Dirigido por Bruce Beresford, com Ashley Judd, Tommy Lee Jones, Bruce Greenwood e Annabeth Gish, “Risco Duplo” começa com um barco, sangue e um desaparecimento. Libby Parsons sai para velejar com o marido, acorda sozinha, com uma faca na mão e sem o corpo de Nick por perto, e acaba condenada por um assassinato que o tribunal aceita mesmo sem cadáver. A situação é improvável. Beresford entende isso desde o início e trata o exagero menos como obstáculo do que como impulso para pôr a personagem em queda livre.
A primeira metade acompanha a desmontagem da vida de Libby. Ela perde o marido, a liberdade e o filho Matty, entregue à amiga Angela enquanto cumpre pena, e é justamente na prisão que descobre, ao telefone, que Nick está vivo e vivendo com os dois. Isso muda tudo. A condenação deixa de ser apenas erro judicial e passa a ser golpe íntimo, desenhado por alguém que conhecia seus hábitos, sua confiança e o modo como ela reagiria ao medo.
A partir daí, “Risco Duplo” troca o drama carcerário por uma perseguição movida a raiva e cálculo. Libby passa a agir sustentada por uma leitura errada da cláusula de dupla incriminação, convencida de que poderia matar Nick sem nova punição pelo mesmo crime, e o roteiro usa essa ideia mais como licença emocional do que como argumento jurídico. O erro permanece. Ainda assim, o filme ganha força porque concentra tudo na imagem de uma mulher enganada pelo marido, traída pela amiga e lançada para fora da própria vida.
Libby contra Travis e Nick
Tommy Lee Jones entra nesse arranjo como Travis Lehman, oficial de condicional encarregado de vigiar Libby quando ela deixa a prisão. É um papel familiar para ele. A familiaridade ajuda, porque sua figura seca, cansada e desconfiada serve de contrapeso à fúria de Ashley Judd, que faz da personagem uma mistura convincente de desamparo e obstinação. Enquanto Libby segue pistas que a levam até San Francisco, onde Nick, Angela e Matty vivem, Travis a acompanha como quem percebe que há ali mais do que simples violação de liberdade condicional.
Ashley Judd segura quase tudo o que importa. Sua Libby não é sofisticada, mas direta, ferida e impulsiva, e por isso atravessa barco, cela, condicional e ruas desconhecidas sem perder o centro emocional da história. Há raiva ali. Beresford não perde muito tempo tentando dar plausibilidade plena a cada curva do roteiro, e talvez faça bem. O seguro de vida de US$ 2 milhões, o desfalque ligado a Nick e a vida paralela que ele monta bastam para alimentar a sordidez prática de que o longa precisa.
Caçada, fraude e vingança
“Risco Duplo” não é um thriller elegante nem particularmente rigoroso. Também não precisa ser. Ao reunir barco, faca, sangue, prisão, condicional, seguro milionário, perseguição e traição doméstica, Beresford monta um suspense de movimento rápido, feito para seguir Ashley Judd enquanto ela tenta recuperar o filho e acertar contas com o homem que a enterrou em vida. Tommy Lee Jones mantém a tensão em circulação, e Bruce Greenwood dá a Nick a frieza necessária para que a raiva de Libby nunca pareça excessiva. No fim, ficam a água batendo no casco, o brilho frio da lâmina e a cidade acesa do outro lado da baía.
★★★★★★★★★★



