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Dia da Mulher é uma pinoia

Dia da Mulher é uma pinoia

Em grande parte do mundo, no dia 8 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher, oficializado pela ONU na década de 1970. Mais do que reconhecer o papel da mulher na sociedade, a data visa a enaltecer as conquistas femininas ao longo da história, no que tange aos direitos sociais e políticos mais elementares, ao combate à violência contra as mulheres e à garantia de oportunidades equânimes aos homens, seus principais algozes. Nem tigre-de-bengala, nem cachorro doido, nem cobra peçonhenta, nem Coronavírus: o principal predador da mulher é o homem. Os números de feminicídio no Brasil comprovam isso.

Há poucos dias, eu conversava com uma mulher cuja história de vida (?) comoveu-me ao extremo, inspirando a escrita desta “crônica da morte diária”. Chamemo-la Antônia. Pensei que eu tivesse problemas, mas, definitivamente, eu não tenho problema algum. Antônia tem 50 anos, mas aparenta ter 70. É divorciada. Mora de favor num barraco nos fundos, com quarto, cozinha e um varal de roupas. Tem uma filha única chamada Ana, que pariu três vezes, sendo o primeiro parto aos 15 anos. Um filho com cada homem. O último parto complicou, e a moça sofreu uma parada cardiorrespiratória, seguida de anóxia cerebral grave, que a deixou em estado vegetativo. Morre, não morre. Sobreviveu. Está viva, mas é como se não estivesse.

Antônia toma conta de Ana. Parou de trabalhar. Atualmente, vive de doações de vizinhos, de familiares e das bolsas assistenciais do governo federal, que muita gente afirma serem coisa de preguiçoso e de vagabundo. Não demorou muito tempo, o genro vazou, sumiu, escafedeu-se. Disseram-lhe que ele mudou de cidade e se casou novamente, com uma mulher mais nova e saudável. Não manda notícias. Não manda dinheiro. Não faz visitas à ex-companheira moribunda, muito menos ao filho atormentado. Antônia conta que o menino “dá enorme trabalho”, pois tem diagnóstico de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), usa remédio e se sente culpado pelo estado da mãe, apesar de ser criança.

Dia Internacional da Mulher é uma pinoia. Ao contrário do que se diz habitualmente, dia da mulher não são todos os dias. Dia da Mulher é dia nenhum. Comemorar a data chega a ser um insulto. Antônia não tem vez nem voz. Vive uma vida de merda, sem o perdão da palavra. Não passeia. Não viaja. E quase nunca se diverte. Negligencia a própria saúde. Provavelmente, morrerá de alguma doença prevenível. Nunca mais se apaixonou por alguém. Não arruma namorado. Homem nenhum quer a companhia de uma mulher com tantos problemas, ela conclui com o olhar baço.
Não encontro as palavras mais justas para expressar o meu estado de estupefação após o seu dramático relato. Abraçamo-nos em silêncio. A porta se fecha. Antônia vai-se embora. E a vida continua. Ao menos para mim, que sou homem.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.