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Há relações que terminam no cartório, outras à porta de um tribunal; a de Louis de Pointe du Lac e Lestat de Lioncourt precisa atravessar um século, alguns cadáveres e a impaciência de um jornalista que já não aceita respostas adornadas. “Entrevista com o Vampiro de Anne Rice”, criada por Rolin Jones, encontra a melhor forma de adaptar o romance publicado em 1976 quando compreende que a eternidade desses personagens tem pouco de sublime. Viver para sempre significa repetir discussões, cobranças, abandonos e reconciliações até que cada lembrança seja remexida tantas vezes que já não se possa assegurar onde termina o fato e começa a defesa de quem o conta. Jacob Anderson e Sam Reid fazem de Louis e Lestat um casal unido pelo sangue e pela inclinação para ferir justamente onde o outro ainda conserva alguma sensibilidade.

Num apartamento de Dubai, Louis recebe Daniel Molloy décadas depois de uma primeira conversa que acabara mal. O gravador volta a funcionar, só que agora o entrevistador é um homem idoso, doente e tão calejado por guerras, escândalos e mentiras públicas que não se deixa hipnotizar pela dicção mansa de seu anfitrião. Eric Bogosian dá a Daniel uma insolência fatigada; ele ouve as passagens sobre a Nova Orleans do começo do século 20, consulta as anotações antigas, percebe alterações e interrompe Louis no momento exato em que a beleza de seu relato ameaça encobrir alguma torpeza. A entrevista permanece em primeiro plano, influindo no que se assiste, convertendo cada flashback num depoimento sob suspeita. Louis pode ter vivido tudo aquilo. Também pode estar tentando sobreviver à própria versão.

O amor submetido a interrogatório

Antes de Lestat, ele administrava casas de prostituição no bairro de Storyville, sustentava a família e procurava mover-se com elegância por uma cidade em que um homem negro jamais era autorizado a esquecer sua posição. Lestat o enxerga, deseja-o e passa a cercá-lo com a delicadeza de uma fera que sabe não precisar correr atrás da presa. Sam Reid compõe um vampiro vaidoso, engraçado, culto e aterrador, capaz de tocar piano para o amante pouco antes de humilhá-lo ou lançar um corpo do alto apenas para reafirmar sua autoridade doméstica. Anderson responde com um Louis cuja contenção parece prudência durante alguns episódios e, aos poucos, revela-se um modo refinado de esconder a culpa. A série explicita o romance que a adaptação cinematográfica de 1994 deixava sob espessas camadas de verniz, sem transformar a sexualidade dos dois num enfeite moderno. É dentro daquele quarto, daquela cama e daquela casa na Royal Street que se organiza a disputa pelo comando da relação.

Claudia surge depois que Louis tenta salvar uma menina ferida durante um incêndio. Transformada por Lestat, ela passa a ocupar o lugar de filha num lar que já vinha se desfazendo, e o que poderia parecer uma família monstruosamente pitoresca assume os contornos de um cativeiro. Bailey Bass, na primeira temporada, e Delainey Hayles, na segunda, lidam com a contradição física da personagem, condenada a conservar uma aparência juvenil enquanto acumula experiência, desejo e cólera. Claudia ama Louis, despreza sua passividade e entende antes dele que Lestat jamais tolerará vê-los independentes. Seu diário torna-se outra fonte documental, tão parcial quanto a fala de Louis, e Daniel aproveita cada página para pôr o entrevistado contra a parede.

A viagem de Louis e Claudia pela Europa destruída pela guerra conduz a história ao Théâtre des Vampires, em Paris, onde criaturas centenárias encenam assassinatos diante de humanos que aplaudem sem perceber que assistem a execuções verdadeiras. A teatralidade ostensiva encontra intérpretes adequados em Ben Daniels, um Santiago tão afetado quanto perigoso, e Assad Zaman, cujo Armand fala baixo, move-se com doçura e controla o ambiente com a eficiência de um carcereiro cortês. A aproximação entre Louis e Armand reorganiza o passado, enquanto Claudia busca um lugar que não dependa da condescendência de nenhum homem. Freda, a companheira que encontra nesse percurso, oferece-lhe alguns instantes de vida adulta antes que o tribunal vampiresco transforme o palco em patíbulo. A segunda temporada amplia a investigação de Daniel e o papel da Talamasca, deixando claro que as lacunas do relato foram cultivadas com método.

Por vezes, Rolin Jones enamora-se excessivamente dos diálogos, prolongando duelos verbais que já haviam alcançado o ponto de ruptura. O fausto dos cenários, as roupas impecáveis e a luz cuidadosamente doentia também ameaçam aprisionar a série numa vitrine gótica. Esse excesso pertence aos personagens. Lestat não entraria num cômodo quando pudesse invadi-lo; Armand jamais contaria uma mentira simples se tivesse a oportunidade de construir uma realidade inteira em volta dela.

Lestat toma o microfone

A terceira temporada, rebatizada “The Vampire Lestat”, entrega o microfone ao vampiro até então filtrado pelas lembranças de Louis. Transformado em estrela do rock, ele excursiona, concede sua própria entrevista a Daniel e revisita a juventude, o amigo Nicolas, a transformação imposta por Magnus e as feridas que cultivou antes de conhecer Louis. Sam Reid encontra nessa mudança de perspectiva a ribalta que Lestat sempre julgou merecer, enquanto a banda, os hotéis e as cidades de turnê convertem o velho casarão de Nova Orleans num trauma ambulante. A nova fase estreou na AMC em 7 de junho de 2026 e, após seis episódios, confirma que trocar o narrador não encerra a disputa pela verdade; apenas entrega o megafone ao sujeito mais barulhento da sala.

“Entrevista com o Vampiro” preserva a sensualidade, o horror e a vocação melodramática de Anne Rice, encontrando uma linguagem televisiva capaz de suportar suas criaturas verborrágicas e infelizes. Louis, Lestat, Claudia e Armand dispõem de séculos para aprender alguma coisa e parecem empenhados em desperdiçá-los repetindo os mesmos erros. A eternidade, aqui, é um casamento do qual ninguém consegue sair sem levar consigo um pedaço do outro.


Filme: Entrevista com o Vampiro Anne Rice’s Interview with the Vampire
Diretor: Alan Taylor, Levan Akin, Craig Zisk, Keith Powell, Emma Freeman e Alexis Ostrander
Ano: 2022
Gênero: Drama/Fantasia/Romance/Terror
Avaliação: 4.5/5 1 1
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