Em “Sem Refúgio”, suspense de ação de 2024 dirigido por Nick McKinless, Sam Lorde (Scott Adkins) chega a Frankfurt para uma última missão depois de um disparo que deixa culpa demais na bagagem. O alvo era profissional, o serviço parecia controlado e Ken (Jack Parr), seu parceiro de campo, fazia o papel de observador com a precisão de quem conhece o perigo pelo som. Só que a operação sai do eixo quando Sam atinge também a namorada do homem vigiado. A morte da jovem, possivelmente inocente, abre uma rachadura moral num personagem acostumado a calcular distância, vento e fuga, mas bem menos preparado para lidar com a consciência.
A primeira parte do filme apresenta Sam como um atirador cansado, desses que já não confundem habilidade com paz de espírito. Ele sabe trabalhar, sabe sobreviver e sabe obedecer ordens, mas passa a duvidar do preço cobrado por esse ofício. Ken, vivido por Jack Parr, surge como parceiro leal e pragmático, alguém capaz de brincar com a tensão sem perder a noção do risco. A dupla tem uma dinâmica eficiente, sustentada por poucas palavras e muita intimidade profissional. Quando a missão inicial deixa uma vítima inesperada, o problema deixa de ser apenas operacional. Sam perde a confiança na própria mira, e isso, para um sniper, é quase uma demissão interna.
Scott Adkins costuma ser lembrado pelo domínio físico, por lutas bem marcadas e por uma presença que parece nascer pronta para o combate. Em “Sem Refúgio”, porém, ele trabalha também com o peso de um homem acuado por uma decisão antiga e por uma ameaça presente. Sam decide se afastar do trabalho e procura Tamara (Alice Eve), sua chefe, para comunicar a aposentadoria. A conversa não tem o tom de liberdade que ele espera. Tamara conhece o valor de Sam, sabe que suas habilidades interessam a outros empregadores e trata a saída dele como um problema de segurança.
A última missão
A tal missão derradeira leva Sam e Ken a um apartamento de luxo em Frankfurt. O lugar é vendido como agrado de despedida, um prêmio elegante para alguém que dedicou anos a trabalhos perigosos. Há comida, vista bonita, conforto e a chegada de Mona (Madalina Bellariu Ion) e Lily (Alba De Torrebruna), duas mulheres enviadas como parte do pacote oferecido pela chefia. Ken estranha o excesso de gentileza. O espectador também percebe que aquele mimo tem cheiro de cilada, embora o filme faça questão de manter a situação em movimento.
O apartamento é a grande arena da história. Em vez de espalhar a ação por ruas, becos e perseguições sem pausa, Nick McKinless fecha seus personagens num espaço caro, iluminado e vulnerável. As janelas, que em outro contexto venderiam sofisticação, passam a funcionar como sentença. Quando um atirador começa a disparar de fora, o ambiente confortável se transforma em armadilha. Sam tenta proteger quem está ali, Ken procura contato com Tamara usando o telefone de Lily, e cada deslocamento dentro da sala aumenta a chance de alguém virar alvo.
Vidro, tiros e pouco ar
A força de “Sem Refúgio” está nessa compressão. O filme entende bem o prazer básico de um thriller de cerco. Há um grupo reduzido, um inimigo quase invisível, poucos recursos e uma margem de erro mínima. Sam precisa transformar móveis, cortinas, ângulos mortos e armas improvisadas em chances de sobrevivência. A ação nasce da necessidade, não da exibição gratuita. Quando ele se move, há uma razão prática. Quando espera, há um cálculo. Quando atira, há uma perda possível logo ao lado.
Alice Eve compõe Tamara com frieza corporativa, sem precisar exagerar para parecer perigosa. Ela é o tipo de chefe que fala de lealdade enquanto preserva o próprio controle sobre vidas alheias. A personagem funciona porque não precisa estar o tempo todo em cena para pesar sobre tudo. A suspeita de que a missão final seja uma execução planejada muda a relação de Sam com o espaço. O apartamento deixa de ser recompensa e passa a ser uma caixa feita para eliminá-lo. O luxo, nesse caso, só serve para deixar a emboscada mais mal-educada.
Culpa em espaço fechado
Mona e Lily poderiam ser apenas figuras laterais, mas a trama dá a elas importância dentro da pressão do cerco. Lily se torna peça prática quando seu telefone ajuda Ken a buscar socorro. Mona, por sua vez, cria uma ponte humana para Sam, sobretudo quando sua filha pequena entra no horizonte emocional da história. O filme pisa em terreno conhecido, com culpa, promessa e proteção de inocentes, mas acerta ao prender essas questões a ações concretas. Sam não discursa sobre redenção. Ele protege, reage, sangra, erra menos do que pode e ainda assim paga caro.
Jack Parr também ajuda a tirar Ken do papel simples de assistente do herói. O personagem tem medo, improvisa, sofre e mantém uma lealdade que torna a parceria mais crível. Há certo alívio nas reações dele, não por piadas montadas para arrancar gargalhada, mas por um nervosismo reconhecível. Ken parece aquele sujeito que percebe o desastre antes dos outros e ainda precisa participar dele. Em meio a tiros e vidro quebrado, sua presença impede que Sam vire uma máquina silenciosa de resolver problemas.
Ação sem gordura
Nick McKinless dirige “Sem Refúgio” com interesse maior pelo espaço do que pela grandiloquência. A câmera valoriza portas, janelas, corredores e pontos cegos porque a informação muda a cada metro. Quando o sniper externo ganha vantagem, Sam perde acesso a partes do apartamento. Quando uma cortina se fecha, a sala respira por alguns segundos. Quando um corpo cai, a estratégia precisa mudar. Essa relação entre movimento e risco dá ritmo ao filme e sustenta a tensão mesmo quando o roteiro encosta em soluções familiares.
O problema do filme é o excesso de conveniência de algumas viradas. Certos acontecimentos parecem chegar na hora exata para empurrar Sam para a próxima etapa, e algumas falas explicam mais do que precisam. Ainda assim, “Sem Refúgio” mantém o foco em seu melhor recurso, que é colocar Scott Adkins num ambiente pequeno e obrigá-lo a lutar com inteligência, não apenas com força. Para quem espera pancadaria espalhafatosa, há menos espetáculo do que o habitual. Para quem gosta de ação compacta, o filme entrega um cerco tenso, físico e sem muita gordura.
“Sem Refúgio” assume sua vocação de thriller enxuto. Sam Lorde é um profissional tentando sair de um mundo que não concede aviso prévio, Tamara é a autoridade que transforma lealdade em ameaça, e Ken, Mona e Lily tornam o risco menos abstrato porque têm rosto, corpo e urgência. O filme usa bem a combinação de culpa, apartamento envidraçado e inimigo à distância. Quando Sam percebe que a saída depende de sobreviver primeiro e acertar contas depois, cada passo dentro daquele lugar passa a valer mais que qualquer discurso.

