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Hamnet, a bruxa e o mundo moderno

Hamnet, a bruxa e o mundo moderno

A ficção sempre foi um terreno de se imaginar como as coisas poderiam ser, muito mais do que simplesmente retratar o que elas são. Essa definição remonta a Aristóteles, na “Poética”, e também aos gregos, que viam na tragédia a capacidade de criar mundos possíveis e, por isso mesmo, alcançar a verdade. O desafio de leitura se torna complexo quando se trata da ficção histórica, esse híbrido que tensiona a imaginação e o registro baseado em seres, pessoas e coisas que existiram.

Um exemplo da relação entre ficção e História é o filme “Hamnet — a Vida Antes de Hamlet” (2025), de Chloé Zhao, que recorta um momento da vida de ninguém menos do que William Shakespeare. Trata-se de um terreno delicado desde o início, inclusive pelo questionamento recorrente sobre a própria existência do escritor e a autoria de suas peças. A própria vida do autor é um terreno para especulações e interpretações. Uma época em que não se trabalhava com a noção atual de autoria e assinatura.

O filme apresenta uma Inglaterra na transição do século 16 para o 17, período em que se delineiam as bases do que viria a ser o mundo moderno (vulgo capitalismo). Isso, por si só, é um motivo de interesse, dada a situação que a ilha atravessava. Nesse contexto, surge a figura de William Shakespeare, que escrevia para o teatro e vivia com a família no interior do país. A narrativa acompanha o casal William e Agnes: ele, professor de latim; ela, uma mulher com uma forma de pensar própria.

Agnes é apresentada como alguém ligada ao campo, ao pastoreio, ao falcão que a acompanha, conhecedora de ervas e da natureza. Esse comportamento é o passo seguinte para uma mulher daquele período ser chamada de bruxa. Não por acaso, o universo rural dos ingleses é a fonte para estudos de Silvia Federici, como “Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpos e Acumulação Primitiva”. Um dos pontos da pensadora italiana é a relação das camponesas com as pastagens comuns, sem donos ou proprietários.

O roteiro do filme foi baseado no romance “Hamnet”, de Maggie O’Farrell, que também colaborou na adaptação para as telas. A história acompanha o encontro de Agnes e William e a formação de sua família — sobretudo os gêmeos, sendo Hamnet um deles. A morte de Hamnet, ainda criança, desestrutura o casal e conduz a narrativa ao momento em que Shakespeare vai para Londres trabalhar com teatro. A narrativa estabelece a conexão entre Hamnet e Hamlet, sugerindo que a peça teria sido inspirada na perda do filho.

O ponto alto do filme está no final, com os trechos iniciais de “Hamlet”, assistida por Agnes no lendário teatro sem teto e em forma de arena. A mãe presencia, pela primeira vez, uma história que dialoga com a vida do filho e a relação paterna marcada pelo encontro de Hamlet e o fantasma do pai. A liberdade narrativa leva o espectador a sair da sessão com a impressão de que Hamnet realmente origina Hamlet, ainda que essa seja apenas uma das possíveis leituras.

Não é incomum ouvir, ao final da exibição, perguntas como: Hamlet existiu? Shakespeare vivia de quê? De onde vinha o dinheiro? São questões próprias de um mundo atual orientado por dados e informações objetivas, que se chocam com a liberdade da ficção histórica. Estamos falando do que “poderia ser”, muito mais do que acontecimentos.

Além da tela

Para compreender melhor esse universo do filme, dois trabalhos de autores brasileiros ajudam a ampliar a leitura. O primeiro é “Hamlet e a Filosofia” (2021), de Pedro Süssekind, que mostra como “Hamlet” dialoga com peças anteriores e reúne influências da literatura romana, de Sêneca, além de Maquiavel e Montaigne. Süssekind também explica o funcionamento do campo teatral da época: ao ar livre e muito ligado a tradições populares e religiosas.

Hamnet — a Vida Antes de Hamlet
Hamlet e a Filosofia, de Pedro Süssekind (7Letras, 252 páginas)

De acordo com Süssekind, era bem conhecida do público inglês uma peça intitulada “Ur Hamlet”, de 1598, com o personagem central de nome Amleth. Como era a prática da época, Shakespeare reescreveu a história que já trazia o eixo narrativo que ficou mais conhecido: “O jovem príncipe Amleth precisa vingar a morte de seu pai, Horvendill, morto pelo irmão Feng depois de ter se consagrado como herói ao derrotar o rei da Noruega em um duelo e de ter se casado com a herdeira do trono da Jutlândia (uma península da Dinamarca). O fratricida Feng toma de sua vítima o trono e a rainha, e Amleth finge de louco para escapar do mesmo destino de seu pai”.

A segunda referência é o livro “Discurso Filosófico da Acumulação Primitiva” (2024), de Pedro Rocha de Oliveira. A obra apresenta o contexto histórico da Inglaterra daquele período, quando se consolidavam elementos da modernidade europeia. É o momento da formação da ideia de indivíduos, consolidação do conceito de propriedade (fazenda, casa) e desenvolvimento de uma sociedade baseada na razão. Para isso, Oliveira vasculha os escritos de Francis Bacon, Thomas More e Thomas Smith.

Dos trabalhos desses três pensadores, diz o autor brasileiro, emergem as bases filosóficas de processos como colonialismo, imperialismo e vigilância social. Todos ainda em um mundo em transição. É a Inglaterra de luta entre facções (os Montecchios e os Capuletos, de “Romeu e Julieta”) e onde correm soltas as mais diversas brutalidades. Mais do que inventor do “humano”, Shakespeare pode ser visto como um observador de um local (a ilha britânica) numa fase de convulsões sociais profundas.

Ler Shakespeare dentro de sua época permite compreender, por exemplo, temas presentes em “Hamlet”. Um deles é a aparição do fantasma do pai que traz as tensões entre católicos e protestantes do período. As duas religiões têm concepções diferentes de morte e pós-morte, lembra Pedro Süssekind, e a peça permite essa leitura que expõe o universo inglês do começo do século 17. Um fantasma de concepção católica invade o palco de uma peça no contexto de uma sociedade protestante.

A contextualização de “Hamlet” é importante para se evitar a ideia de que Shakespeare tenha feito peças atemporais, universais ou até metafísicas. E, sobretudo, a extrapolação de que ele tenha inventado a ideia de um ser humano moderno. Aquele dramaturgo era uma figura bem fincada em seu tempo e espaço. Pode-se assistir ao filme “Hamnet — a Vida Antes de Hamlet” isoladamente, mas o quadro fica bem mais interessante se aceitarmos o convite para juntar à peça os trabalhos de Federici, Süssekind e Oliveira.