Damián Szifron reúne Ricardo Darín, Leonardo Sbaraglia, Oscar Martínez e Érica Rivas em “Relatos Selvagens”, um filme de episódios que encosta seis histórias em pontos de combustão muito concretos. Um voo comercial, um restaurante de estrada, uma rodovia vazia, um pátio de carros rebocados, uma mansão sob pressão e um salão de casamento viram lugares de aperto, onde ofensa, privilégio e humilhação já não cabem mais na rotina. Tudo começa em cenário conhecido. Em vez de costurar essas partes por um personagem recorrente, Szifron prefere aproximá-las pelo instante em que alguém perde o resto de contenção e decide responder ao mundo no mesmo tom em que foi ferido.
Do avião à rodovia
A abertura no avião já mostra o truque do diretor com mão firme, porque organiza passageiros e tripulação em torno de um mesmo nome e faz a conversa casual entre poltronas ganhar peso de armadilha. Logo depois, “As Ratas” põe uma garçonete diante do homem que arruinou sua família num restaurante quase vazio, enquanto a cozinheira transforma fogão, balcão e prato servido em peças de um acerto de contas. A ameaça cabe numa bandeja. Szifron não precisa forçar a barra, porque a disposição dos corpos, a distância curta entre cozinha e salão e o silêncio do lugar já deixam cada gesto mais nervoso e mais preciso.
Na estrada, Diego e Mario saem de uma ultrapassagem e de um insulto pela janela para uma guerra de presença física, daquelas em que ninguém recua porque recuar também seria perder a própria imagem. Um pneu furado encosta o carro, a rodovia aberta não oferece abrigo algum, e a briga cresce entre lataria, vidro quebrado, terra e ferramentas arrancadas do automóvel. Ali não sobra pose. O episódio impressiona porque troca a ideia de trânsito como fluxo pela visão de dois homens atolados em barro, presos a um pedaço de metal que deixa de servir para ir embora e passa a servir apenas para continuar a luta.
Guincho, mansão e festa
Ricardo Darín entra em “Bombita” como um engenheiro de demolições que perde a festa da filha depois de ver o carro rebocado, encara fila, multa, guichê e papelada, e percebe que o desgaste já vazou da rua para dentro de casa. O episódio junta o pátio do guincho, a repartição, a calçada e a mesa da família sem separar o vexame público do esgotamento doméstico. Cada atraso pesa no corpo. Quando o apelido cola nele, o interesse não está em qualquer gesto triunfal, mas no acúmulo de pequenas humilhações, de relógios perdidos e de discussões repetidas com atendentes, regras e cobranças que nunca param.
Em “A Proposta”, a mansão do empresário vivido por Oscar Martínez concentra um atropelamento, um filho protegido a qualquer custo, um empregado chamado para assumir a culpa e um advogado que mede até o tamanho do silêncio. O dinheiro circula entre sala, escritório, portão e cozinha, enquanto a polícia e a imprensa apertam do lado de fora e transformam o acordo numa conta moral cada vez mais suja. Ninguém fala pouco ali. O melhor desse trecho está no vaivém de pessoas que entram, saem, voltam para pedir mais e tratam culpa como valor negociável, sempre sob a crença de que privilégio compra distância suficiente para manter a sujeira longe do sobrenome da família.
O desfecho no casamento de Romina e Ariel é o mais largo e o mais feroz, porque espalha a descoberta da traição entre pista de dança, mesas, cozinha e cobertura do salão, sem deixar um canto neutro para os convidados. Érica Rivas domina a sequência ao transformar choque, raiva e humilhação pública em presença física, arrastando a festa inteira para um terreno em que música, brinde, vestido e olhar atravessado passam a ameaçar alguém. A festa vira outra coisa. “Relatos Selvagens” acerta em cheio porque procura a violência não em ideias abstratas, mas em espaços, objetos e rituais muito simples, do volante ao guichê, do prato à aliança, do corredor ao salão. No fim, ficam o brilho suado do salão e o tecido branco do vestido roçando o chão pegajoso.
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