Anders Walter dirige “Quando a Guerra Acabar” com Pilou Asbæk, Katrine Greis-Rosenthal, Lasse Peter Larsen e Morten Hee Andersen à frente de uma história situada em Ryslinge, na Dinamarca, em abril de 1945. Jakob dirige a escola local, Lis tenta manter a casa de pé e o menino Søren acompanha a mudança brusca da rotina quando o colégio é transformado em abrigo para refugiados alemães. Tudo começa ali. A chegada de mulheres, crianças e idosos em número muito maior que o esperado já impõe ao filme um problema claro, porque a guerra está perto do fim, mas a cidade ainda reage àqueles corpos como se a ocupação não tivesse acabado.
A escola sob pressão
A escola deixa de ser lugar de estudo e passa a receber mais de 500 pessoas, embora a promessa inicial incluísse comida e remédios que não chegam. O ginásio lotado, os corredores cheios, os cobertores espalhados e a falta de espaço dão peso material a quase todas as cenas, sempre presas ao aperto do prédio e ao esforço de quem tenta abrir passagem entre malas, crianças e doentes. Nada sobra ali. Walter acerta ao manter essa situação no centro do quadro, sem ampliar o foco além do necessário, como se o próprio espaço bastasse para mostrar o tamanho da crise.
A pressão material se mistura rapidamente à pressão moral, porque qualquer gesto de compaixão por refugiados alemães passa a ser lido pela comunidade como colaboração. Lis se inclina à ajuda quando vê crianças famintas dentro da escola, enquanto Jakob tenta preservar o cargo, a casa e a segurança de Søren numa cidade marcada pelo ressentimento. Ninguém fica neutro. O melhor do filme está nesse conflito entre dever público, medo privado e necessidade imediata, sempre mostrado por ações simples, um prato servido, uma porta fechada, um olhar de reprovação no corredor.
Do rancor à doença
Søren é o ponto em que o rancor da cidade ganha forma mais visível, primeiro pela humilhação que sofre na escola e nas ruas, depois pela influência de Birk, ligado ao ambiente da resistência e movido por desejo de vingança. A execução de um médico em represália, lembrada como ferida ainda aberta naquele entorno, ajuda a explicar por que o menino é puxado para esse campo de hostilidade antes mesmo de entender direito o que está repetindo. O menino aprende rápido. Quando ele se aproxima de Gisela, uma menina refugiada instalada dentro da própria escola, o inimigo deixa de ser abstração e passa a ter rosto, febre e medo.
O surto de difteria leva “Quando a Guerra Acabar” a um terreno ainda mais duro, porque a falta de atendimento e de medicamentos transforma o abrigo num lugar de espera e perda, sobretudo para as crianças. Lis tenta alimentar e acolher os menores enquanto o colégio se converte num espaço de abandono, cercado por gente que prefere punir a socorrer. A doença ocupa tudo. Quando fome, medo e febre passam a dividir o mesmo corredor, a discussão sobre pátria e vingança perde espaço para o que está diante dos olhos, uma criança sem remédio, uma mãe sem saída, uma tigela vazia sobre a mesa.
Há longas de guerra que procuram o campo de batalha e o gesto heroico, mas “Quando a Guerra Acabar” permanece na escola de Ryslinge, entre a autoridade insegura de Jakob, a compaixão arriscada de Lis, a raiva aprendida de Søren, a sombra de Birk e a presença frágil de Gisela. Essa escolha dá ao episódio histórico uma escala íntima sem reduzir sua dureza, porque tudo passa por ações concretas, dividir comida, negar remédio, suportar humilhação pública, olhar uma criança alemã como ameaça. O filme fica nesse atrito. E é dele que tira sua força, no som abafado do ginásio cheio, no cheiro de doença preso ao corredor e numa mão pequena agarrada a uma tigela.
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