Em “Anônimo 2”, lançado em 2025, Hutch Mansell (Bob Odenkirk) leva a família para passar alguns dias em Plummerville, cidade turística onde viveu boas lembranças na infância. O assassino profissional pretende se afastar do trabalho, recuperar a proximidade com a esposa e oferecer aos filhos férias tranquilas. O plano desanda quando uma confusão no parque de diversões coloca os Mansell diante de um empresário corrupto, um xerife violento e uma chefe criminosa que controla boa parte da região.
Dirigido por Timo Tjahjanto, o longa retoma a vida de Hutch após os acontecimentos do primeiro filme. Ele continua cumprindo missões perigosas, passa pouco tempo em casa e percebe que o casamento com Becca Mansell (Connie Nielsen) está sofrendo com suas ausências. A solução encontrada por ele parece simples. Reunir Becca, os filhos Brady (Gage Munroe) e Sammy (Paisley Cadorath), além do pai David Mansell (Christopher Lloyd), para visitar o lugar onde costumava viajar quando criança.
Férias com problemas demais
Plummerville vive do turismo, dos brinquedos antigos e da promessa de diversão familiar. Hutch chega ao local esperando repetir com os filhos as experiências felizes que teve com o próprio pai. A cidade, porém, mudou. As atrações estão envelhecidas, os preços são altos e alguns funcionários tratam os visitantes com pouca paciência. O ambiente já seria suficiente para estragar as férias de qualquer família, mas a presença de Hutch torna tudo mais perigoso.
Durante um desentendimento no parque, ele tenta conter a raiva para não decepcionar Becca. O esforço dura pouco. Hutch pode vestir roupas discretas, carregar malas e posar para fotografias em família, mas continua sendo um homem treinado para reagir com violência. Quando alguém ameaça seus filhos, a promessa de manter a calma perde espaço para seus velhos hábitos.
Bob Odenkirk volta a usar o cansaço do personagem como parte da graça. Hutch luta bem, porém não possui a aparência impecável de um herói tradicional. Ele apanha, sente dor, fica irritado e demonstra o desgaste de quem queria apenas tomar uma bebida, descansar e sobreviver a um passeio com crianças. Essa fragilidade torna as cenas de ação mais interessantes e aproxima o protagonista do público.
Uma cidade sob controle
A confusão atrai a atenção de Wyatt Martin (John Ortiz), responsável pelo parque e por parte dos negócios locais. Ele tenta proteger o funcionamento do lugar e impedir que o visitante descubra atividades que deveriam permanecer escondidas. Wyatt também mantém uma relação próxima com o xerife Abel (Colin Hanks), autoridade que usa o cargo para intimidar moradores e defender interesses particulares.
Abel não demora a enxergar Hutch como uma ameaça. O policial sabe que a cidade depende de acordos criminosos e não permite que um turista interfira nesse equilíbrio. A presença dos homens do xerife perto do hotel, do parque e dos espaços frequentados pela família transforma a viagem em uma situação sufocante. Hutch passa a observar saídas, vigiar os filhos e esconder de Becca a dimensão do perigo.
A esposa, contudo, conhece bem o homem com quem se casou. Becca percebe quando Hutch omite informações e sabe que seu silêncio costuma anunciar problemas. Connie Nielsen oferece à personagem uma firmeza importante. Ela não permanece apenas esperando que o marido resolva tudo. Becca questiona, participa das decisões e deixa evidente que proteger a família também exige sinceridade.
A chefe por trás do parque
Acima de Wyatt e do xerife está Lendina (Sharon Stone), criminosa que domina Plummerville por meio do medo. Ela controla negócios, pessoas e autoridades, usando o parque turístico para manter suas atividades longe da atenção dos visitantes. A chegada de Hutch ameaça esse arranjo, principalmente porque ele não aceita obedecer a ordens quando seus familiares estão em risco.
Sharon Stone interpreta Lendina com energia debochada. A vilã gosta de controlar a conversa, humilhar subordinados e transformar qualquer contrariedade em punição. Sua presença oferece ao filme uma adversária mais espalhafatosa do que os inimigos enfrentados por Hutch no longa anterior. Ela não precisa de grande profundidade para funcionar dentro da proposta. Basta sua autoridade sobre a cidade e a disposição para usar violência sem culpa.
O embate entre os dois cresce porque nenhum deles aceita perder território. Hutch quer proteger a família e sair de Plummerville. Lendina pretende preservar seus negócios e dar uma lição ao visitante que desafiou sua autoridade. O parque, antes planejado como cenário de descanso, passa a concentrar perseguições, armadilhas e lutas construídas com objetos encontrados no próprio local.
Brinquedos viram armas
Timo Tjahjanto aproveita corredores, brinquedos, barcos e estruturas de diversão para criar sequências violentas e inventivas. Hutch usa aquilo que está ao alcance das mãos, enquanto seus adversários conhecem melhor o espaço e possuem mais homens. Essa diferença mantém a tensão e permite que a ação tenha certa criatividade, sem transformar o protagonista em alguém invulnerável.
A comédia nasce, muitas vezes, da distância entre o passeio prometido e o desastre que a família recebe. Hutch tenta ser um pai presente, mas termina envolvido em brigas. David, vivido por Christopher Lloyd, encara o perigo com entusiasmo pouco responsável. Becca procura manter os filhos seguros, enquanto Brady e Sammy tentam compreender por que as férias se tornaram uma operação de sobrevivência.
Christopher Lloyd aparece com o carisma habitual e transforma David em uma presença divertida. O pai de Hutch conhece o passado do filho, não se assusta com armas e parece contente demais quando surge a possibilidade de participar da confusão. O personagem também lembra que a habilidade para a violência não apareceu por acaso. Existe uma relação familiar antiga com esse mundo, ainda que o roteiro trate o assunto com leveza.
A família entra na luta
“Anônimo 2” perde parte do elemento de surpresa do primeiro filme. O público já sabe quem Hutch é, conhece sua capacidade e espera que uma provocação termine em pancadaria. O novo longa compensa essa previsibilidade ao dar mais espaço para a família e ao colocar o personagem em um ambiente mais colorido, movimentado e absurdo.
O roteiro também trabalha melhor a relação entre Hutch e Becca. Ele deseja recuperar o casamento, mas continua escondendo decisões importantes. Ela quer proximidade, embora saiba que o marido não consegue abandonar totalmente o trabalho. Esse desgaste traz sensibilidade à história e impede que o filme seja apenas uma sequência de lutas ligadas por piadas.
Bob Odenkirk nunca apaga a exaustão de seu personagem. Hutch pode derrotar homens mais fortes, mas não sabe resolver uma conversa familiar com a mesma habilidade. Ele consegue improvisar uma arma com objetos comuns, embora tenha dificuldade para explicar por que outra viagem terminou cercada por criminosos. Para Becca, provavelmente seria mais fácil aceitar um hotel ruim do que um parque dominado pelo crime.
“Anônimo 2” preserva o prazer de acompanhar um homem comum na aparência e extremamente perigoso quando provocado. A ação possui energia, o elenco trabalha bem em conjunto e Sharon Stone se diverte no papel de vilã. A viagem para Plummerville não oferece descanso aos Mansell, porém devolve à família algo que Hutch vinha perdendo. Eles precisam agir juntos quando a cidade fecha todas as saídas.

