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No drama espanhol de 2017 “Sob a Pele do Lobo”, Samu Fuentes leva o espectador às montanhas frias do século 19 para acompanhar a solidão brutal de Martinón, vivido por Mario Casas, um caçador que tenta formar uma família do único jeito que conhece, pela força do acordo e pela lógica da sobrevivência.

“Sob a Pele do Lobo” começa em um mundo quase sem vozes. Martinón (Mario Casas) mora no alto da montanha, em uma região isolada, no fim do século 19, cercado por neve, animais mortos, madeira, peles e uma casa grande demais para uma única pessoa. Ele caça veados e lobos, cuida do próprio abrigo e passa boa parte do ano longe de qualquer convivência. O contato humano aparece apenas quando ele desce ao povoado mais próximo para vender o resultado de suas caçadas.

Esse início mostra um homem moldado pela aspereza do lugar. Martinón fala pouco, age muito e parece ter aprendido a lidar melhor com animais, facas e armadilhas do que com pessoas. Mario Casas interpreta o personagem com o corpo pesado, o olhar fechado e uma presença quase mineral. Há algo de inquietante nessa figura, não por algum gesto espalhafatoso, mas pela maneira seca com que ele atravessa o mundo, sem perceber que viver com alguém exige mais do que força física e uma despensa abastecida.

A direção de Samu Fuentes aposta em uma narrativa de poucos diálogos, mas o enredo permanece simples de acompanhar. Martinón está só, quer uma mulher, deseja uma casa habitada e imagina que uma família possa ser obtida por meio de um acordo. Seu amigo Severino (Kandido Uranga) sugere que ele arrume uma esposa, e a ideia entra na cabeça do caçador com a naturalidade de quem recebeu uma instrução sobre conserto de telhado. A partir dali, a solidão deixa de ser apenas paisagem e vira problema concreto.

A esposa comprada

Martinón procura Ubaldo (Ramón Barea), um homem pobre, pai de Pascuala (Ruth Díaz). O acerto entre os dois é duro, incômodo e revelador daquele universo. Pascuala passa a viver com Martinón na montanha, não porque tenha escolhido aquela vida, mas porque foi entregue dentro de uma lógica em que mulheres, dinheiro, peles e necessidade circulam quase no mesmo balcão. O filme não precisa sublinhar a violência dessa situação. Ela está no deslocamento da personagem, arrancada de um ambiente difícil para cair em outro ainda mais fechado.

Pascuala tenta se adaptar à casa, ao frio e ao temperamento do marido. Martinón oferece comida, teto e proteção, mas não sabe oferecer escuta. A rotina dele permanece organizada pela caça, pelas caminhadas na floresta e pelo controle do espaço doméstico. Para ele, a presença da esposa parece resolver uma falta antiga. Para ela, a montanha se transforma em prisão sem grades, onde o silêncio pesa mais do que qualquer ordem dita em voz alta.

Ruth Díaz dá a Pascuala uma mistura de fragilidade e resistência discreta. A personagem não ganha grandes falas nem gestos de bravura fabricada. Seu desconforto aparece na dificuldade de pertencer àquele lugar, no corpo que adoece, na solidão de uma mulher deixada em uma casa onde ninguém pergunta de fato o que ela sente. A dureza de Martinón, nesse ponto, não vem apenas da rudeza. Vem da incapacidade de reconhecer que a esposa tem vontade própria.

A casa vira cobrança

Quando a primeira união fracassa, Martinón volta ao povoado movido por raiva, prejuízo e sentimento de fraude. Ele acredita ter sido enganado e exige reparação de Ubaldo. A maneira como reage diz muito sobre o personagem. Em vez de elaborar perda, dor ou culpa, ele transforma tudo em conta pendente. Se a esposa não cumpriu o papel esperado, alguém precisa compensar. O amor, ali, nem chegou a nascer, mas a cobrança já sabe bater à porta.

Ubaldo não tem os recursos para devolver o que Martinón exige. A saída encontrada é ainda mais cruel. Ele entrega a filha mais nova, Adela (Irene Escolar), para ocupar o lugar deixado por Pascuala. A entrada de Adela muda a temperatura do filme, porque a nova esposa chega mais consciente do perigo. Ela sabe que a montanha cobra caro de quem não tem escolha e percebe que a brutalidade de Martinón não está apenas nos modos rudes, mas na crença de que casamento pode ser administrado pela mesma lógica usada na caça.

Irene Escolar interpreta Adela com uma tensão contida, sem transformar a personagem em símbolo fácil. Ela observa a casa, o marido, a distância do povoado e as poucas brechas disponíveis. Seu ressentimento nasce de uma situação concreta. Ela foi levada para um lugar isolado, presa a um homem que exige convivência sem saber construí-la. Nesse trecho, “Sob a Pele do Lobo” ganha sua parte mais forte, pois coloca duas formas de sobrevivência frente a frente. Ele tenta manter o domínio. Ela procura uma chance de escapar.

O frio também manda

A montanha não é apenas cenário em “Sob a Pele do Lobo”. Ela interfere na vida dos personagens o tempo todo. A neve dificulta deslocamentos, a mata afasta socorro, a casa limita escolhas e o povoado parece sempre distante demais para oferecer qualquer proteção verdadeira. Samu Fuentes usa esse espaço com precisão narrativa. Quando Martinón sai para caçar, Adela fica entregue ao isolamento. Quando ele volta, a casa deixa de parecer abrigo e passa a carregar ameaça.

O filme tem um ritmo seco, por vezes áspero, e isso pode causar estranhamento em quem espera um drama mais explicativo. A direção prefere observar gestos, rotinas e silêncios. Essa escolha combina com a história, porque Martinón é um homem que não sabe elaborar o que sente. Ele não diz, mas suas atitudes revelam a crença de que alimentar, proteger e possuir pertencem ao mesmo pacote, e essa confusão torna cada gesto doméstico mais perigoso para quem vive ao lado dele.

Há também uma crítica social bastante nítida, embora nunca embrulhada em discurso. “Sob a Pele do Lobo” retrata um mundo em que a pobreza empurra famílias para acordos perversos, e em que mulheres pagam a conta mais alta. Pascuala e Adela são tratadas como saídas possíveis para problemas masculinos. Uma deve preencher a solidão do caçador. A outra deve quitar uma dívida impossível. O filme se torna mais incômodo porque acompanha essa violência sem transformá-la em espetáculo.

Um drama de poucas palavras

O Martinón de Mario Casas é rude, limitado e, muitas vezes, assustador. Ainda assim, o ator não compõe uma caricatura de vilão. O personagem tem uma humanidade torta, quase inacessível, que aparece em pequenas hesitações e em uma carência mal resolvida. O problema é que essa carência vem armada de força, isolamento e autoridade dentro da própria casa. Quando ele tenta amar, ou algo próximo disso, já chega impondo condições.

“Sob a Pele do Lobo” é um drama severo, com pouca suavidade e quase nenhum alívio. Seu valor está na forma como transforma um enredo simples em uma experiência de desconforto crescente. Martinón quer uma família, mas age como caçador até dentro do casamento. Pascuala e Adela entram na montanha por caminhos diferentes, porém carregam o mesmo peso de uma escolha que não lhes pertence. Samu Fuentes filma essa história sem pressa e sem adornos, acompanhando o instante em que uma casa isolada deixa de prometer companhia e passa a exigir fuga.


Filme: Sob a Pele do Lobo
Diretor: Samu Fuentes
Ano: 2017
Gênero: Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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