Entre crescer junto e seguir caminhos diferentes, chega um momento em que a amizade precisa encarar decisões que não cabem mais na mesma rotina. “Babes” acompanha Eden (Ilana Glazer) e Dawn (Michelle Buteau), duas amigas inseparáveis desde a infância em Nova York, que agora vivem fases completamente distintas da vida adulta, e é justamente quando Eden decide ter um filho sozinha, depois de uma noite casual, que essa relação começa a ser testada de verdade.
A escolha dela não vem cercada de grandes discursos ou dúvidas existenciais prolongadas, ela simplesmente vai lá e faz, o que já diz muito sobre quem ela é e sobre o tipo de filme que Pamela Adlon quer contar: direto, íntimo e cheio de pequenas tensões do cotidiano. Eden assume o controle da própria decisão, mas rapidamente percebe que autonomia também cobra organização, apoio e presença, coisas que nem sempre estão disponíveis na medida que ela precisa.
Do outro lado, Dawn vive uma realidade mais estável, com família formada e uma rotina que já parece no limite do que dá conta. Quando Eden traz essa nova demanda, não é só uma boa notícia ou um gesto de apoio automático, é uma mudança prática na dinâmica das duas. Dawn tenta estar presente, mas não consegue sustentar o mesmo nível de disponibilidade de antes, e isso começa a aparecer em pequenas frustrações, desencontros e silêncios que dizem mais do que qualquer discussão direta. O filme acerta ao não transformar nenhuma das duas em vilã, porque o conflito nasce justamente desse lugar muito reconhecível: ninguém está errado, mas nem tudo encaixa mais como antes.
Ilana Glazer constrói uma Eden impulsiva, afetuosa e às vezes até um pouco inconsequente, mas sempre humana, enquanto Michelle Buteau traz para Dawn um equilíbrio entre humor e cansaço que dá peso às escolhas da personagem. A química entre as duas sustenta o filme, principalmente nos momentos em que o riso surge quase como mecanismo de defesa diante do caos que vai se acumulando. E a comédia aqui funciona exatamente assim, não como alívio puro, mas como parte do problema, porque muitas situações engraçadas vêm de tentativas que dão meio certo ou completamente errado.
O roteiro aposta em situações muito concretas, consultas, compromissos, mudanças de planos, conversas interrompidas, e isso ajuda a manter a história sempre próxima da realidade. Não tem grandes viradas mirabolantes, o que existe é uma sucessão de decisões pequenas que vão, aos poucos, alterando a forma como essas duas mulheres se enxergam e se apoiam. E talvez seja justamente isso que torna “Babes” tão interessante: ele entende que crescer não é um evento único, mas um processo cheio de ajustes desconfortáveis.
A direção de Pamela Adlon acompanha esse ritmo com sensibilidade, sem forçar emoção nem acelerar conflitos. A câmera observa mais do que interfere, deixando que os momentos respirem, inclusive os mais constrangedores, o que reforça essa sensação de proximidade com a vida real. Nada parece exagerado, mas também nada é simplificado demais, e esse equilíbrio é difícil de alcançar.
“Babes” não está interessado em dar respostas prontas sobre amizade, maternidade ou escolhas de vida. O que ele faz é expor como essas decisões reverberam no dia a dia, no tempo disponível, na paciência, na presença. E isso basta para deixar claro que algumas relações não acabam, mas precisam mudar para continuar existindo.
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