah Polley interpreta Ronna sem transformá-la numa vítima indefesa ou numa aventureira destemida. A personagem está cansada, precisa de dinheiro e aceita um risco que parece administrável durante poucos minutos. Quando percebe o tamanho do problema, já deve explicações ao traficante, precisa proteger os amigos e ainda espera voltar ao supermercado para trabalhar.
Simon transforma Las Vegas em confusão
A história volta ao começo da noite para acompanhar Simon, o funcionário ausente que deixou seu turno com Ronna. Ele viaja a Las Vegas com Marcus, interpretado por Taye Diggs, Tiny, vivido por Breckin Meyer, e Singh, papel de James Duval. Os quatro pretendem passar algumas horas longe do trabalho, mas Simon transforma diversão em prejuízo com uma eficiência quase profissional.
Ele invade uma festa de casamento, envolve-se com duas madrinhas e participa de uma sequência de erros que termina com danos num quarto de hotel. Simon e Marcus ainda se apropriam de uma Ferrari depois que o proprietário confunde Marcus com um manobrista. O carro oferece uma saída temporária, mas também coloca os dois dentro de um veículo que pertence a alguém armado.
A passagem por uma casa noturna piora o quadro. Simon provoca Victor Jr., interpretado por J. E. Freeman, e dispara contra ele com uma arma encontrada na Ferrari. Marcus tenta conter o amigo, porém a viagem já produziu uma perseguição envolvendo Victor Jr. e seu pai, Victor Sr., vivido por Dick Allen.
Desmond Askew faz de Simon um sujeito tão impulsivo que sua confiança chega a ser cômica. Ele entra em festas sem convite, usa objetos que não lhe pertencem e trata cada advertência como um detalhe sem importância. Marcus, por sua vez, percebe os riscos antes do amigo, embora quase sempre tarde demais para impedir o próximo desastre.
Taye Diggs oferece equilíbrio ao grupo. Marcus reage com irritação crescente, mas continua acompanhando Simon porque abandonar o amigo também seria perigoso. Os dois passam boa parte da viagem tentando escapar de problemas que poderiam ter sido poupados com uma única escolha sensata, artigo raro naquela madrugada.
Uma operação policial bastante estranha
A terceira parte acompanha Adam e Zack, atores de uma novela que mantêm um relacionamento amoroso. Presos por posse de drogas, eles aceitam colaborar com o detetive Burke para incriminar um traficante. Adam usa um gravador escondido, enquanto Zack tenta cumprir o acordo sem colocar Ronna em perigo.
A ausência de Simon força a dupla a comprar as drogas da caixa do supermercado. Zack consegue avisá-la discretamente sobre a polícia, o que leva Ronna a abandonar a mercadoria e sair do encontro. A operação fracassa, mas Burke não encerra o contato com os atores.
O policial convida Adam e Zack para um jantar de Natal com sua esposa Irene, interpretada por Jane Krakowski. Em vez de uma conversa sobre o caso, o casal apresenta aos convidados uma empresa de marketing multinível. A cena tira graça da cordialidade excessiva, dos sorrisos prolongados e da dificuldade dos atores em descobrir quando poderão ir embora.
William Fichtner interpreta Burke com uma simpatia desconcertante. O policial pode prender, pressionar e vigiar os dois rapazes, mas também parece mais interessado em transformá-los em vendedores de produtos domésticos. A combinação oferece uma das passagens mais engraçadas de “Vamos Nessa”, pois o temor de uma acusação criminal cede espaço ao constrangimento de uma reunião comercial interminável.
Adam e Zack ainda lidam com problemas amorosos quando descobrem que ambos se envolveram com Jimmy, personagem de J. J. Cohen. A discussão leva a dupla até a mesma festa frequentada por Ronna, Claire, Manny e Todd. As três histórias passam a ocupar os mesmos espaços, embora cada personagem conheça apenas uma parte do que está acontecendo.
A mesma noite por três caminhos
Doug Liman apresenta os acontecimentos por pontos de vista diferentes. A história avança, volta algumas horas e retoma situações já vistas com informações novas. Um encontro que parecia suspeito ganha outra explicação. Uma ausência passa a ter motivo. Uma perseguição iniciada num grupo invade a vida de pessoas que desconheciam sua origem.
Esse desenho poderia tornar “Vamos Nessa” confuso, mas Liman mantém os objetivos de cada personagem bem definidos. Ronna quer pagar o aluguel. Simon deseja aproveitar Las Vegas sem aceitar responsabilidade. Adam e Zack tentam escapar das acusações policiais e preservar o relacionamento. Todd quer recuperar dinheiro e mercadoria. Claire apenas espera sair daquela noite sem presenciar uma morte.
O roteiro escrito por John August encontra graça na diferença entre o que cada pessoa pretende fazer e aquilo que realmente consegue. Quase todos acreditam controlar a situação por alguns minutos. Logo surge uma dívida, uma arma, uma mentira ou alguém que ouviu mais do que deveria. A comédia nasce dessas escolhas desastradas, sem transformar o perigo em mero adereço.
Timothy Olyphant merece atenção especial como Todd. O personagem fala com tranquilidade, recebe Claire com educação e raramente precisa levantar a voz para causar receio. Essa serenidade torna sua presença mais inquietante, sobretudo quando ele descobre que Ronna substituiu o ecstasy por comprimidos comuns.
Katie Holmes também oferece delicadeza a Claire. A personagem começa como acompanhante de Ronna, mas passa a tomar decisões próprias quando percebe até onde os homens ao redor estão dispostos a ir. Claire observa, questiona e interfere quando a violência ameaça ultrapassar um ponto irreversível.
“Vamos Nessa” conserva o espírito das produções independentes norte-americanas do fim dos anos 1990, período em que cineastas buscavam estruturas fragmentadas, personagens jovens e diálogos menos solenes. Mesmo assim, o longa não depende apenas da montagem fora da ordem. A força está nas figuras humanas, todas tentando conseguir dinheiro, diversão, proteção ou afeto antes que a madrugada termine.
A precariedade de Ronna fornece o peso necessário para que a aventura não pareça vazia. Ela aceita vender drogas porque o emprego não cobre suas despesas e porque o despejo está próximo. A rave, os comprimidos e as perseguições podem parecer parte de uma vida agitada, mas a razão inicial continua prosaica. Ela precisa pagar o aluguel e voltar ao caixa na manhã seguinte.
Liman termina a noite sem oferecer grandes lições aos sobreviventes. Eles chegam ao amanhecer cansados, feridos e pouco dispostos a analisar os próprios erros. Ainda existem turnos a cumprir, dívidas a pagar e festas de Ano-Novo para planejar. Em “Vamos Nessa”, sobreviver a uma madrugada desastrosa já parece uma conquista bastante respeitável.

