Dirigido por George Tillman Jr., com Khris Davis, Forest Whitaker, Jasmine Mathews e John Magaro, “George Foreman: Sua História” acompanha a subida de um garoto pobre de Houston até o topo do boxe mundial. Antes do ouro olímpico de 1968 e do título dos pesos-pesados, George Edward Foreman surge como um jovem tomado pela raiva, cercado por humilhações e pela chance real de acabar preso. Tudo começa muito cedo. A ida para o “Job Corps”, depois de quase ser detido por assalto, e o encontro com Doc Broadus colocam esse corpo bruto diante de treino, regra e direção, como se o ringue fosse a primeira moldura possível para uma força que até ali só encontrava a rua.
De Houston ao topo
A parte inicial pisa em chão duro, com Houston marcada por fome, confusão e brigas que parecem sempre a um passo de algo pior. Não há enfeite aqui. Quando Foreman entra no “Job Corps”, a relação com Broadus reorganiza a energia do rapaz, trocando impulso por saco de pancadas, rotina e técnica, sem apagar a agressividade que o trouxe até ali. George Tillman Jr. trata esse desvio de rota em gestos simples, no treino repetido, no corpo que aprende a obedecer e no rosto de um rapaz que ainda parece pronto para explodir a qualquer instante.
A subida é rápida, e o longa alinha seus marcos sem rodeio. Em cerca de um ano de treinamento, Foreman chega ao ouro olímpico de 1968, muda-se para Oakland e, pouco depois, derrota Joe Frazier em 1973 para virar campeão mundial dos pesos-pesados. A mudança de escala impressiona. O rapaz que saiu de Houston passa a ocupar ginásios, jornais e programas de televisão, e “George Foreman: Sua História” acerta ao mostrar como a fama cresce junto com a autoconfiança, quase sempre colada no tamanho daquele corpo e na sensação de que não existe homem capaz de pará-lo.
A volta às cordas
Quando Muhammad Ali entra em cena, o brilho do campeão encontra um limite que não pode ser derrubado no soco. O baque é duro. A derrota no “Rumble in the Jungle”, em 1974, pesa não só pelo cinturão perdido, mas porque racha a imagem de invencibilidade construída desde Oakland e consolidada depois da vitória sobre Joe Frazier. George Tillman Jr. filma essa virada como quem encosta a mão num ferro quente, sem prolongar demais o lamento, mas deixando no ar a impressão física de um homem que já não consegue se reconhecer inteiro naquilo que o fez famoso.
A mudança seguinte também nasce de um fato físico, quase brutal, e por isso evita qualquer névoa edificante. Depois da derrota para Jimmy Young em 1977, Foreman sofre um colapso, passa por uma experiência de quase-morte, abandona o boxe e volta a Houston em outra posição, agora ligado à fé, à pregação e ao trabalho com jovens. O corpo cobra seu preço. Em vez de apagar o homem dos ringues, “George Foreman: Sua História” põe lado a lado o ex-campeão, a igreja, a família e o centro comunitário, como se cada espaço guardasse um pedaço do mesmo sujeito, ainda procurando uma forma de permanecer de pé fora das cordas.
É nessa etapa que a cinebiografia encontra seu melhor prumo, porque o retorno ao boxe não aparece como vaidade de lenda envelhecida, mas como resposta a uma urgência material muito clara. Com o centro comunitário ameaçado por dívidas e a responsabilidade pesando dentro de casa, Foreman volta a mirar os ringues já longe de Oakland, do ouro de 1968 e da arrogância dos dias de campeão, agora movido por necessidade e dever. A luta muda de lugar. Khris Davis sustenta essa passagem com firmeza no rosto e no corpo, enquanto Forest Whitaker dá a Doc Broadus a solidez necessária para que aquela primeira guinada no “Job Corps” continue ecoando.
★★★★★★★★★★



