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Quando “Toy Story” foi lançado em 1995, eu tinha 7 anos de idade, pouco mais que meu filho, atualmente com 5, que se tornou recentemente um dos maiores fãs da franquia da Disney/Pixar. Na época, o filme mudou a história da animação. Era o primeiro longa-metragem feito inteiramente por computação gráfica e vinha de uma Pixar ainda jovem, transformada em empresa independente por Steve Jobs depois de nascer dentro da Lucasfilm. A Disney, então parceira e distribuidora, só compraria o estúdio em 2006, onze anos depois da estreia do primeiro filme.

Mas, se existe algo em que a Disney é genial e eficaz, é na construção e na manutenção de histórias que se eternizam na memória do espectador. Algo capaz de alcançar públicos de várias idades, gêneros e classes sociais. A Disney constrói sonhos e sabe muito bem mantê-los vivos. Esse talvez seja um dos segredos de seu sucesso inigualável.

A primeira ida ao cinema também é uma estreia afetiva

Ontem levei meu menino de 5 anos ao cinema pela primeira vez. Não faz muito tempo que ele passou a fixar atenção por mais de uma hora na televisão e a compreender enredos e diálogos mais complexos, desses que um filme exige. Por isso, achei que ele finalmente estava pronto para a telona. Estamos nas férias e criar programações para crianças se torna quase uma obrigação doméstica, daquelas que misturam amor, logística e um pouco de sobrevivência. Desde que ele maratonou os quatro filmes anteriores de “Toy Story” e me fez assistir ao 2 e ao 4, que eu ainda não havia visto, comecei a pensar em levá-lo ao cinema.

Cada filme da série parece superar o anterior em termos de nostalgia. A ternura é a marca dessa franquia, que explora a vida secreta dos brinquedos: o que eles fazem quando ninguém está olhando. E não, não há nada de assustador nisso. Woody, Buzz Lightyear, Jessie, Bala, Senhor Cabeça de Batata e tantos outros personagens tentam, a todo momento, preservar a criatividade da infância de seus donos. Nos primeiros filmes, esse vínculo é com Andy. Nos últimos, passa a ser com Bonnie, a garotinha que herdou os brinquedos quando Andy se mudou para a universidade.

Brinquedos contra telas

O quinto filme aborda a tecnologia e como ela tem modificado as relações entre as pessoas, especialmente entre as crianças. Agora, elas passam muito mais tempo diante das telas, encontrando menos espaço para explorar brincadeiras criativas, inventadas e compartilhadas com brinquedos de verdade. Woody já vive uma vida livre ao lado de Betty, sem pertencer a uma criança, enquanto Buzz, Jessie e os outros continuam ligados a Bonnie, agora uma menina mais velha, introspectiva e com dificuldades para fazer amizades.

Os pais de Bonnie compram um tablet com a esperança de que a filha consiga se conectar com outras crianças. O aparelho se chama Lilypad e, embora pareça apenas uma novidade tecnológica simpática, passa a ocupar um espaço cada vez maior na rotina da menina. Com acesso à tela, Bonnie começa a moldar seu comportamento a partir do que vê em outras garotas, que vivem com os rostos enfiados no tablet e já não demonstram o mesmo interesse por brinquedos. Ter bonecos, cavalinhos e figuras de ação vira motivo de exclusão, comentários maldosos e piadinhas. Bonnie, então, esconde que ainda se importa com eles.

Enquanto isso, Jessie tenta ajudar Bonnie a fazer amizades e acaba se envolvendo em uma missão que recoloca os brinquedos no centro da história. A presença de Blaze, uma garota carismática e imaginativa, abre uma possibilidade afetiva importante para Bonnie. Ela poderia ser uma amiga real, dessas que dividem brincadeiras, olhares e pequenas descobertas sem depender de uma tela para validar cada gesto. Lilypad, porém, faz o possível para manter Bonnie presa ao universo digital, onde a conexão parece constante, mas a solidão continua ali, quieta e muito bem instalada.

O desejo infantil de pertencer

O interessante é que o filme reconhece o dano da tecnologia à imaginação e à infância, mas olha com atenção ainda maior para as relações interpessoais. Lilypad conecta Bonnie a outras meninas, mas essa aproximação não se transforma em uma amizade genuína, com presença física, escuta e troca verdadeira. É uma relação baseada na imposição de comportamentos constrangedores. Ter brinquedos faz com que Bonnie seja vista como uma “bebezona”, palavra cruel porque vem embalada em riso, mas pesa como pedra para uma criança que só quer pertencer.

Bonnie ainda se importa muito com a opinião dessas meninas, algo comum nessa fase da infância, quando a busca por aceitação começa a bater à porta com uma força que os adultos às vezes subestimam. O filme entende as crianças, sua mentalidade e suas emoções. Também fortalece a ideia de que elas precisam encontrar quem as aceite, em vez de se adaptar demais aos parâmetros alheios. A infância já tem desafios suficientes sem que uma tela dite quem merece ou não fazer parte do grupo.

Pais também estão aprendendo

Os pais de Bonnie erram ao deixá-la tão apegada à Lilypad, mas o filme não os julga por isso. Eles são pais que buscam o melhor para a filha e também estão aprendendo a lidar com a tecnologia dentro de casa. Essa talvez seja uma das percepções mais bonitas de “Toy Story 5”. A obra entende que a tecnologia não pode mais ser simplesmente excluída da realidade, mas precisa ser tratada com presença, conversa e sabedoria.

“Toy Story 5” nos lembra que a infância ainda pode ser mágica, mesmo em uma era dominada por computadores, smartphones e tablets. Pode ser compartilhada com presenças reais. Pode ser barulhenta, desorganizada, inventiva e cheia de brinquedos espalhados pela sala. Pode, sim, ser brincada. E talvez seja esse o recado mais afetuoso do filme. As telas fazem parte do mundo, mas não precisam ocupar o lugar do olhar, da amizade e da imaginação.


Filme: Toy Story 5
Diretor: McKenna Harris e Andrew Stanton
Ano: 2026
Gênero: Animação/Aventura/Comédia/Drama/Família/Fantasia
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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