A maneira quase heroica como William Friedkin (1935-2023) traduziu uma pletora de assuntos somente vistos à luz do excêntrico, da bizarria, do tabu e, por óbvio, do preconceito soa hoje como mero oportunismo. Poucos entenderam tão bem como ele a universalidade do mal, um mal que ninguém domina, confundido com paranoia, histeria, depressão severa, misantropia, dependência química em estágio avançado e as tantas outras variações de moléstias que interditam o livre-arbítrio do homem, e o cercam no terreno do sobrenatural. Há uma gota de Friedkin em “O Passado Nunca Morre”, no qual Heidi Greensmith, a exemplo do que fez Hurricane Billy em “O Exorcista” (1973) e “O Comboio do Medo” (1977), também amalgama famílias disfuncionais, luxúria, condutas hediondas e crime num drama sobre amores mortos que dão numa avalanche de outras emoções, totalmente desconexas. E sem qualquer possibilidade de um recomeço.
O horror das lembranças
A realização profissional de Kate Rafter perde muito de seu sentido quando ela volta para casa. Kate passou dez anos como repórter no Iraque, e seu primeiro compromisso em solo britânico é o funeral da mãe, com quem já não tinha laços. Esse isolamento fica claro na cerimônia que reúne amigos e parentes da finada, ao fim da qual os convidados passam por ela como se atravessassem-na, e Sally faz questão de ser-lhe hostil, aproveitando a ocasião para rememorar a infância das duas, plena dos episódios de abuso e violência paterna que marcaram a irmã caçula. O romance de Nuela Ellwood, de 2016, oferece à roteirista Naomi Gibney a possibilidade de cenas atordoantes, que Greensmith materializa lançando mão de uma câmera que aproxima-se devagar, de silêncios que antecedem gritos e deixam o espectador à mercê do inconsciente. Jenny Seagrove e Anna Friel descortinam os segredos das irmãs, e a diretora vale-se desse gancho para expor o grande trauma de Kate, uma outra perda, durante a temporada no Oriente Médio. Um desfecho mirabolante enfraquece um bocado uma narrativa que mostrava-se redonda, mas Seagrove e Friel elevam o filme para muito acima do ordinário.

