Greta Gerwig dirige “Lady Bird” com Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts e Lucas Hedges à frente de uma história passada em Sacramento, em 2002, quando Christine McPherson decide que quer ser chamada pelo nome que inventou para si mesma. No colégio católico e numa casa apertada por dinheiro curto, ela sonha em estudar na Costa Leste, enquanto Marion, a mãe, vê nesse plano um luxo fora do alcance da família. O choque vem cedo. Na viagem de carro em que as duas choram ouvindo “The Grapes of Wrath”, a conversa desanda e Lady Bird se joga do veículo em movimento, como se pudesse escapar ali mesmo da vida que tem.
Sacramento e a casa
Sacramento aparece o tempo todo, não como fundo neutro, mas como cidade concreta de ruas largas, casas simples, igreja, escola e trajetos que Lady Bird percorre olhando para tudo com impaciência. Quando fala da “wrong side of the tracks” e inventa versões mais elegantes da própria origem para circular entre colegas mais ricos, o desejo de ir embora deixa de ser só impulso adolescente e ganha peso social, feito de vergonha, pose e vontade de pertencer. A cidade cola nela. Em casa, o desemprego do pai e o aperto financeiro transformam a discussão sobre faculdade fora do estado em limite real, daqueles que entram na conversa junto com aluguel, contas e frustração.
No teatro da escola, Lady Bird tenta arrumar um lugar onde possa ser vista de outro jeito, e é ali que Danny entra em sua vida como primeiro namorado importante daquele período. O palco, os ensaios e os corredores da escola católica prolongam a batalha travada em casa, porque ela também representa quando se apaixona, quando se exibe e quando sente que ocupa menos espaço do que gostaria. Tudo acontece exposto. A humilhação vem diante de colegas e professores, e Saoirse Ronan segura isso sem enfeite, num jeito apressado de falar, mentir e recuar, como se a personagem precisasse correr na frente da própria insegurança.
Amizade, romances e despedida
A amizade com Julie pesa tanto quanto os namoros, e isso dá ao filme um centro menos óbvio e mais verdadeiro. Lady Bird se afasta da amiga ao se aproximar de Jenna e de um grupo mais prestigiado, mente sobre a casa onde vive e tenta se encaixar em ambientes que julga mais bonitos do que o bairro onde cresceu. Julie fica ali. O baile e a reaproximação entre as duas devolvem tamanho humano ao que parecia apenas vaidade escolar, porque a perda dessa amizade se mostra mais funda do que qualquer brilho social perseguido em festas, salas de aula e casas alheias.
Danny e Kyle aparecem menos como promessas românticas do que como etapas confusas de descoberta e decepção. O primeiro está ligado ao teatro e a uma ideia mais dócil de afeto, enquanto o segundo concentra a pose blasé que seduz Lady Bird e desemboca numa experiência sexual decepcionante, seguida de quebra de confiança. Nada se firma muito. Em paralelo, Marion vigia gastos, critica a filha, dobra roupas, dirige pela cidade e ama sem saber falar com doçura, e Laurie Metcalf faz dessa mãe uma presença cansada, ríspida e viva, incapaz de caber numa definição fácil.
Nada termina em grande acerto de contas, e sim numa despedida falha no aeroporto, com atraso, ausência e palavras que não chegam na hora certa. Esse adeus recolhe a briga no carro, o aperto financeiro, a mentira sobre a origem, a distância criada entre Lady Bird e Julie e a vontade feroz de deixar Sacramento para trás, só que agora tudo isso aparece sem pose, no meio do saguão e das malas. A dor fica no detalhe. “Lady Bird” se encerra com o carpete do aeroporto, o corpo parado e o barulho seco das rodinhas da mala.
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