O que é um artista? É uma pessoa que tem habilidades extraordinárias com a linguagem. Alguém capaz de pintar um quadro, escrever um livro, compor uma música, dirigir um filme, atuar num palco etc. Essa habilidade era, até há bem pouco tempo, considerada um privilégio de poucos. A priori intransferível, ela gerava (não estamos bem certos quanto ao tempo verbal) valor e exclusividade.
Mas então surgiu um produto comercial revolucionário que é capaz de pintar, escrever, compor músicas e filmes, produzir fotografias etc. Com uma diferença que muda tudo: esse produto, chamado inteligência artificial, está literalmente nas mãos de qualquer pessoa que tenha um celular razoável, porque não é uma ferramenta física. É um software que você (em alguns casos) só precisa instalar por meio de aplicativo e utilizar, em vez de alocar recursos materiais por vezes onerosos, que tornariam a iniciativa inviável.
A partir de versões cada vez mais sofisticadas de IA, qualquer pessoa será potencialmente capaz de fazer o que um artista faz, desde que saiba elaborar um comando, ou prompt. Não é nada fácil: trata-se de uma descrição que requer conhecimentos técnicos específicos. Quanto mais preciso, melhor. Softwares já são capazes de criar projetos arquitetônicos tão desconcertantes quanto os de Frank Gehry. Filmes realistas começam a ser produzidos inteiramente em ambiente virtual. E atores de carne e osso estão sendo substituídos por correspondentes virtuais (avatares).
Com a IA, quebram-se aos poucos as antiquíssimas noções de valor e exclusividade intimamente associadas aos artistas: mais um que cria coisas que já não requerem seu talento para existir. Quem ainda precisa de um caricaturista? Um poeta? Um compositor? Estamos diante de uma mudança cultural sem precedentes, em 12 mil anos de história.
Pode parecer exagero. Talvez seja, ainda. Mas, se hoje não é exatamente assim que funciona, é bastante possível que, dentro de cinco ou dez anos, seja assim mesmo que deverá funcionar. As artes vivem uma agonia existencial inimaginável, por conta dessa revolução tecnológica. Sem valor e exclusividade, a expressão artística pode perder seu status, porque deixaria de ter a capacidade de — nos termos de Pierre Bourdieu — “enfeitiçar”. A IA está quebrando o encanto das técnicas tradicionais, com potencial de nos tornar imunes ao encanto de si mesma, em autofagia.
De acordo com o neurocientista Miguel Nicolelis, o algoritmo nunca criou nem criará nada. Seu argumento é estatístico: tudo o que as máquinas fazem é minerar dados e estabelecer correlações. Mas acaso a inteligência biológica não é também um banco de dados e não cria a partir de aprendizado, assim como o algoritmo? Sim. O que, portanto, diferencia o artista não é propriamente a inteligência, mas a consciência: temos alma; a inteligência artificial não. Na prática, interfere isso na percepção do que vemos, ouvimos, escrevemos etc.? Se não soubermos que não é feito por humanos, saberemos fazer a distinção?
Porque está cada vez mais difícil de distinguir, essa é a verdade. Um simples técnico, com habilidade de fazer prompts bem-feitos, consegue criar coisas que artistas inatos talvez não deem conta de fazer ou precisam urgentemente aprender a fazer. Consequentemente, a arte deixa de ser uma coisa de artista com pedigree: passa a ser também coisa de quem sabe usar algoritmos e inteligência artificial. Eis um exemplo de como a exclusividade artística está indo “para o ralo”, e a ideia de valor intrínseco tende naturalmente a liquefazer-se e, quem sabe, desapareça.
O algoritmo está destruindo a cultura como era entendida pela geração X. A cultura, para as pessoas na faixa dos 50 anos de idade, era uma cultura de ambientes e artefatos físicos, em dobradinha: de livros e livrarias, atores e teatros, artes visuais e galerias, filmes e cinemas, música e palcos etc. Necessariamente, não mais, porque o espaço (e a locomoção física) já não são imprescindíveis para o usufruto cultural (a grita de Kleber Mendonça Filho e Christopher Nolan). Esse é um efeito importante, mas secundário. Além de, por essa razão, estar em processo de falência física, livros podem ser escritos a partir de coordenadas gerais. Mas a situação dos escritores é mais crítica porque, com o algoritmo, as pessoas estão simplesmente desaprendendo a ler!
Estamos voltando ao sussurro porque o texto torna-se descartável. A maioria das pessoas posta fotos sem legenda no feed, seja porque perdeu o interesse pela escrita (habilidade evolutiva fundamental, sob ameaça), seja porque descobriu que a imagem se basta, autossuficiente. Isso é péssimo para o texto, mas é péssimo também para os artistas visuais, porque o mundo está saturado de imagens, cada uma mais desconcertante que a outra e criadas o tempo todo, ininterruptamente. Nesse sentido, não existe mais uma visualidade excepcional como no passado, porque o excepcional tornou-se lugar comum: mais desafiador para os artistas é a disponibilidade e popularização da ferramenta.
Até a geração X — a dos nascidos até 1968 — havia um intervalo preciso entre o banal e o extraordinário, que a manifestação periódica de artistas excepcionais preenchia. Nossas expectativas e ansiedades de consumidores de produtos culturais tinham porto seguro. A partir da geração seguinte, a dos millennials — nascidos até 1996 — a overdose do extraordinário passou a ser tão intensa que já não existe mais o fator surpresa, porque tudo surpreende e nada mais surpreende. Lá, o espaço que se perde (das livrarias, cinemas, teatros etc.); aqui, o tempo que se esgota antes da contemplação.
O algoritmo é uma droga pesada, porque nos dissocia do real e do natural. Ficamos viciados nele, mas nunca mais estaremos satisfeitos, porque nunca mais acharemos que o criado é bom o bastante, visto que há sempre um parâmetro além. Paradoxalmente desencantado, o público começa a entediar-se (o efeito autofágico). Daí parte da ansiedade e depressão do homem contemporâneo, destruído por essa overdose recrudescente e sem fim, em loopings.


