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Cuidado com o adjetivo “estranho”. Em literatura, ele costuma ser usado como etiqueta preguiçosa para tudo aquilo que não se deixa reduzir depressa a assunto, mensagem, identificação ou lição de vida. O livro incomum, coitado, mal abre a boca e já ganha uma coleira: estranho. Às vezes merece. Às vezes a palavra diz pouco. Às vezes diz o bastante para que o leitor certo levante a cabeça.

Os dez títulos reunidos aqui pertencem a essa vizinhança perigosa. Não formam uma escola, um movimento, uma turma de malditos domesticados para consumo de gente chique. Há entre eles o frio terminal de Anna Kavan, a noite verbal de Djuna Barnes, a humildade suspeita de Robert Walser, a infância mitológica de Bruno Schulz, o porão cheio de livros esmagados de Bohumil Hrabal. Há também corpos engessados, meninas em zona de sombra, internatos suíços sem calor humano, damas respeitáveis descendo a escada da inadequação e um homem negro que, ao partir, desorganiza o mundo de quem achava que tudo ficaria eternamente no lugar.

São belos porque escrevem fora da linha reta. Perigosos porque não fazem contrato de boa convivência com o leitor. Alguns têm poucas páginas e peso de objeto radioativo. Outros parecem delicados até que a delicadeza mostra os dentes. O ponto comum, se é preciso procurar um, está na capacidade de criar uma atmosfera que continua trabalhando depois da leitura, como febre baixa, dívida mal explicada ou lembrança que não aceita voltar para o arquivo morto.

Todo leitor obsessivo conhece essa espécie de contaminação. Fecha o livro, levanta da cadeira, responde mensagens, paga contas, fala com pessoas normais. Alguma coisa, porém, ficou aberta.


Gelo, de Anna Kavan

O fim do mundo, em Anna Kavan, não chega com explicação científica, com mapa de crise ou com aquela papelada geopolítica que costuma dar respeitabilidade à distopia. Chega como uma brancura que avança e vai comendo cidades, fronteiras, exércitos, países inteiros, enquanto um narrador cada vez menos confiável persegue uma jovem que deseja salvar com a mesma energia com que deseja possuir. Entre eles está o guardião, figura brutal de autoridade, dono provisório da moça e de sua vulnerabilidade. A história se repete como sonho ruim: fuga, captura, ameaça, deslocamento, outra fuga. O gelo que devora o planeta parece também subir por dentro dos personagens, congelando qualquer diferença segura entre proteção e domínio, amor e violência, desastre natural e colapso psíquico.


No Bosque da Noite, de Djuna Barnes

Robin Vote é menos uma personagem a ser compreendida do que uma força de desarrumação. Felix Volkbein, Nora Flood, Jenny Petherbridge e o doutor Matthew O’Connor giram em torno dela como criaturas já meio vencidas antes mesmo de entrarem em cena, carregando desejo, vaidade, teatralidade e uma vocação quase luxuosa para a ruína. A paixão de Nora por Robin ocupa o centro nervoso da narrativa, uma dessas ligações em que amar significa perder posição, linguagem, dignidade e, ainda assim, continuar preso ao fascínio. Paris, Berlim, Viena e Nova York aparecem como estações de uma noite que é moral, sexual e verbal. A ação importa menos que as vozes. Barnes escreve como quem sabe que certas paixões não iluminam a vida. Apenas revelam seus corredores mais escuros.


Jakob von Gunten: Um Diário, de Robert Walser

Jakob entra no Instituto Benjamenta para aprender a servir, o que já diz quase tudo sobre a perversidade encantadora da operação montada por Robert Walser. Filho de família abastada, ele escolhe uma escola em que se aprende pouco, quase não se veem professores e a grande promessa de formação consiste em podar ambições até que o aluno aceite ocupar um lugar pequeno no mundo. O diário do rapaz registra essa pedagogia da diminuição com uma mistura finíssima de candura, ironia e submissão encenada. Nada ali é simples obediência, embora tudo pareça obediente demais. O protagonista observa colegas, superiores e rotinas como quem se deixa domesticar sem entregar inteiramente a alma. A graça estranha está nessa humildade que talvez seja, no fundo, uma vaidade mais secreta.


Lojas de Canela e Outras Narrativas, de Bruno Schulz

A cidade provinciana de Bruno Schulz tem loja, casa, ruas, pai, mãe, criada, infância, essas peças reconhecíveis de qualquer memória familiar. O que ela não tem é compromisso duradouro com o realismo. Sob uma prosa de exuberância quase imprudente, o cotidiano se transforma em matéria fabulosa: objetos parecem respirar, cômodos se alongam como corredores de sonho, o pai deixa de ser apenas pai para virar entidade doméstica, animal, profeta, resto de mito caído dentro de casa. A narrativa não caminha em linha reta porque não é esse o seu jogo. Ela prefere erguer uma mitologia íntima, feita de lembranças deformadas pelo excesso de imaginação. A infância, aqui, não é o país limpo da saudade. É um laboratório de metamorfoses, às vezes luminoso, às vezes grotesco.


