Dirigido por Paul Thomas Anderson e estrelado por Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Chase Infiniti e Benicio del Toro, “Uma Batalha Após a Outra” começa com um sequestro e com um homem evidentemente inadequado para reagir a ele. Bob Ferguson, ex-revolucionário ligado ao French 75, sai de uma aposentadoria opaca quando um inimigo antigo reaparece depois de 16 anos e leva sua filha, Willa. Anderson não encena esse retorno como volta triunfal. Põe em circulação um sujeito cansado, confuso e meio avariado, obrigado a correr atrás da garota enquanto tenta recuperar um passado político que já não domina nem por inteiro nem com elegância.
Bob volta à clandestinidade
É aí que o filme encontra seu melhor eixo. Bob precisa reunir antigos companheiros, puxar da memória códigos de contato quase apagados e reaprender a circular por uma rede clandestina que envelheceu com ele. Nada flui direito. DiCaprio entende que a graça do personagem está nesse desgaste, no revolucionário meio chapado, meio atrapalhado, pouco heroico, mas ainda assim cercado por uma ameaça concreta. A comicidade não alivia o perigo. Ao contrário, torna mais estranho ver um corpo tão desajustado tendo de responder, de novo, a uma guerra que parecia enterrada.
Anderson também sabe que a história perderia força se a ação fosse tratada como adorno. Em vez de esconder tudo sob montagem nervosa, ele insiste em carros, estradas, curvas, subidas e perseguições que dependem de espaço físico, distância e atrito, como se cada fuga precisasse ganhar terreno na marra. O chão conta muito. Quando os veículos atravessam colinas e estradas onduladas, o filme encontra um impulso material que combina com o estado de Bob, sempre entre susto, desordem e insistência. A ação não paira acima do protagonista. Corre ao lado dele, sacode com ele e carrega o atraso de quem tenta alcançar uma batalha que já começou tarde demais.
Willa e a guerra antiga
Só que “Uma Batalha Após a Outra” não se sustenta só na corrida. Willa não aparece como simples peça de enredo, útil apenas para pôr o pai em movimento, mas como o vínculo que dá peso humano à volta de Bob para um universo de perseguição, autoritarismo e lealdade antiga. A relação entre os dois organiza o centro do filme. Quando Steven J. Lockjaw reaparece e reabre uma disputa que parecia encerrada, o sequestro passa a mexer também com outra coisa, a transmissão truncada entre um homem moldado pela clandestinidade e uma filha puxada à força para dentro desse acerto de contas.
O que interessa a Anderson, mais do que a intriga em si, parece ser esse descompasso entre corpo gasto e guerra antiga. Bob já não domina os códigos, já não entra em cena com controle e já não parece acreditar por inteiro no repertório que ajudou a formar, mas continua sendo arrastado por estruturas de violência política que sobreviveram ao fracasso, ao tempo e à desistência. Há melancolia nisso. Cada telefonema, cada reencontro e cada corrida de carro carregam o embaraço de quem envelheceu enquanto os inimigos seguiram nítidos, ativos e organizados. O filme cresce quando abandona a pose revolucionária e deixa a comédia amarga andar grudada ao medo.
Nem tudo aqui tem o mesmo peso. Às vezes Anderson estica demais o gosto pela digressão e pela excentricidade do protagonista, como se confiasse que o simples fato de embaralhar ação, sátira e tristeza já bastasse para manter tudo vivo. Nem sempre basta. Ainda assim, “Uma Batalha Após a Outra” ganha espessura quando recusa tratar Bob como símbolo puro ou como piada ambulante. Fica melhor quando aceita sua desordem. No fim, restam carros sacudindo na poeira, o relevo das colinas e um homem correndo estrada adentro.
★★★★★★★★★★



