Em “Tomando Rumo”, comédia de ação e romance dirigida por Bobby Farrelly, Jeremy (Sam Nivola), um estudante do último ano do ensino médio, toma uma decisão desastrosamente juvenil durante uma aula de direção. Ele pega o carro da autoescola com colegas e instrutor dentro para ir atrás de Samantha (Lilah Pate), sua namorada, que saiu para a faculdade e passou a se afastar. A viagem nasce de ciúme, saudade e insegurança, mas logo vira uma confusão com escola, polícia, amizade estremecida e sentimentos que ninguém sabe estacionar sem bater no meio-fio.
Jeremy é um rapaz confiante, cheio de estilo e com pose de cineasta em formação. A jaqueta com ar de homenagem a Wes Anderson ajuda na fachada, mas não resolve o que está acontecendo por dentro. Samantha agora vive outro ritmo, em outro ambiente, cercada por novas pessoas. Cada demora dela em responder, cada amigo novo mencionado, cada silêncio no celular alimenta uma ansiedade que Jeremy tenta disfarçar com atitude.
A situação sai do controle quando Samantha some uma vez a mais do que ele consegue tolerar. Em vez de esperar, conversar ou aceitar que a namorada tem uma vida fora do ensino médio, Jeremy decide agir. Durante a aula de direção, ele pega o carro e transforma um exercício burocrático em uma missão sentimental. O problema é que a missão tem passageiros. O instrutor Mr. Rivers (Kumail Nanjiani) está no veículo, os amigos entram na confusão e a escola logo percebe que perdeu mais do que um aluno impulsivo por alguns minutos.
A premissa de “Tomando Rumo” é simples, quase antiga, mas funciona porque assume a estupidez charmosa da idade. Jeremy não quer assaltar o mundo nem provar grandeza. Ele quer chegar até Samantha antes que outro rapaz, outra rotina ou a própria vida adulta ocupem o lugar que ele achava garantido. Farrelly trata esse impulso com leveza, mas sem absolver o personagem. O romantismo dele tem graça, porém também tem ego, teimosia e uma bela falta de noção.
Amigos no banco errado
A viagem fica mais interessante quando os colegas de Jeremy deixam de ser apenas acompanhantes. Evie (Sophia Telegadis) percebe antes dos outros que aquela aventura talvez seja menos romântica do que Jeremy imagina. Ela questiona a ideia, observa as rachaduras do plano e ainda carrega um sentimento por ele, o que complica cada comentário dentro do carro. A personagem dá ao filme uma camada de desconforto afetivo, porque enxerga o menino que Jeremy tenta esconder atrás da pose.
Aparna (Mohana Krishnan) ocupa o lugar de quem gostaria de manter alguma ordem, mesmo presa em uma situação que já nasceu errada. Ela representa o bom senso tentando sobreviver no banco de trás. Yoshi (Aidan Laprete), melhor amigo de Jeremy, vem pelo caminho oposto. Interpretado por Aidan Laprete, ele é o tipo de presença capaz de piorar qualquer abordagem policial, especialmente por falar demais e guardar substâncias nos piores momentos possíveis. É um personagem desenhado para o caos, e o filme sabe usar essa energia sem fingir sofisticação.
A comédia nasce dessa soma de incompetências. Cada passageiro tenta colaborar, mas quase sempre escolhe o pior instante para falar, esconder algo ou improvisar uma desculpa. O resultado tem sabor de filme adolescente dos anos 2000, daqueles em que amigos se enfiam numa aventura absurda e descobrem que o maior perigo talvez seja passar vergonha diante de um adulto com crachá. Principal Fisher (Molly Shannon) e Officer Walsh (Tim Baltz) entram nessa perseguição como figuras de autoridade que lembram ao grupo que toda rebeldia juvenil vem com boletim, punição e telefone para os pais.
O romance perde o volante
“Tomando Rumo” faz Jeremy correr atrás de Samantha sem transformar a namorada em prêmio. A distância entre os dois existe porque ela entrou em outra fase, não porque o filme precise criar uma vilã universitária. Samantha (Lilah Pate) representa algo doloroso para quem fica no ensino médio enquanto outra pessoa avança. Ela não precisa fazer muito para desestabilizar Jeremy. Basta viver.
Essa escolha dá ao romance um peso reconhecível. O último ano antes da formatura parece pequeno para quem vê de fora, mas dentro dele cabem perdas silenciosas. Amigos começam a planejar caminhos diferentes, casais descobrem que presença física não sustenta tudo, e a turma que parecia inseparável passa a depender de calendário, distância e dinheiro. Jeremy rouba o carro porque não sabe lidar com esse deslocamento. Ele tenta alcançar Samantha, mas a estrada acaba expondo a fragilidade de todas as relações que estavam acomodadas no costume.
“Tomando Rumo” prefere andar pelo meio da estrada, com personagens reconhecíveis e conflitos fáceis de acompanhar. Em alguns trechos, a aventura ameaça perder força. Certos obstáculos parecem entrar apenas para manter o carro em movimento, principalmente quando a tensão entre os próprios adolescentes já seria suficiente. Ainda assim, o filme preserva simpatia. Ele não acelera demais, não exige grande surpresa e permite que a graça venha do erro humano.
Um carro cheio de conversas
A direção de Bobby Farrelly encontra bons momentos quando mantém todo mundo preso ao mesmo espaço. Dentro do carro, ninguém tem privacidade de verdade. Uma conversa começa na frente, outra nasce atrás, uma reação atravessa o silêncio e alguém sempre escuta mais do que deveria. A câmera de Itai Ne’eman trabalha essas divisões sem chamar atenção para si. O veículo vira uma pequena sala de espera emocional, só que em movimento, com adolescentes demais e maturidade de menos.
Sam Nivola acerta ao fazer Jeremy parecer menos arrogante do que apavorado. O personagem exibe autoconfiança, mas seus olhos entregam o medo de ser substituído. Evie nota essa falha. Aparna tenta manter os pés no chão. Yoshi empurra a turma para novas enrascadas. Mr. Rivers perde o comando da aula e passa a lidar com uma situação que nenhum manual de autoescola deve prever. Essa dinâmica sustenta a parte mais gostosa do filme, porque todo mundo ali quer chegar a algum lugar, mesmo sem saber direito qual endereço colocar no GPS.
Crescer sem manual
“Tomando Rumo” funciona melhor quando aceita sua própria modéstia. É um filme sobre adolescentes fazendo besteira por motivos compreensíveis, com uma direção que prefere leveza a sermão. A ação movimenta a história, a comédia dá ritmo aos tropeços e o romance oferece a ferida que empurra Jeremy para a estrada. Nada soa revolucionário, mas há honestidade nesse tipo de narrativa que olha para a juventude sem tratá-la como grande enigma ou simples coleção de piadas.
A viagem de Jeremy começa como tentativa de salvar um namoro, mas termina maior do que ele planejava. Ao correr atrás de Samantha, ele precisa encarar Evie, Aparna, Yoshi, Mr. Rivers, a escola, a polícia e, principalmente, a própria dificuldade de aceitar mudança. “Tomando Rumo” não precisa de grandes manobras para chegar ao seu ponto. Basta deixar um carro cheio de adolescentes seguir pela estrada errada até que alguém, enfim, aprenda quando pisar no freio.