Uma Solidão Ruidosa, de Bohumil Hrabal

Hant’a passa 35 anos num porão de Praga, alimentando uma prensa hidráulica com papel velho e livros destinados ao esmagamento. Seu ofício é destruir, detalhe que em mãos menos inspiradas renderia uma alegoria bem-comportada sobre barbárie e cultura. Hrabal prefere algo mais sujo, mais engraçado e mais triste. O operário salva volumes às escondidas, lê fragmentos, acumula exemplares em casa, bebe cerveja, divaga, conversa com uma tradição que lhe chega em pedaços, como se toda biblioteca do mundo tivesse virado refugo industrial. Cada fardo prensado é túmulo e relicário. A máquina vence no plano material, claro. Ainda assim, naquele homem coberto de papel, cansaço e álcool, a leitura encontra uma forma torta de resistência, sem pose heroica e sem discurso nobre.


Corações Cicatrizados, de Max Blecher

Emanuel, estudante de Medicina em Paris, descobre sofrer do mal de Pott, tuberculose óssea que atinge a coluna vertebral, e vai parar em Berck-sur-Mer, balneário francês especializado em tratar pacientes imobilizados por coletes de gesso. A situação poderia produzir uma narrativa de enfermaria, piedosa e imóvel. Max Blecher faz outra coisa. A vida no sanatório pulsa em carrinhos adaptados, banhos de sol, conversas, flertes, pequenas vaidades, medo, erotismo e observação clínica da própria decadência. Os corpos estão limitados, às vezes de modo atroz, mas ninguém se reduz a um diagnóstico. Há desejo onde deveria haver apenas espera, humor onde caberia lamento, lucidez onde seria mais confortável pedir compaixão. A doença não vira enfeite simbólico. Ela pesa, deforma e muda o modo de ver tudo.


Primavera Sombria: Uma Narrativa, de Unica Zürn

A infância, para Unica Zürn, não tem cheiro de refúgio. A menina que atravessa estas páginas vive entre uma família quebrada, um pai transformado em figura de fascínio, uma mãe sentida como hostil ou insuficiente, a descoberta sexual chegando cedo demais e uma imaginação que mistura desejo, culpa, medo e ameaça. A matéria autobiográfica está ali, reconhecível, mas não organiza o relato como confissão comportada. As cenas surgem em fragmentos, cortantes, quase febris, como se fossem restos de memória recolhidos depois de um desastre íntimo. A passagem para a adolescência não se oferece como crescimento, e sim como entrada num território psíquico cada vez mais perigoso. Em poucas páginas, a autora transforma a infância feminina numa experiência de solidão concreta, perturbação e fascínio sombrio.


Os Suaves Anos do Castigo, de Fleur Jaeggy

Num internato feminino da Suíça dos anos 1950, uma adolescente observa Frédérique, aluna recém-chegada que parece possuir todas as qualidades valorizadas por aquele pequeno mundo de disciplina, classe e frieza: elegância, inteligência, autocontrole, distância. A narradora se aproxima dela com uma fixação que não cabe bem na palavra amizade. Há admiração, desejo, submissão, rivalidade silenciosa e uma crueldade que dispensa gestos espalhafatosos. O colégio, cercado pela paisagem limpa do Appenzell, tem aparência idílica e funcionamento asfixiante. Meninas são educadas para a contenção, para a forma correta, para a solidão bem penteada. Jaeggy escreve seco, como se cada frase tivesse sido privada de calor antes de chegar à página. O resultado é uma educação sentimental sem consolo.


Duas Damas Bem-Comportadas, de Jane Bowles

Frieda Copperfield e Christina Goering começam como mulheres respeitáveis, ou pelo menos suficientemente ajustadas para que o mundo as deixe em paz. Jane Bowles se interessa justamente pelo momento em que essa respeitabilidade começa a azedar. Frieda viaja ao Panamá com o marido e encontra, longe da segurança conjugal, uma zona de atração ligada a mulheres dos bordéis locais. Christina, rica e solteira, abandona a própria casa e passa a buscar encontros cada vez mais estranhos, degradantes, inexplicáveis pela psicologia arrumadinha. A narrativa acompanha as duas sem transformá-las em exemplos edificantes de libertação nem em casos clínicos. A graça está no desconcerto. Bowles escreve uma comédia amarga sobre mulheres que procuram uma saída e encontram, no caminho, culpa, desejo, ridículo e uma felicidade de maus modos.


Um Tambor Diferente, de William Melvin Kelley

Tucker Caliban compra parte da fazenda onde seus antepassados foram escravizados e executa diante dos vizinhos brancos um gesto impossível de ser domesticado: salga a terra, mata os animais, incendeia a casa e parte com a família. A ação, seca e espetacular ao mesmo tempo, desencadeia um êxodo até que toda a população negra deixe aquele estado sulista fictício no fim dos anos 1950. A força da narrativa está em filtrar o acontecimento sobretudo pelo olhar dos brancos, perplexos diante de uma decisão que não conseguem traduzir para a própria linguagem. Estavam habituados a mandar, explorar, tolerar, explicar. Não estavam preparados para a recusa muda. Kelley transforma abandono em insurreição, silêncio em julgamento, partida em forma radical de dignidade.

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