Dirigido por Tim Burton, com Michael Keaton, Winona Ryder, Jenna Ortega e Catherine O’Hara, “Os Fantasmas Ainda se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice” reabre a porta de Winter River depois de uma tragédia na família Deetz. Três gerações voltam à mesma casa, encaram o mesmo luto e esbarram em lembranças que nunca ficaram quietas. Tudo começa no sótão. Quando Astrid encontra a maquete da cidade e mexe no que não devia, a passagem para o além se abre de novo e Beetlejuice volta a circular em torno de Lydia com a velha mistura de grosseria, desejo e bagunça.
Lydia já não é a adolescente torta do primeiro filme, mas a apresentadora de “Ghost House”, programa em que aparições e sustos viram espetáculo de estúdio. A mudança é boa. Ela tenta lidar ao mesmo tempo com a desconfiança de Astrid, que custa a acreditar nas visões da mãe, e com a insistência de Rory, namorado e produtor que a empurra para um casamento no Halloween. Quando Beetlejuice reaparece durante uma gravação, Burton junta casa, trabalho e assombração num só movimento, como se a vida pública de Lydia fosse apenas outra sala daquela casa antiga.
A melhor parte está nas coisas. A maquete no sótão, o estúdio de televisão, a escada da casa em Winter River e os corredores ocupados por gente que mal consegue se ouvir dão ao filme um corpo que muitos retornos tardios perderam pelo caminho. A ausência de Charles é resolvida numa sequência de “claymation” propositalmente precária, em que um tubarão arranca seu rosto, e o gosto ruim da piada acaba combinando com esse universo onde a morte nunca foi solene. Depois, o número musical ao som de “MacArthur Park”, com possessão e “lip-sync”, reforça a escolha por um exagero manual, barulhento e quase infantil.
O além ganha novos desvios
O além cresce com novos desvios, e Delores, ex-esposa de Beetlejuice, surge remontando o próprio corpo como se cada pedaço trouxesse de volta uma cobrança antiga. É uma imagem forte. Perto dela, o personagem de Willem Dafoe patrulha o mundo dos mortos com pose de detetive gasto, deslocando para esse espaço burocrático uma caricatura de filme policial que Burton trata mais como gag física do que como trama paralela. Nem tudo pesa do mesmo jeito, porque o acúmulo de entradas, saídas e perseguições por vezes espalha a atenção, mas há prazer claro no modo como o portal entre vivos e mortos vira corredor de acidentes, tropeços e aparições atravessadas.
O centro do filme, porém, continua na casa e no que ela aprisiona. Ninguém pisa leve ali. Astrid não acredita plenamente em Lydia, Lydia não consegue falar com a filha sem tropeçar no próprio passado, e a aproximação da garota com Jeremy Frazier amplia a sensação de risco numa cidade já tomada pelo Halloween e por sinais ruins. Quando Burton encosta o sobrenatural nesse conflito de mãe, filha e avó, “Beetlejuice Beetlejuice” encontra uma razão mais concreta para existir do que a simples vontade de revisitar um título amado.
De volta a Winter River
Há momentos em que a continuação se dispersa entre Rory pressionando Lydia, Delores cobrando o que ficou em aberto e o investigador do além puxando mais uma linha de comicidade. Ainda assim, o filme recupera força sempre que retorna a Winter River, ao estúdio de “Ghost House”, ao sótão e ao instante em que Astrid mexe na maquete como quem acorda uma coisa adormecida. Burton não tenta repetir 1988. Prefere voltar a esses lugares, deixar o caos se espalhar outra vez e terminar com aquela poeira miúda parada sobre a maquete, como se alguém tivesse acabado de tirar a mão dali.
★★★★★★★★★★




