A qualquer momento da vida podemos nos sentir perigosamente sós, como se desterrados em nossa própria existência, presos numa quietude atroadora, implorando pela compaixão de alguém, e quanto mais consome-nos a angústia, mais nos apercebemos do quão perdidos estamos em nossa angústia, buscando um salvador que não vem nunca, que tem-nos desprezo. O bucolismo das paisagens de uma China medieval em pleno século 21 é a arma de que Louyi Tang se socorre na intenção de fazer o espectador viajar no tempo — e para dentro de si — em “O Bom Professor”. Tradições, códigos tácitos, valores tidos por inúteis, mas que se impõem e mudam destinos, cercam um americano que, após uma desilusão amorosa, instala-se num vilarejo chinês sequioso por revelações divinas, mas encontra-as nos olhares curiosos das crianças e nas lições sábias e despretensiosas dos velhos.
Belezas ocultas
Apaixonar-se pode ser a perdição irreparável de alguém, mas viver não é solucionar equações matemáticas, cujos frios resultados eliminam quaisquer outras possibilidades. É preciso experimentar, arriscar-se, flertar com o perigo muitas vezes para, talvez, começar a entender que a vida tem os seus próprios mandamentos. Aos poucos, Martin vai se deixando envolver pela ideia, e o roteiro caudaloso de Tang concentra no personagem-título a grande maioria das poderosas digressões do filme, inclusive uma curiosa sequência em que Martin vai ao banheiro e é acompanhado pelas crianças, que, sem nenhuma malícia, querem saber como ele é por baixo de seus trajes ocidentais. A resposta do forasteiro soa artificiosa, mas nem por isso menos poética, e é nessa frequência que a interpretação de Zack Gold faz “O Bom Professor” vibrar.

